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Déjà Vu

Alguma diferença se pressente, desde que terminou o ciclo eleitoral, no jeito de estar de José Sócrates: menos arrogância e menos prepotência, mais candura e afabilidade. Anda quase que meigo. Nunca falou tanto em diálogo e em consenso. Nem parece o mesmo José Sócrates que durante os últimos quatro anos governou impondo reformas, irresponsáveis e insensíveis, como, por exemplo, as do sector da educação e da saúde, impostas contra tudo e contra todos. A questão é que estas metamorfoses, de estilo, mais não são do que transformações acessórias porque, no essencial, no conteúdo, parece que vem ai mais do mesmo.
  1. No que diz respeito à composição do novo governo notamos que, apesar de incluídos alguns independentes, sem grande fôlego político, no executivo, grosso modo o núcleo duro que acompanha o primeiro-ministro nas suas decisões fundamentais continua a ser constituído pelos mesmos acólitos que foram os ministros de peso dos últimos quatro anos. Temos agora um governo de tecnocratas e de apparatchicks. Como se o problema do país fosse um problema de gestão mecanicista e não um problema de geração de concepções, de ideias e de políticas alternativas.

  2. No que concerne ao programa de governo assinalamos as declarações de Jorge Lacão de que entre este programa agora entregue à Assembleia da República e o programa eleitoral do PS para as legislativas, que, por sua vez, preserva e persevera aquilo que foi o governo socrático anterior, não há diferença nenhuma. Sucede uma manifesta incompatibilidade entre um primeiro-ministro que fala de convergências e um ministro dos Assuntos Parlamentares que vem a público com um discurso rígido a propósito da orientação das principais linhas governativas. Como se o facto de os portugueses terem retirado a maioria absoluta ao PS e reforçado a representação das esquerdas à esquerda do PS no hemiciclo não fosse sinónimo de que o país reclama um afluxo de políticas sociais de um outro espécime, políticas capazes de responder com outra eficácia à crise do desemprego, da pobreza e da exclusão.

Até agora, o primeiro-ministro, aparte a sua pose de choradinho do ou estão comigo ou estão contra mim e então o governo cai e isto é tudo uma chatice, ainda não deu nenhum sinal, nenhum indício concreto, de que está resolvido a mudar alguma coisa no domínio da avaliação de professores, das regras de atribuição do subsídio de desemprego, da revogação das taxas moderadoras, entre outros. Não chega insinuar mudança, para fazer mudança é preciso romper com a continuidade. Não basta sugerir diálogo, é preciso que se criar condições para que esse diálogo se efective. Esse será um dos maiores desafios e uma das grandes responsabilidades deste governo de José Sócrates.

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