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Madeira: uma tragédia anunciada

Na Madeira, podemos encontrar um dos mais deploráveis exemplos de conluio entre um poder político despótico e pouco transparente e a voracidade das imobiliárias que lucram com a destruição do território. Eventualmente, este conluio corrupto trouxe as suas vítimas.

As mortes causadas por catástrofes naturais são, na sua maioria, muito pouco naturais. Por um lado, as catástrofes naturais são frequentemente causadas ou agravadas por factores humanos (basta ver a relação entre alterações climáticas e eventos como cheias e furacões, por exemplo). Por outro, a capacidade de adaptação das populações a eventos climáticos extremos é determinada por factores sociais que decorrem de opções políticas. A resiliência das comunidades é, portanto, algo que se constrói com o tempo e que requer um especial cuidado com as políticas de ordenamento do território e de protecção civil.

O que vimos recentemente na Madeira é o resultado de uma política de expansão da construção muito além dos limites determinados pela Natureza. Há um ano atrás, o programa Biosfera mostrava o testemunho de especialistas que descreviam o que estava para vir1. A construção em leito de cheias leva à impermeabilização de solos e à destruição de importantes zonas naturais. O estreitamento do leito das ribeiras faz com que a água corra com maior velocidade, arrastando no caminho terra e resíduos orgânicos como troncos e pedras. Junte-se a isto tudo uma precipitação elevada e temos os ingredientes de um desastre iminente.

Quando este alerta se tornou público, Alberto João Jardim, com a sua habitual arrogância, ignorou as opiniões dos "cientistas malucos". Recorrendo à habitual falácia da distinção entre desenvolvimento e preservação do ambiente, o Presidente da Região Autónoma defendeu sempre a necessidade de construir em todo o centímetro quadrado disponível, opondo-se aos "vigaristas" e "analfabetos" que ousam ter opinião distinta2.

Infelizmente, os ecologistas e cientistas tinham razão. A tragédia acabou mesmo por acontecer e pessoas morreram. Mas a lição não foi aprendida. As ajudas do governo à Madeira vão servir para pouco mais que a reconstrução dos edifícios derrubados, para que possam ser de novo arrasados na próxima cheia. O entulho acumulado será utilizado num perigoso projecto de conquista de terra ao mar. Os avisos de quem previu a catástrofe continuarão a ser ignorados pelo governo regional.

Jardim anunciou numa entrevista que quem não concordar com os seus projectos urbanísticos terá que o derrotar eleitoralmente. Aí está um desafio que a esquerda não pode deixar de aceitar. As vidas que se perderam sem que os culpados sejam julgados assim o exigem.

Ricardo Coelho

1 Vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=aTf0h3nobAs&feature=player_embedded

2 Os epítetos podem ser vistos num discurso publicado em http://terralivreacores.blogspot.com/2010/02/alberto-jo.html

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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