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2010, a crise continua

"Acabou a recessão técnica", clamava o primeiro-ministro no Verão. Desde então repetiu sempre o mesmo: tudo resolvido, o governo fez o que tinha a fazer, o país voltou aos carris do progresso.

Só que havia nesta história, como na da morte da Mark Twain, um ligeiro exagero. Em primeiro lugar, porque este critério de "recessão técnica" é um critério técnico para esconder a recessão. Com estas contas, uma economia pode estar a decrescer e a criar desemprego durante anos seguidos e estar "tecnicamente" fora da recessão. Este conceito é ignorante e enganador.

Em segundo lugar, o governo escondeu os números do descalabro orçamental, consequência do aumento das despesas e diminuição de receitas que o prolongamento da recessão inevitavelmente provoca. Foi precisamente quando proclamava que tinha "terminado a recessão técnica" que o governo pediu um orçamento rectificativo para aumentar a dívida pública este ano em quase 10% do PIB. Veja-se um detalhe das contas enganadoras: neste momento, as contas públicas não registam o buraco do BPN (que haverá de andar entre os 2 e os 3 mil milhões de euros quando se apurarem as contas finais) e só regista um activo, os 380 milhões de euros da conta de participações do Tesouro, que correspondem ao capital social do banco, mesmo que este não valha nada. O pior das contas ainda está para vir.

Finalmente, a crise continua por uma outra razão. É que, ao longo de toda a década, o crescimento da economia foi medíocre, a divergência europeia acentuou-se e o desemprego estrutural de longo prazo agiganta-se. Nesta economia dependente de outras, nem as exportações crescem nem a produção se reconverte.

Assim, os riscos sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque dominarão as grandes economias no ano de 2010. O risco de nova recessão continua muito significativo.

A crise continua, ainda, porque o fracasso dos senhores da economia é a maldição nacional: Belmiro de Azevedo preocupa-se com a imposição das 60 horas semanais nos hipermercados e centros comerciais, e Américo Amorim preocupa-se com as rendas que o Estado lhe garante. Nem emprego, nem qualificação, nem inovação, nem justiça na economia. Essa é a crise de 2010.

Francisco Louçã

(...)

Resto dossier

Temas para 2010

Neste dossier publicamos dez artigos sobre alguns temas que marcaram 2009 e perduram para 2010.
2010, a crise continua por Francisco Louçã; Sócrates à boleia por Luís Fazenda; Crise e Cultura por Catarina Martins; Política de saúde: 2009, a gripe A contagiou o governo por João Semedo; 2010, o ano da escalada afegã por Jorge Costa; Violência contra as mulheres - 2009 entre os números e as leis por Sofia Roque; Professores, educação pública em Portugal por Miguel Reis; O desemprego está para durar! por Francisco Alves; Ano novo, que movimentos e lutas sociais? por Carlos Carujo; O combate contra a discriminação LGBT: os desafios que virão por José Soeiro e 2010: o ano do princípio do fim por Myriam Zaluar. 

2010: o ano do princípio do fim

Se pensarmos bem chegaremos à conclusão que em Portugal, em 2010, excepcional é mesmo trabalhar com um vinculo estável e com os direitos que foram conquistados pelas gerações anteriores. Artigo de Myriam Zaluar

O combate contra a discriminação LGBT: os desafios que virão

2010 começará com uma interessante discussão no Parlamento. A Assembleia da República vai votar, a 8 de Janeiro, 3 projectos de lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Artigo de José Soeiro

Crise e Cultura

Será que as Indústrias Criativas vão aparecer numa manhã de nevoeiro para nos salvar? Artigo de Catarina Martins

Professores, educação pública em Portugal

Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se os desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a guerra. Artigo de Miguel Reis

Sócrates à boleia

Sócrates-kamikaze, precipitando legislativas, entregaria o governo de bandeja... punido pelos mesmos sectores que ambicionam a estabilidade a qualquer custo. Artigo de Luís Fazenda

Violência contra as mulheres - 2009 entre os números e as leis

Na verdade, da análise dos números resulta uma conclusão incontornável, a de que a violência doméstica é sobretudo violência contra as mulheres. Os números dizem-nos, portanto, que a dominação masculina existe, persiste e tem de ser combatida. Dizem-nos que precisamos de transformação, de emancipação, de organização social, de luta feminista. Artigo de Sofia Roque

2010, a crise continua

Os riscos sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque dominarão as grandes economias no ano de 2010. Artigo de Francisco Louçã

2010, o ano da escalada afegã

Enquanto enterra dinheiro e recursos para salvar a face da NATO no Afeganistão, o governo prepara-se para receber, nos finais do novo ano, uma cimeira da aliança. Artigo de Jorge Costa

Política de saúde: 2009, a gripe A contagiou o governo

Enquanto, os problemas do SNS e da saúde dos portugueses passaram para um segundo plano. Artigo de João Semedo

O desemprego está para durar!

Para inverter esta elevada taxa de desemprego, sabemos que não basta evitar a perda de postos de trabalho, é fundamental criá-los. Artigo de Francisco Alves

Ano novo, que movimentos e lutas sociais?

Defende-se aqui que é urgente que a militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda anti-capitalista. Artigo de Carlos Carujo