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BP delineou o percurso do capitalismo transnacional

Entrevistado pela Democracy Now!, Stephen Kinzer, antigo jornalista do New York Times, autor de “All the Shah’s Men: An American Coup and the Roots of Middle East Terror”, analisa o papel da Anglo-Iranian Oil Company no golpe da CIA em 1953 contra o popular primeiro-ministro progressista do Irão, Mohammad Mosaddegh.
Stephen Kinzer

AMY GOODMAN: O premiado jornalista e autor consagrado Stephen Kinzer publicou um novo livro que analisa a História para compreender estas alianças em mudança constante no Médio Oriente e para traçar uma nova visão da política externa dos EUA na região. Stephen Kinzer acompanha-me agora a partir de Washington, DC.

Bem vindo ao Democracy Now! É óptimo tê-lo connosco, Stephen.

STEPHEN KINZER: É excelente estar consigo outra vez, Amy. Obrigado.

AMY GOODMAN: Na realidade quero começar pela descrição e pela análise que faz nos seus livros anteriores, e que continua em “Reset”, e isto tem a ver com a BP. Antes de abordarmos o que se passa na Turqia, no Irão e em Israel actualmente, quero recuar no tempo. O presidente Obama foi ao Mississipi e vai estar na costa do Golfo [do México] durante alguns dias. Mas pouco se tem dito sobre a história da BP e eu gostaria de saber se poderia começar por falar connosco sobre esta companhia.

STEPHEN KINZER: Ao longo dos últimos cem anos, a história da companhia a que agora chamamos BP delineou realmente o percurso do capitalismo global transnacional. Esta companhia começou como uma espécie de operação de perfurações em zonas duvidosas no Irão na primeira década do século vinte. Era muito empreendedora e assumia riscos e tinha um grupo de geólogos que percorriam aquelas estepes e desertos hostis e finalmente deram com aquilo que foi a maior descoberta, até ali, da história da indústria petrolífera.

Foram eles que descobriram que o Irão estava assente sobre um mar de petróleo. E então decidiram que se iriam apoderar dele. Através de um acordo corrupto que fizeram com alguns representantes da velha monarquia iraniana em decadência, todos subornados pela companhia, esta concessão, que mais tarde veio a ser conhecida como a Anglo-Persian Oil Company assegurou-se, ou garantiu o direito de possuir, todo o petróleo iraniano. Consequentemente, ninguém no Irão tinha direito de extrair ou vender petróleo.

Em seguida, pouco depois de a descoberta ter sido feita, o governo britânico decidiu comprar a companhia. Assim, o Parlamento aprovou uma lei e comprou 51% da empresa. E durante os anos 20, 30 e 40 do século XX o nível de vida de que as pessoas em Inglaterra desfrutavam era baseado no petróleo do Irão. Todos os camiões e jipes britânicos circulavam com petróleo iraniano. Todas as fábricas da Inglaterra eram financiadas pelo petróleo iraniano. A Marinha Real Britânica, que disseminou o poder inglês por todo o mundo, funcionava a 100 por cento com o petróleo do Irão. E isso tornou-se na base fundamental da vida do Reino Unido.

Depois da 2ª Guerra Mundial, quando os ventos do nacionalismo e do anti-colonialismo sopravam por todo o mundo em desenvolvimento, os iranianos tiveram esta ideia: temos de retomar o nosso petróleo. E esse foi o tipo de paixão nacional que levou ao poder Mohammad Mossaddegh, a figura mais proeminente do período democrático do Irão durante os finais dos anos 40 e princípio dos anos 50. Mossaddegh desejava, e foi apoiado pelo voto unânime do parlamento iraniano eleito democraticamente, nacionalizar aquilo que era naquele tempo a Anglo-Iranian Oil Company. E fizeram-no.

Os ingleses, e os seus sócios nos Estados Unidos da América, opuseram-se ferozmente a isto. E quando não conseguiram impedi-lo, organizaram o derrube de Mossaddegh em 1953. Assim, aquele derrube não só teve como consequência o fim do governo de Mossaddegh, como o fim da democracia no Irão, e isso deu origem a todas as outras consequências que se seguiram. O Xá governou durante vinte e cinco anos com uma repressão crescente. O seu governo deu origem à explosão do final dos anos 70 que deu origem ao regime islâmico. Por isso, foi para proteger os interesses da companhia petrolífera que agora conhecemos como BP, que a CIA e os Serviços Secretos britânicos se uniram para derrubar o governo democrático do Irão e despoletar tudo o que temos visto passar-se no Irão durante o último meio século.

AMY GOODMAN: E isso envolveu os irmãos Dulles - as pessoas voam com frequência para o Aeroporto de Dulles – John Foster Dulles, Allen Dulles e também o neto de Teddy Roosevelt.

STEPHEN KINZER: Sim, a história está mais ou menos a piscar-nos o olho a partir desse episódio. É bastante estranho e interessante que Theodore Roosevelt, que basicamente levou os EUA para a era das mudanças de regimes no princípio do século XX, acabasse por ter um neto que começou a era moderna de intervenção. Não se esqueçam que o Irão foi o primeiro país onde a CIA interveio para derrubar um governo. Quando Teddy Roosevelt derrubava governos não existia a CIA. Por isso cada um deles abriu um capítulo na história do intervencionismo americano.

AMY GOODMAN: E porque razão – antes de avançarmos – por que é que os EUA intervieram a favor de uma companhia britânica, que mais tarde se transformou na British Petroleum, ou BP?

STEPHEN KINZER: Houve várias razões para isso. Em parte, tinha a ver com o desejo de solidariedade transatlântica. Mas penso de facto que houve duas razões fundamentais. Uma era que os americanos se persuadiram de que tinha de lutar contra o comunismo em qualquer parte do mundo. Essa era a ideia que Dulles e Eisenhower tinham quando assumiram o poder em 1953, a de que não iriam seguir a estratégia de contenção do comunismo, mas que iam abordar uma nova estratégia para pôr fim ao comunismo. Mas mal chegaram ao poder começaram a pensar: “Como é que vamos pôr fim ao comunismo? Não podemos invadir a União Soviética. Não vamos bombardear a China.”

E é aqui que se encaixa uma nova peça. Os ingleses estavam ansiosos por derrubar Mossaddegh para poderem recuperar a sua companhia petrolífera. Mas quando apresentaram o plano a Dulles e Eisenhower, o agente que enviaram para Washington, que mais tarde escreveu as suas memórias, fez uma coisa muito inteligente. Decidiu que não iria ter resultados se dissesse aos americanos: “Por favor derrubem Mossaddegh para podermos recuperar a nossa companhia petrolífera.” Os americanos não iriam reagir a isso. Não lhes importava assim tanto. Ficariam com receio de abrirem um precedente de usurpação governamental de uma empresa que produz um recurso num país pobre. Era um mau precedente para John Foster Dulles e para os americanos, tanto quanto para os britânicos.

Mas aquilo que preocupa realmente os americanos neste momento do início dos anos 50 é o comunismo, por isso vamos dizer-lhes que Mosaddegh está a levar o Irão para o comunismo. Ora, Mossaddegh era um aristocrata idoso que desprezava todas as ideias socialistas e marxistas, mas isso era apenas um pormenor. Era possível descrevê-lo como uma pessoa suficientemente fraca para que mais tarde, depois da sua queda, os comunistas pudessem tentar tomar o poder no Irão.

Assim, conjugaram-se dois factores: por um lado, certificarem-se de que não haveria no mundo um exemplo de que os governos podem nacionalizar a seu bel-prazer as companhias dos países ricos e, por outro, deixarem claro que qualquer pessoa que entrasse na esfera da influência americana, mesmo que possivelmente nem sequer simpatizasse com o comunismo, mas que criasse uma tal situação que, depois de se ter afastado, pudesse levar a uma instabilidade que desse origem a um governo comunista, acabaria por ser um alvo dos EUA.

Tradução de Ana Carneiro para o Esquerda.net

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