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O Haiti também é aqui

A situação no Haiti trouxe de novo para a ribalta os muitos agentes da ajuda internacional, acompanhados lado a lado pelos seus críticos. Enquanto se fazem todos os esforços para apoiar o Haiti, muitos perguntam-se, correctamente, se esses esforços são suficientes, se são feitos pelas pessoas certas, quais os seus impactos no futuro.

Imediatamente após a tragédia, o Brasil, a França e os Estados Unidos começam uma corrida pelo domínio na ajuda. Enquanto isso, os portugueses provam que os seus aviões não estão preparados para arrancar imediatamente para um cenário de catástrofe e todos assistimos ao reforço da presença de forças militares estrangeiras no país, temendo que o seu papel se intensifique e se substitua, a prazo, às autoridades locais. Logo a seguir virá a ocupação económica: a reconstrução económica transformar-se-á em reformulação das políticas económicas, com base nas dicas habituais da ortodoxia internacional...

Alguns, como a autora Naomi Klein, avisam-nos já de que este processo poderá alterar profundamente a estrutura económica do país. Em Nova Orleães, o fim do desastre trouxe a privatização de grande parte do parque escolar. Nos países afectados pelo Tsunami de 2004, foram as praias a transformar-se de espaços de pescadores para hotéis. No Haiti é provável que o discurso da "tragédia como oportunidade" traga uma reconstrução que deixe a democracia de lado.

A pressa de reconstruir leva muitas vezes ao atropelamento de direitos e muitas opções determinantes para o futuro serão feitas em conferências pomposas no exterior, tradicionalmente pouco preocupadas em trazer os povos beneficiários para o centro do processo de decisão. Enquanto isso, também as grandes empresas de "operações de emergência" (logística, construção, segurança...) se reúnem para mostrar a disponibilidade para ajudar, captando estes contratos e absorvendo uma parte substancial dos fluxos de ajuda.

No entanto, apesar dos riscos de uma má reconstrução, apesar de conhecermos os interesses dos doadores envolvidos, sabemos também que os haitianos não podem fazer esse trabalho sozinhos. Enormes recursos financeiros e logísticos serão consumidos até que comece a haver uma verdadeira evolução no terreno e a comunidade internacional tem a obrigação de participar nesse esforço.

É importante que as vozes contra as utilizações abusivas dos fluxos de ajuda ao Haiti se façam ouvir desde já. Talvez a visibilidade da situação permita um melhor acompanhamento da opinião pública e talvez esse alerta permita reduzir alguns dos problemas ao longo dos próximos anos. Mas a crítica não pode paralisar a acção.

Este caso extremo é um bom espelho dos problemas que corroem a ajuda internacional para o desenvolvimento. A ajuda humanitária de emergência é apenas uma parte da ajuda internacional. Os fluxos permanentes de cooperação apresentam riscos e críticas semelhantes, com a agravante de a sua presença de longo prazo nos países beneficiários ter impactos de fundo nas estruturas económicas, sociais e culturais.

Os problemas na ajuda são reais e reconhecidos por muitos dos seus intervenientes. As motivações dos doadores e a sua escolha nas formas de apoio, estratégias de desenvolvimento, entre o financiamento de ONGs ou de governos locais, por exemplo, podem ter impactos substanciais, e negativos, nas comunidades locais. Em algumas situações, a ajuda que chega é mesmo pior do que nada.

Este é um debate difícil, que envolve a própria definição de desenvolvimento, a discussão sobre formas eficazes e desejáveis de intervenção económica, questões de comércio internacional e toda a estrutura geo-estratégica que envolve as relações com os países em desenvolvimento.

A esquerda tem muitas vezes dificuldade em conciliar os seus princípios de solidariedade internacional com as questões práticas da implementação da ajuda. A cooperação internacional é necessária, além das situações de emergência. Da mesma forma que as críticas devem melhorar o apoio ao Haiti sem o bloquear, nas questões gerais da cooperação para o desenvolvimento o cepticismo não deve deixar-nos de fora do debate.

Sobre o/a autor(a)

Economista. Membro da Iniciativa para uma Auditoria Cidadã da Dívida Pública
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