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Cuba é uma imensa dor

Cuba é uma imensa dor administrada cirurgicamente desde os laboratórios da tortura imperialista, desde Miami, desde os escritórios da CIA. Cuba é uma dor que alimenta os desejos sádicos destes déspotas e feiticeiros da Nova Ordem Mundial. E as mais recentes manifestações e protestos pelos "presos políticos" são boas notícias para os vizinhos de Cuba que há anos teimam cuspir esta espinha da sua garganta. E isso dói-me.

Rosa Luxemburgo, numa profecia que não adivinhou, discordava dos passos da Revolução Socialista pela qual deu a vida: "A liberdade apenas para os partidários do governo, apenas para os membros do partido, por muitos que sejam, não é liberdade. A liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente". E também: "Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e uma liberdade de reunião ilimitadas, sem uma luta de opiniões livres, a vida vegeta e murcha em todas as instituições públicas, e a burocracia torna-se o único elemento activo".

Hoje, a Nova Ordem Mundial impera, os socialismos caíram e os que não o fizeram transformaram-se em estados repressores, presos pelas suas paranóias e medos. A Revolução cubana nasceu, mas não nasceu para ser assim. Luta como pode para ser o que queria ser, apesar de ser aquilo que a deixam ser.

Volto a repetir, não acredito numa democracia de partido único. Nem acredito numa democracia de partido único disfarçado de dois, como acontece nos EUA. Nem acredito numa democracia gerida em Bruxelas e em Frankfurt disfarçada de consensual e mascarada por uma imagem irreal.

O governo cubano cedeu, há muitos anos que cede, a estas pressões que o esmagam e o transformam numa máquina repressora. Condenar tanta gente à prisão foi um tiro no pé, mais um. E Miami agradece. Estes presos estão hoje transformados em mártires pela liberdade de expressão para gáudio dos fabricantes de ditaduras. Lembremos quem é James Cason, um neoliberal e estratega de Bush fundador da ala juvenil do Partido Liberal Cubano, de onde operavam estes dissidentes. A estratégia de Miami resultou. Estes dissidentes hoje estão a ser usados para vergar ainda mais Cuba e para destruir o que de bom ainda resta das conquistas dessa Revolução.

Cuba deveria dar outro exemplo. Deveria libertar (nem os devia ter condenado) esses prisioneiros e deixar que o tempo e a razão lhes fizessem tirar o valor que hoje lhes é dado. Enquanto isso, enquanto o boxe político se acentua dentro da esquerda, Miami brinda com Bacardi. Cuba deveria deixar a liberdade, a liberdade que a libertou em 1959, exercer o seu curso natural e naturalmente que a saudade iria transformar-se num sentimento por estes "dissidentes".

Por isto Cuba dói. Dói porque não só uma revolução está a ser destruída, mas também porque a águia aguça os dentes e sorri matreira. Desde as suas agências de informação elas lançam o ataque, determinando o discurso e ditam os termos e a semântica. E chamam a Orlando Zapata um preso político quando, aparentemente era um preso de delito comum. Claro que se lamenta a sua morte, mas lamento também o facto de ele ter sido mais uma pessoa manipulada pelas forças anti-castristas. Colocam todos os dissidentes no mesmo saco e criam mártires. Criam um movimento chamado Las Madres de Blanco, apropriando-se da iconografia das Madres de la Plaza de Mayo e subvertem a seu favor os ícones e os nossos ideais.

Por isto Cuba dói-me e é uma imensa dor que necessita ser analisada cirúrgica e colectivamente. Dói-me ver que a Amnistia Internacional beba essa informação e que toda a legitimidade e o respeito que esta associação merece esteja a ser sugada para o cocktail Cuba Libre. E dói-me ver que desde o Parlamento Europeu a receita tenha sido mal usada. Não pela condenação legítima a um regime repressor, mas por se misturar também no venenoso cocktail.

E é isto tudo que me dói. Este cocktail onde tudo se mistura. Não por "nossa" culpa, mas por culpa do cozinheiro, ou do barman. Esse, nós sabemos, é poderoso e matreiro. Usou 45,7 milhões de dólares nos anos de 2007 e 2008 para os chamados dissidentes em campanhas de desestabilização política do regime. A ele exige-se a resposta que ele merece, a ironia e o humor do povo cubano, que é ele o maestro da sua libertação:

Um turista chegou a Cuba e pediu um Cuba Libre. O barman respondeu que não conhecia essa bebida, ao qual o turista contrapõe: então não sabe que se juntarmos Coca Cola ao rum cubano, Cuba fica livre? Resposta do barman: aaaahhh, lo que usted quiere es una mentirita.

Sobre o/a autor(a)

Activista anti-racista
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