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A opção nuclear de Obama

O Presidente Barack Obama vai enveredar pela via nuclear. Anunciou os iniciais oito mil milhões de dólares em garantias de empréstimo para a construção das primeiras novas centrais nucleares nos Estados Unidos, em perto de três décadas.

Obama está a cumprir uma promessa de campanha, tal como as suas promessas de ampliar a intervenção no Afeganistão e atacar unilateralmente o Paquistão. E, assim como a sua estratégia de guerra "Af-Pak", a ressurreição, financiada publicamente, da indústria nuclear nos EUA está destinada ao fracasso, mais um resgate financiado pelos contribuintes prestes a acontecer.

Opositores do plano, que inclui a triplicação das garantias de empréstimo de construção de centrais nucleares para 54,5 mil milhões de dólares, estendem-se a todo o espectro político-ideológico. No seu mais básico nível, o aspecto económico da geração de energia pela tecnologia nuclear simplesmente não faz sentido. O custo de construção destas avantesmas é tão grande, e os riscos são tão elevados, que nenhum investidor consciente, nenhum banco, nenhum hedge fund irá investir na sua construção.

Ninguém irá fazer um empréstimo a uma companhia energética para a construção de uma central nuclear, e as companhias energéticas recusam-se a gastar o seu próprio dinheiro para tal. O próprio Obama professa uma paixão pelo mercado livre, dizendo na Bloomberg Business Week, "Nós somos ferozes defensores de um mercado livre, dinâmico e próspero." Bem, o mercado livre já abandonou há muito a energia nuclear. O think tank de direita Heritage Foundation deixou claro que "Programas de expansão de garantias de empréstimo... são cheios de problemas. No mínimo, criam responsabilidades para os contribuintes, dão um tratamento preferencial aos beneficiários e distorcem os mercados de capitais."

Amory Lovins, do Rocky Mountains Institute, um critico acérrimo da indústria nuclear, disse-me: "Se comprar mais centrais nucleares, vai conseguir cerca de duas a dez vezes menos soluções climáticas por dólar, e vai consegui-lo entre 20 a 40 vezes mais devagar, do que se comprar, em vez disso, produtos mais baratos e rápidos que batem largamente o nuclear, o carvão e o gás. "

No seu relatório de 2008 "The Nuclear Illusion", Lovins escreve: "A energia nuclear continua o seu colapso de décadas no mercado mundial porque é largamente pouco competitiva, dispensável e obsoleta - tão desesperadamente anti-económica que não é necessário debater-se a sua limpeza e segurança; enfraquece a fiabilidade energética e a segurança nacional; e agrava as alterações climáticas quando comparada com outras opções que têm os mesmo custos monetários e temporais e são mais eficientes."

O Gabinete de Gestão e Orçamento da Casa Branca, na mesma declaração em que anunciou os 54,5 milhares de milhões de dólares para a energia nuclear, enumerou também "um fundo de subsídios de crédito de 500 milhões de dólares para apoiar entre 3 e 5 mil milhões de dólares de garantias de empréstimo para eficiência energética e projectos de energias renováveis." Assim, apenas um décimo do montante destinado ao nuclear está a ser canalizado para a eficiência energética e tecnologias de energias renováveis. Ao mesmo tempo, a administração Obama tem planos para cancelar os fundos para a impopular instalação de armazenamento de lixo nuclear de Yucca Mountain. Edwin Lyman, da União de Cientistas Preocupados, disse ao The Christian Science Monitor que a administração Obama "não tem um plano para [armazenar] o lixo radioactivo de uma nova geração de centrais nucleares. Isso é irresponsável."

Os desperdícios das centrais nucleares não são apenas um pesadelo ecológico, mas aumentam ainda as ameaças de proliferação nuclear. Obama disse no seu recente discurso do Estado da Nação: "Talvez nos deparemos com o maior perigo para o povo americano - a ameaça de armas nucleares." Apesar disto, os planos que acompanham as propostas de Obama, a sua "nova geração de centrais nucleares limpas e seguras," incluem o aumento comercial do "reprocessamento do combustível nuclear", considerado pela União de Cientistas Preocupados de "perigoso, poluente e dispendioso," e que, segundo esta entidade, irá aumentar os riscos globais tanto de proliferação nuclear como de terrorismo nuclear.

Ambos, Lovins e a União de Cientistas Preocupados, desconstroem o mito de que a energia nuclear é essencial para combater o aquecimento global. Lovins escreve: "Cada dólar investido na expansão nuclear irá piorar as alterações climáticas por comprar menos soluções por dólar." Obama diz que esta primeira fracção de investimento público, que beneficiará o gigante energético Southern Co., "vai criar milhares de postos de trabalho no sector da construção, nos próximos anos, e cerca de 800 postos de trabalho permanentes." Ainda que o investimento nas tecnologias solar, eólica e de co-geração pudesse surtir o mesmo efeito, seria preciso criar rapidamente indústrias, aqui, nos EUA, que são prósperas na Europa. Os riscos de falhas técnicas de um aerogerador ou de um painel solar, quando comparados com um desastre nuclear como o de Three Mile Island ou de Chernobyl, são diminutos.

Da economia, passando pelo ambiente até à prevenção de ameaças nucleares, as garantias de empréstimo de Obama falham em todas as contas.

Denis Moynihan contribuiu com pesquisa para esta coluna.

Publicado a 16 de Fevereiro de 2010

Tradução de João Tiago dos Santos Mira Branco

Sobre o/a autor(a)

Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.
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