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Professores, educação pública em Portugal

Vale a pena lutar, mesmo quando a montanha parece não se mover. Se 2008 foi o ano dos protestos gigantes dos professores, foi preciso esperar por 2009 para o governo declarar oficialmente tréguas. Mas a luta pela escola pública vai continuar em 2010.

Depois de tanta força colidir contra a muralha do autoritarismo, parecia sobrar apenas a resistência longa e desgastante. Em 2009 os professores tentaram inventar novos fôlegos. Repetir os cem mil na rua seria sempre difícil. Restava a luta arriscada das dezenas de milhares que não se renderam e experimentaram o que é a desobediência civil.

Ainda assim, foram mais de 50 mil os que em Maio desceram a avenida. A uma semana do período eleitoral, experimentava-se a vingança. Assim foi: o PS perdeu as eleições europeias e deixou fugir a maioria absoluta nas legislativas. A luta dos professores pesou nas urnas tal como já tinha pesado nas ruas. Porque o voto dos professores não foi só deles: foi de todos e todas os que disseram não à tecnocracia de rosto desumano.

Encostado à parede, o governo declarou tréguas mas ao mesmo tempo mostrou-se viscoso como uma serpente. Nova ministra, nova atitude, mas sem largar o osso das políticas. Nesta tentativa de manter a face contou com um aliado previsível: o PSD contemporizou e salvou Sócrates de uma derrota contundente no parlamento.

O projecto da escola empresa que produz estatísticas agradáveis à vista está agora em cheque, mas ainda longe de ser vencido. Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se os desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a guerra.

Directores, cadeias de comando e professores que competem contra professores. Hierarquias militarizadas e obedientes que garantem a produção e reprodução de resultados artificiais. Instituições baratas, sem recursos para o sucesso real de todos os alunos, sustentadas à custa da precariedade e do medo servil de milhares de profissionais. Esta é a escola de Sócrates. É uma escola refém do neoliberalismo.

Resta aos professores levar a luta até ao fim. Movimentos e sindicatos devem recusar a precarização e menorização da carreira docente, mas têm a obrigação de ir mais longe.

Impõe-se um desafio mais ambicioso: lutar por uma escola que não desista de ninguém. Exigir menos alunos por turma e equipas multidisciplinares que previnam o insucesso. Reformular os currículos e reduzir a carga horária. Munir as escolas de todos os meios que garantam a igualdade de oportunidades.

Porque faz falta libertar a escola. Faz mesmo muita falta fazer dela uma arma: contra a selva neoliberal e pela cidadania crítica e sem exclusões.

Miguel Reis

(...)

Resto dossier

Temas para 2010

Neste dossier publicamos dez artigos sobre alguns temas que marcaram 2009 e perduram para 2010.
2010, a crise continua por Francisco Louçã; Sócrates à boleia por Luís Fazenda; Crise e Cultura por Catarina Martins; Política de saúde: 2009, a gripe A contagiou o governo por João Semedo; 2010, o ano da escalada afegã por Jorge Costa; Violência contra as mulheres - 2009 entre os números e as leis por Sofia Roque; Professores, educação pública em Portugal por Miguel Reis; O desemprego está para durar! por Francisco Alves; Ano novo, que movimentos e lutas sociais? por Carlos Carujo; O combate contra a discriminação LGBT: os desafios que virão por José Soeiro e 2010: o ano do princípio do fim por Myriam Zaluar. 

2010: o ano do princípio do fim

Se pensarmos bem chegaremos à conclusão que em Portugal, em 2010, excepcional é mesmo trabalhar com um vinculo estável e com os direitos que foram conquistados pelas gerações anteriores. Artigo de Myriam Zaluar

O combate contra a discriminação LGBT: os desafios que virão

2010 começará com uma interessante discussão no Parlamento. A Assembleia da República vai votar, a 8 de Janeiro, 3 projectos de lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Artigo de José Soeiro

O desemprego está para durar!

Para inverter esta elevada taxa de desemprego, sabemos que não basta evitar a perda de postos de trabalho, é fundamental criá-los. Artigo de Francisco Alves

Crise e Cultura

Será que as Indústrias Criativas vão aparecer numa manhã de nevoeiro para nos salvar? Artigo de Catarina Martins

Professores, educação pública em Portugal

Afastaram-se os carrascos, perdoaram-se os desobedientes, reformulam-se algumas políticas. Os professores ganharam uma batalha, mas falta muito para que a escola vença a guerra. Artigo de Miguel Reis

Sócrates à boleia

Sócrates-kamikaze, precipitando legislativas, entregaria o governo de bandeja... punido pelos mesmos sectores que ambicionam a estabilidade a qualquer custo. Artigo de Luís Fazenda

Violência contra as mulheres - 2009 entre os números e as leis

Na verdade, da análise dos números resulta uma conclusão incontornável, a de que a violência doméstica é sobretudo violência contra as mulheres. Os números dizem-nos, portanto, que a dominação masculina existe, persiste e tem de ser combatida. Dizem-nos que precisamos de transformação, de emancipação, de organização social, de luta feminista. Artigo de Sofia Roque

2010, a crise continua

Os riscos sistémicos de economias presas a sistemas financeiros que flutuam sobre mares de activos tóxicos repercutem-se na economia portuguesa porque dominarão as grandes economias no ano de 2010. Artigo de Francisco Louçã

2010, o ano da escalada afegã

Enquanto enterra dinheiro e recursos para salvar a face da NATO no Afeganistão, o governo prepara-se para receber, nos finais do novo ano, uma cimeira da aliança. Artigo de Jorge Costa

Política de saúde: 2009, a gripe A contagiou o governo

Enquanto, os problemas do SNS e da saúde dos portugueses passaram para um segundo plano. Artigo de João Semedo

Ano novo, que movimentos e lutas sociais?

Defende-se aqui que é urgente que a militância social se torne uma aposta decisiva de toda a esquerda anti-capitalista. Artigo de Carlos Carujo