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Crise financeira: do G8 ao G20

No início do ano, o Forum de Davos reuniu como habitualmente a nata da classe empresarial mundial. Mas desta vez contou com ausências importantes. Alguns dos gestores que noutras edições davam a receita neoliberal para economia tinham sido despedidos após a falência das suas empresas, ou estavam na prisão por fraude financeira. As estrelas rock e de Hollywood também preferiram desta vez manter-se à margem do encontro.

Mas quem pudesse pensar que o mundo estava à beira de estabelecer regras claras contra os abusos da especulação e dos offshores, depressa percebeu o engano. Apesar de revistas conceituadas no sistema capitalista - a começar pela "Economist" - dizerem que os principais paraísos fiscais estão sob tutela dos EUA e da Europa, a reunião do G20 em Londres ficou-se pela publicação de uma lista "cinzenta" dos offshores que não seguem as regras da OCDE. De fora desta lista negra ficaram os offshores que de facto concentram a grande fatia do dinheiro escondido do fisco dos países de origem e que na maioria dos casos dependem de países com poder de negociação política internacional.

Entretanto, o PIB dos 30 países da OCDE registava a maior queda desde 1960 no primeiro trimestre do ano e a Organização Internacional do Trabalho previa que o emprego fosse demorar seis a oito anos a retomar os níveis anteriores à crise. Só na União Europeia, a diminuição de empregos quase atingiu os 2 milhões só nos primeiros três meses do ano.

Em Setembro, a ONU anunciou que pela primeira vez a fome vai afectar mais de mil milhões de pessoas no planeta. Mais grave ainda é o facto do orçamento do Progama Mundial de Alimentos ser o mais baixo dos últimos 20 anos. A ONU sublinha ainda que apenas 1% das verbas que foram injectadas nos bancos seriam suficientes para reduzir muito substanciamente esta catástrofe. Nos EUA, o estudo oficial sobre segurança alimentar concluiu que uma em cada seis famílias passou fome em algum momento do ano anterior.

No último trimestre do ano, multiplicaram-se as notícias de que os grandes gestores financeiros nada tinham aprendido com a crise, voltando a distribuir bónus gigantescos pelas administrações, dinheiro muitas vezes vindo directamente dos cofres públicos como auxílio para combater a crise. Sem surpresa, os países do G20 não aceitaram limitar estes bónus na cimeira de Pittsburgh em Setembro, e optaram por adiar as penalizações a offshores incumpridores e a limitação dos mercados de derivados, que em muito contribuiram para encher a bolha especulativa que rebentou em 2008.

As ajudas aos bancos não pararam ao longo do ano, que termina com o governo inglês a injectar milhares de milhões de libras no Royal Bank of Scotland e no Lloyds Group e o governo austríaco a nacionalizar o Hypo Group para evitar a falência.

Mas os custos totais não deverão ficar por aqui já que o próprio director do FMI admite que metade das perdas da crise não tenham sido ainda reveladas, com esses "activos tóxicos" ainda presentes no balanço da contabilidade dos bancos. A prová-lo está a crise aberta em Novembro no Dubai, com um dos grupos financeiros que concentrava boa parte da dívida a pedir a suspensão de pagamentos por seis meses, criando novo efeito dominó nas bolsas mundiais.

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Resto dossier

O Mundo em 2009

Este ano ficou marcado pela crise económica mundial, a precariedade e o desemprego nos países desenvolvidos, onde o capital pôs em marcha novas tácticas. 2009 começou sob o signo da guerra israelita contra Gaza e viu disputarem-se eleições com fortes suspeitas de fraude no Irão e no Afeganistão. Obama frustrou muita da esperança que dizia trazer à Casa Branca e o tempo dos golpes de Estado voltou à América latina. A xenofobia ganhou espaço na Europa, tal como a repressão na China. O ano fechou com os líderes mundiais a deixarem claro que não estão à altura de evitar a catástrofe ecológica. 

Cimeira de Copenhaga acaba em fracasso

Ao fim de dois anos de negociações, os países reunidos em Copenhaga não conseguiram o tão esperado acordo. Numa manobra de última hora, Obama reuniu as assinaturas de 28 países num texto que não define metas nem é vinculativo para ninguém. A cimeira expulsou algumas ONG presentes e a polícia dinamarquesa reprimiu as acções de rua dos activistas ambientais. Mas não conseguiu impedir que cem mil pessoas se juntassem na maior manifestação de sempre pela justiça climática.

Afeganistão: a guerra continua

Pela primeira vez desde a invasão, morreram mais soldados ocupantes no Afeganistão do que no Iraque. As eleições presidenciais afegãs ficaram marcadas pela fraude generalizada, o que não impediu Obama de reforçar as tropas dos EUA, acusadas de bombardeamentos sobre a população civil.

Irão: presidenciais abrem brecha no regime

A revolta encheu as ruas de Teerão quando foram anunciados os resultados das presidenciais de Junho. O poder de Ahmadinejad tremeu pela primeira vez na campanha, mas apesar das denúncias de irregularidades acabou por ser validada a sua vitória com 64%. A repressão que se seguiu matou dezenas de pessoas e levou quatro mil à prisão. Seis meses depois, cerca de 140 opositores continuam presos e pelo menos cinco foram condenados à morte.

Xenofobia na Europa

O resultado do referendo suíço a proibir a construção de minaretes foi um dos sinais mais visíveis do regresso da xenofobia aos países europeus. Mas a perseguição aos imigrantes foi reforçada na lei de outros países.

Israel vira à direita após massacre de Gaza

A ofensiva terrestre de Israel na faixa de Gaza teve início a 27 de Dezembro de 2008, e terá provocado cerca de 1.417 mortos, entre os quais 926 civis. As Nações Unidas referem ainda a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Honduras: o regresso dos golpistas à América Latina

Quando alguns membros do exército hondurenho tiraram Manuel Zelaya do palácio presidencial para o levar para a Costa Rica, foi difícil não lembrar o passado da América Latina repleta de golpes de estado com a bênção de Washington. A história voltou a repetir-se nas Honduras do século XXI.

China: 20 anos após Tianamnen, agravam-se as tensões étnicas

A China passou a líder mundial das exportações no primeiro semestre de 2009, mas o ano que lembrou o 20º aniversário do massacre de Tiananmen ficou marcado pela repressão sobre opositores e minorias étnicas.

France Telecom: Suicídios e pressão laboral

O escândalo abalou a França. As dezenas de suicídios de trabalhadores vítimas da reestruturação da empresa traduziam-se em recompensa aos dirigentes da France Telecom, cinco anos após a privatização.

Crise financeira: do G8 ao G20

Na ressaca da maior crise financeira desde o colapso de Wall Street em 1929, o mundo viu crescer o desemprego e a fome. Mas também assistiu à emergência do G20 como principal fórum das questões económicas, com duas cimeiras a adiarem medidas urgentes para travar a ganância dos especuladores.

Obama e a esperança que diminui

O primeiro ano da administração Obama veio confirmar as reticências de muitos acerca da prometida "mudança" no sistema político e económico dos EUA. A promessa falhada de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e o reforço da guerra no Afeganistão são a marca deste início de mandato.