You are here

Afeganistão: Ave Petraeus!

Vinte minutos: o tempo que terá sido necessário ao presidente Barack Obama para demitir o general Stanley McChrystal, comandante em chefe das tropas americanas e da NATO no Afeganistão.
Barack Obama e Stanley McChrystal- 2/10/09 – Foto de Epa/Lusa (arquivo)

E para substituir o aluno pelo mestre: o general David Petraeus, que era já senhor do Comando para o Médio-Oriente (Centcom), isto é, do conjunto das tropas americanas no Golfo, no Iraque e no Afeganistão. “Não queremos saber quem comanda - declarou imediatamente Yousouf Ahmadi, um dos porta-vozes regulares do comando talibã - nós combateremos os invasores até à sua retirada.”

Antigo chefe das operações especiais do Exército dos Estados Unidos, McChrystal – em substituição do general David McKiernan, reconhecido ao presidente americano, em Junho de 2009 tinha conseguido :

- repor a população no centro da estratégia da NATO;

- pôr travão aos ataques aéreos (geradores de “erros” e outros “danos colaterais”);

- fazer os soldados sair do quartel ( e, portanto, assumira riscos pela sua própria segurança );

- convencer o executivo americano a enviar 30.000 homens de reforço (ao preço de um arriscado anúncio de início de retirada a partir do verão de 2011);

- banir o álcool nas bases da NATO;

- fechar postos nos sectores mais recuados, para melhor concentrar forças no seio das zonas povoadas;

- e continuar a política "de afeganização" (exército e polícia).

A “grande ofensiva” lançada em Fevereiro deste ano na região rural de Marjah, no Helmand (sul), um dos bastiões talibãs, não convencera. O general estava a preparar outra, mais importante, em Kandahar, mas que – como ele próprio confessou – se atrasara. Os chefes militares da NATO tinham prevenido que os primeiros sinais positivos da mudança de estratégia não poderiam ser constatados antes de finais de 2010, na melhor das hipóteses.

O general, à falta de encontrar a simpatia das populações, parecia, pelo menos, ter ganho a confiança do presidente afegão, M. Hamid Karzaï, assim como a da maioria dos diplomatas e chefes militares estrangeiros: “Antes de McChrystal, havia uma capoeira, cheia de frangos a correr em todas as direcções, comenta um diplomata citado pela AFP. Hoje toda a gente caminha no mesmo sentido”.1 [1]

A demissão do general fica a dever-se aos seus modos imprudentes (ditos “depois de beber” !) recolhidos pelo periódico Rolling Stones, que não deixam acreditar na “unidade e esforço” exigidos pela situação … e pelo presidente americano. Mas McChrystal é também vítima da degradação do contexto de segurança das últimas semanas: desde antes do dia 23 de Junho que se sabia que este seria o mês mais mortífero para as forças internacionais (79 mortos). Em três investidas, este mês, uma dezena de soldados da NATO morreram num só dia. Desde o início do ano a coligação sofreu mais de 300 perdas, o que deixa antever um ano mais difícil que 2009 considerado como o “ano terrível” (520 mortos).

Exército de Babel

Petraeus é o homem do “surge” (o sobressalto, a reviravolta, a subida do poder), a política finalmente endossada pelo presidente Obama:

- este general - um dos mais condecorados do exército americano – tinha conseguido virar parcialmente a situação no Iraque, a partir de 2007, agarrando a oportunidade de se apoiar na mobilização de líderes tribais sunitas (o ramo étnico-religioso ligado ao regime de Saddam Hussein e à maioria da população da área de Bagdade).

- É também o chefe militar que, a partir de 2006, tendo feito do seu manual de contra-insurreição uma ferramenta político-militar, representava uma alternativa. Depois – salientou o coronel Michel Goya, do IRSEM, aquando do fórum de pesquisa estratégica, em Paris, a 24 de Junho último –, os especialistas em contra-insurreição debatem esta questão das tribos, e do seu lugar numa estratégia de reconquista “do coração e das mentes”.

Petraeus encontra-se à cabeça dum contingente militar estrangeiro no Afeganistão doravante mais importante que o do Iraque, mas que – no decurso dos reforços decididos pelo presidente Obama –é cada vez mais americano: a Força Internacional de Assistência à Segurança (FIAS) que reúne os contingentes da NATO – um exército de Babel, quase ingovernável em virtude da heterogeneidade das regras de compromisso (extremamente restritivas para o Japão, muito limitativas para as tropas alemãs, etc.) – será doravante minoritária, e cada vez mais reduzida às tarefas de formação, treino, conselho do exército e polícia afegãs.

Exageradamente negativa

Oficialmente, não se trata de mudar a estratégia dita “global” que foi adoptada pelos Aliados na cimeira da Nato em Bucareste em 2008, e confirmada na cimeira de Strasbourg-Kehl em 2009. O secretário americano da defesa, Robert Gates, salientava, em meados de Junho, “progressos”, e sublinhava que a nova estratégia americana tinha apenas quatro meses, não estando ainda em acção os reforços anunciados. Ele julgava assim “trágico mas inevitável” que haja novas vítimas entre os soldados americanos, quando as tropas avançarem para zonas em poder dos talibãs: “É duro e suportamos perdas significativas como tínhamos previsto”, declarou Robert Gates alguns dias mais tarde, para quem “a situação é retratada de uma forma exageradamente negativa”.2 [2]

O secretário da defesa lembrou que “o exército afegão deveria estar pronto a assumir responsabilidades básicas em matéria de segurança nalgumas regiões do Afeganistão daqui a um ano, a contar de Julho 2011”. O general Petraeus, ouvido por uma comissão do Senado em meados de Junho, tinha acompanhado a retirada dos militares americanos de uma série de condições: ele estará na linha da frente para os acompanhar no terreno...

A nomeação do “salvador do Iraque” é, sem dúvida, um dos últimos cartuchos de que dispõe o presidente Obama, a fim de “acabar o trabalho” – para usar uma expressão muitas vezes utilizada nos meios militares. Mas esta valsa dos grandes chefes3 , surgindo alguns meses depois de uma outra, traz, ainda assim, alguma desordem no contexto dramático do momento. Ela realça, por defeito, quanto os europeus e outros aliados no interior da NATO vão a reboque dos americanos neste conflito onde estes últimos decidem tudo.

Entretanto, um inquérito efectuado pela própria comissão do Congresso americano estabeleceu que, através da terceirização para empresas privadas da protecção dos comboios americanos de armas e de suprimentos no Afeganistão, o Pentágono estaria indirectamente a financiar os senhores da guerra e talvez até mesmo os talibãs!

Texto publicado em Les blogs du Diplo

Tradução de Deolinda Peralta para o Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Colaborador do Monde Diplomatique. Responsável de questões africanas e de defesa na Rádio France-Internationale.
Termos relacionados Internacional
(...)