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Capitalismo vs biodiversidade

A perda de biodiversidade atingiu níveis tão alarmantes que podemos já falar de uma sexta extinção em massa num futuro próximo. O ritmo de extinção de espécies animais e vegetais registado no século XX excede em 1000 vezes a média dos 65 milhões de anos precedentes. Mas há uma importante diferença entre a sexta extinção em massa e as outras cinco: não é explicável por factores naturais.

A agricultura e pecuária intensivas, a pesca de arrasto, a desflorestação ou a poluição são alguns dos factores que estão na base da extinção de espécies. Para contrariar os efeitos destas actividades destrutivas, foi criada a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), que determina a interdição da exploração de espécies ameaçadas. Mas, como demonstraram as recentes negociações em Doha, esta Convenção é incapaz de cumprir o seu objectivo.

As negociações internacionais sobre tratados ambientais num mundo capitalista transformam-se rapidamente em braços-de-ferro entre interesses comerciais e a CITES não foge à regra. Sempre que alguma proposta surge para introduzir uma nova espécie animal na lista de espécies protegidas, logo os lóbis industriais sacam das calculadoras e analisam se uma decisão destas poderá afectar os seus interesses. Assim se entende como as propostas para proteger espécies marítimas foram recusadas por uma coligação de países com interesses comerciais nas pescas ou consumo de peixe, liderada pelo Japão.

O caso do atum-rabilho (Thunnus thynnus) poderia ser anedótico, não fosse tão trágico. Ao ritmo actual de pesca, esta espécie deixará de ser viável comercialmente dentro de apenas um ano, mas o Japão conseguiu impedir a aprovação de qualquer restrição na sua pesca. No mundo capitalista, um ano de lucros elevados vale mais que uma eternidade de lucros modestos.

Outras espécies terão melhor sorte, é certo. Os elefantes continuarão a ser protegidos, contrariando as pretensões da Zâmbia e da Tanzânia (valeu-lhes o fraco peso político destes países). Alguns répteis foram adicionados à lista de espécies protegidas, mas pouco mais foi atingido. Como dizia ironicamente Sue Lieberman, directora de políticas internacionais no Pew Environment Group: "Finalmente, o que ficará desta conferência? Um ou dois lagartos".

De cada vez que uma espécie animal ou vegetal é perdida, um equilíbrio natural é perturbado de forma irreversível. Naturalmente, isto tem implicações para a nossa vida, na medida em que actividades como a agricultura ou a pesca dependem fortemente deste equilíbrio natural. Mas isto pouca importância tem no mundo capitalista, onde a exploração de espécies ameaçadas aumenta o PIB, mas a perda de espécies não prejudica o crescimento económico.

Pudéssemos nós comer dinheiro e a nossa sobrevivência estaria assegurada. Como o dinheiro não é nutritivo, ou afrontamos a máquina de produção capitalista ou será uma questão de tempo até que o ser humano se junte à lista de espécies ameaçadas.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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