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A convergência das esquerdas

As razões profundas da aproximação na acção, no combate político, prendem-se com aquilo que há muitos anos se chama a crise estratégica do reformismo. É o factor poderoso da insatisfação de largos sectores da população e dos seus representantes políticos que se juntou à oposição de esquerda "tradicional". O fenómeno não é exclusivamente português, é bastante acentuado na união europeia. Os partidos socialistas após a 2ª guerra mundial praticaram uma política reformista a favor das classes trabalhadoras. O "estado-providência" tornou-se a Meca dos programas de reformas. A partir da década de 80 a progressiva transferência desses partidos, uns mais que outros reconheça-se, para as concepções neoliberais da burguesia conservadora transformou-os numa loja vazia para os interesses populares. Partidos de reformas que não fazem reformas, e crescentemente assumem contra-reformas no sistema do wellfare, entram em crise de identidade e estratégia, exibem duplicidade.

Esse mal-estar, produto da metamorfose liberal dos socialistas oficiais, é que provoca a contestação ideológica nas suas fileiras e eleitorado. "Já não me revejo neste partido" não é só um estado de tristeza, é o reconhecimento de um processo.

A presença do Partido Socialista no governo é, como é fácil de ver, o acelerador de todas as divergências programáticas, pois é quando o choque entre a imagem e a realidade é mais brutal. Os descontentes bem podem invocar Antero, Leon Blum, Olof Palme, isso não faz parte da cartilha ideológica de Sócrates, remetido ao pragmatismo liberal.

2. O PS não é algarismo deste número

Convenha-se que a convergência das esquerdas nada tem a ver com o "programa comum" de Mitterrand e Marchais. Esse tempo, sem o analisar agora, não volta mais. O PS não faz parte desse esquema. A não ser para aqueles que acham que vão reconverter o PS, e andam nisso há mais de 20 anos. A necessidade de convergência das esquerdas para derrotar a política neoliberal é um processo longo e acidentado de refundação das áreas políticas respectivas. Embora não exclusivamente. Os movimentos sociais podem ter aqui um papel de impulso muito marcante. A presença de destacados líderes sociais no Fórum "Democracia e Serviços Públicos" potencia esse processo.

Entenda-se que nada tem a ver com a aritmética eleitoral. Confundir isto com discussões sobre situações de coligações eleitorais ou governamentais é perceber tudo ao contrário: toda esta dinâmica funciona exactamente contra o partido do governo, e destina-se a criar a prazo uma alternativa. A quem? À política neoliberal do PS, claro.

3. Clarificações

No que toca ao Bloco de Esquerda o processo de refundação e de avanço político, de pluralismo no ideal socialista é bem conhecido. Outras áreas terão a evolução que determinem. Descontentes do PS poderão até criar organizações novas, maxime um partido, para eventualmente recuperar um espaço social-democrata.

A alternativa de poder de que fala M. Alegre não é seguramente o socialismo mas seria descabido, ainda mais na actual adversa relação de forças, subestimar possibilidades de ruptura com as políticas neoliberais de PS e PSD, o bloco central de interesses. Esse sim, seria um sinal de modernidade na Europa.

O debate do programa, aproveitando as várias eleições de percurso nos próximos anos, pode revelar convergências na orientação económica de redução drásticas das desigualdades sociais, no papel do estado e dos serviços públicos, no motor da cultura e educação. Da remodelação do modelo produtivo, à ecologia abrangente, às alterações europeias, à desvinculação do bloco militar da NATO, o tempo e as circunstâncias apontam para compromissos exigentes.

Discutamos então a alternativa antes de discutir o poder. Somos agentes desse progresso.

Luís Fazenda

(...)

Resto dossier

Temas que marcaram 2008

Neste dossier, doze textos sobre alguns temas que marcaram 2008.

Desfecho da Era do Petróleo

2008 termina com alguns recordes históricos, foi o ano em que explodiu a maior recessão das últimas décadas, em que se agravou dramaticamente a crise alimentar que deixa milhões de pessoas sem o alimento mínimo para a sua subsistência e o ano em que as tempestades decorrentes das alterações do clima se mostraram mais devastadoras, provocando os maiores custos em vidas e bens. Texto de Alda Macedo

Depois de Correia de Campos, mudou alguma coisa para tudo ficar na mesma

O ano de 2008 fica marcado pela demissão de Correia de Campos, esgotado e derrotado politicamente quer pela ampla movimentação popular contra a política de encerramento de serviços do SNS, quer pela contestação conduzida pelas forças de esquerda à estratégia privatizadora do ministro e do governo, na qual se envolveram destacados membros do PS. Texto de João Semedo

A convergência das esquerdas

1. O contexto

2008, do Teatro da Trindade à Aula Magna tiveram aí lugar assembleias de proximidade entre socialistas descontentes, o campo do Bloco, outros grupos políticos e personalidades. Dessas assembleias tudo se disse, sobejou a especulação jornalística. Importa talvez perceber as razões por que foram possíveis. Dizer que se trataram de espaços de crítica, muito contundente, ao governo do Partido Socialista, é dizer pouco. E, no entanto, esse era o ponto de partida: a condenação das políticas liberais que têm dominado. Nesse aspecto teve o eco previsto. Texto de Luís Fazenda

Balanço do Ensino Superior 2008

O ano de 2008 foi um ano de grandes mudanças e de redefinição do ensino superior em Portugal. Ficou marcado pela consagração de um novo regime jurídico para as instituições que institui novas regras de funcionamento e uma lógica associada ao gerencialismo e ao paradigma liberal da "nova gestão pública"; pela implementação em força do processo de Bolonha com todas as suas contradições e consequências; pelo decréscimo do investimento público (com o correlativo agravamento das despesas dos estudantes e das suas famílias) e pela asfixia financeira das escolas, sob os protestos de reitores e estudantes e a agressividade arrogante do Ministério; pela descoordenação e fraqueza relativa de resposta dos estudantes mediante todo este processo. Texto de José Soeiro

O precariado está a passar por aqui

Há apenas dois anos, quem recorresse a um motor de busca para obter informação sobre recibos verdes, aperceber-se-ia que quase não havia o que pesquisar, apesar de mais de um milhão de pessoas trabalharem nesta condição.
Dois anos depois, a Wikipédia tem uma entrada sobre recibos verdes e o endereço ‘recibos verdes' está registado.
Dois anos depois, muitos milhares de pessoas já ouviram falar de ‘falsos' recibos verdes.
Dois anos depois, os recibos verdes começam a ter algum peso político e mediático. Texto de Cristina Andrade

2008, o ano em que o planeta se revelou finito

2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais. Texto de Rui Curado Silva

Estados Unidos: um capítulo novo?

O neo-conservadorismo épico tinha morrido nas areias do Iraque e o neo-liberalismo do trickle-down tinha ruído nas lamas de New Orleans. O que aconteceu económica e politicamente nos Estados Unidos em 2008 foi apenas o início da escrita do capítulo seguinte de uma narrativa anunciada desde então. Texto de José Manuel Pureza

Professores: Projectar em 2009 o enorme capital de luta acumulado

No passado dia 1 de Março, quando várias centenas de professores se juntavam na Praça do Bocage, em Setúbal, para contestar o inacreditável e maquiavélico modelo de avaliação de desempenho docente, os jornalistas procuravam afanosamente colher declarações junto dos promotores da concentração. Mas quem eram esses promotores? Onde estavam? Texto de João Madeira

Crise alimentar

O ano de 2008 foi marcado pela emergência de uma crise alimentar mundial profunda devido ao grande aumento do preço dos alimentos básicos. Texto de Rita Calvário

A grande recessão e o risco da deflação

O recentemente galardoado com o Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, tem uma carreira curiosa. Tendo escrito os seus principais contributos para a teoria económica há cerca de vinte anos, Krugman dedicou-se desde então à divulgação e ao debate das teorias económicas e, sobretudo, das opções dos governos do seu país, os Estados Unidos. Feroz crítico da economia especulativa de George Bush (e que tinha sido iniciada por Bill Clinton), já em 2005 Krugman tinha deixado o alerta: "A economia americana depende das pessoas venderem casas umas às outras, sendo as dívidas pagas com dinheiro emprestado pelos chineses". Texto de Francisco Louçã

A tríade dos “B”s: Os três bancos que marcaram 2008

Do ponto de vista das instituições financeiras, este será, com certeza, um ano para recordar. A crise financeira poderá ser a causa (e consequência) de alguns dos episódios passados, mas não será com certeza réu único. Texto de Mariana Mortágua