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A Fuga das Galinhas

Uma política contra a crise exige um BCE comprometido com políticas expansionistas, centradas na criação de emprego e livre dos preconceitos que têm impedido a emissão de dívida pública europeia que financie essas políticas.

Parece que sim. Os países que conduzem a União Europeia parecem ter atingido um consenso sobre quem deverá suceder a Jean-Claude Trichet na presidência do Banco Central Europeu. O nome de Axel Weber, actual Presidente do Bundesbank é apontado como o mais provável sucessor.

A confirmar-se esta escolha, a Alemanha passaria a ter, para além de todo o seu músculo político, dois membros do Conselho Executivo do BCE (Weber e Stark até 2014), sendo o seu Presidente um homem de mão do Governo da Alemanha, com um currículo ligado ao Bundesbank, com o que isso significa de compromisso absoluto com as políticas monetaristas, centradas no controlo da inflação que, no Bundesbank, gozam do estatuto de mandamento religioso. Recentemente, Weber chegou ao ponto de criticar Trichet por aceitar comprar títulos de Dívida Pública no Mercado Secundário. Trata-se, portanto, de um ultra do monetarismo.

Talvez por isto, Paul Krugman já veio dizer que a eventual eleição de Axel Weber é “um risco para a zona euro”. O Prémio Nobel da Economia defendeu que o risco de “um efeito dominó da Grécia, através de Espanha e Portugal, até à Itália, é muito maior, se o BCE tiver um Presidente tão conservador como Weber”. Acresce às justas preocupações de Krugman o facto de o BCE continuar a ter total autonomia em relação aos órgãos democráticos da União, tornando esta nomeação um ponto crucial no desenvolvimento das políticas económicas europeias.

A negociação deste nome assenta num duplo equilíbrio: o dos países que já tiveram presidentes do BCE e o equilíbrio entre “falcões” e “pombas”. E pergunta o leitor e muito bem: o que são os “falcões” e as “pombas”? Ora bem, “falcões” é o nome que é dado aos que privilegiam o controle da inflação, enquanto “pombas” seriam aqueles que privilegiam o crescimento.

Na realidade, esta dicotomia é um pouco ilusória. Para dar um exemplo, Vítor Constâncio, o Presidente do Banco de Portugal que passou o seu mandato a clamar pela redução dos salários (o que lhe deixou pouco tempo para fiscalizar realmente o sector financeiro, com os resultados que se conhece) é considerado nas instâncias comunitárias… uma “pomba”! No entanto, não se conhece a Vítor Constâncio grandes divergências com o rumo que tem seguido a política económica na União Europeia.

Não é disto que a Europa precisa. Um obcecado com a inflação (quando o risco na Europa é, quanto muito, o risco da estagnação e da deflação) deveria ter barradas as portas do BCE. Uma política contra a crise exige um BCE comprometido com políticas expansionistas, centradas na criação de emprego e livre dos preconceitos que têm impedido a emissão de dívida pública europeia que financie essas políticas. Vôos bem mais altos do que os que nos têm proporcionado os homens do BCE. Não são falcões nem pombas. São galinhas.

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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