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Chega de dias sangrentos

Enquanto as desculpas forem tardias, inócuas e o terrorismo de Estado for tolerado, o calendário vai continuar a encher-se de domingos sangrentos.

38 anos depois, o governo britânico assumiu, pela voz de David Cameron, o que já toda a gente sabia: os 14 civis mortos em 30 de Janeiro de 1972, na sequência de uma marcha pelos direitos civis em Derry, na Irlanda do Norte, estavam desarmados e foram vítimas inocentes. É pouco, mesmo numa perspectiva de reconhecimento histórico: as desculpas deviam incluir que a acção foi criminosa, deliberada, e determinante na escalada de violência que se seguiu.

A estratégia britânica na década de 70 passou pela "ulsterização" do conflito, criando na opinião pública internacional a ideia de que os troubles tinham origem em duas comunidades beligerantes e inconciliáveis, que o governo britânico, através dos seus representantes e do exército, tentava mediar. Mas a verdade é que ao longo de toda a história da Irlanda do Norte a intervenção britânica se pautou pelo apoio a um apartheid claro na província, intervindo inclusivamente de forma directa no conflito armado, através do conluio com as forças paramilitares lealistas ou de acções repressivas e muitas vezes letais sobre a comunidade nacionalista. O historial de investigações criminais às acções das forças da coroa é vergonhoso, com poucas ou nenhumas condenações, a que se seguiram geralmente libertações rápidas e, frequentemente, condecorações e promoção nas fileiras do exército.

O processo de paz em curso resultou do diálogo inicial entres líderes nacionalistas, ao qual se foram juntando, relutantemente, os governos britânico e irlandês e os partidos e grupos armados unionistas. E durante vários anos esteve em risco porque o governo conservador inglês necessitou do apoio dos unionistas para se manter no poder e não hesitou em adiar a resolução do conflito.

O reconhecimento da inocência das vítimas, 38 anos depois, pouco impacto terá que não seja simbólico, por muito importante que essa dimensão seja; e não revela grande arrojo político por parte de Cameron. Mas é benvindo. Dizer que é tardio não é clamar por mais sangue, é reconhecer que há lições a tirar de todo este processo. Se tivesse acontecido mais cedo, quantas vidas teriam sido poupadas? A verdade que importa reter da história da Irlanda é que a luta armada nunca resolveu nada — mas pressionou para que se criassem condições para uma via negociada e gradual. A violência é sempre a última alternativa para uma população que se vê privada de meios legais e democráticos de fazer valer os seus direitos mais básicos; e é fútil tentar vencê-la pela força, seja no País Basco ou na Faixa de Gaza. A violência gera violência e impregna-se no quotidiano, e a comunidade internacional tem um papel fundamental a desempenhar no fim destes círculos viciosos infernais. Enquanto as desculpas forem tardias, inócuas e o terrorismo de Estado for tolerado em nome de alianças como as que unem a União Europeia e os Estados Unidos a Israel, o calendário vai continuar a encher-se de domingos sangrentos.

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