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Índia: a (in)justiça de Bhopal 26 anos depois

Vazamento de gás da Union Carbide matou cerca de 22.000 pessoas e deixou 120 mil feridas e com doenças permanentes. Julgamento terminou semana passada. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net
Manifestação das vítimas de Bhopal. Foto de obbino

Terminou na semana passada o longo julgamento da tragédia de Bhopal, ocorrida há 26 anos, em Dezembro de 1984, por culpa da Union Carbide, que atingiu 500.000 pessoas e matou milhares. Foi o maior crime industrial da história do capitalismo.

O crime

Na noite de 2 para 3 de Dezembro de 1984, por volta da meia noite, uma grande quantidade de água entrou no tanque 610 da fábrica, que continha quarenta e duas toneladas de metil-isocianato. Isso provocou uma reacção que elevou a temperatura do tanque a 200 graus centígrados, elevando a pressão a um nível que o tanque era incapaz de suportar.

O gás escapou e invadiu a cidade de Bhopal, intoxicando 500 mil pessoas. Uma boa parte da população da cidade, já que no censo de 2001 a população era de 1.458.000 habitantes. As estimativas variam, mas logo após a tragédia mais de duas mil morreram. Foram realizados inúmeros funerais, e muitos corpos foram lançados ao rio Narmada. Cerca de 200 mil crianças foram contaminadas. Mas não foram atingidos apenas os seres humanos. Dois mil animais, vacas, búfalos, ovelhas e outros animais foram recolhidos e cremados.

Dias depois, as folhas das árvores ficaram amarelas e caíram. Os alimentos ficaram escassez, a pesca foi proibida, piorando a situação. Nos dias posteriores, as mortes chegaram a números que variam de 10 a 20 mil. De 100 mil a 200 mil pessoas sofreram danos permanentes em diversos graus, tendo que conviver com problemas de visão, respiratórios, no estômago, fígado e cerebrais. Tanto a Union Carbide quanto o governo se negam a reconhecer essas doenças.

As causas

A Union Carbide era uma subsidiária da poderosa Dow Chemical. Nessa unidade fabricava um pesticida chamado Sevin, em cuja produção o metil-isocianato era utilizado. A Union Carbide alegou, cinicamente, em sua defesa, que o acidente fora causado pela “sabotagem” de um de seus funcionários. Mas durante anos anteriores já havia inúmeras provas de que a Union Carbide negligenciava as normas de segurança. E quando ocorreu o acidente, ela já havia reduzido bastante os gastos com segurança e manutenção da fábrica. A própria utilização do metil-isocianato contrastava com os produtos de outras empresas, que não o utilizavam. Alem do facto de utilizar um produto perigoso numa área densamente populada. Até hoje, a poluição da Union Carbide contamina a rede manancial da cidade.

A responsabilidade do governo central e local

As milhares de vítimas acusam o governo central e também de Madhya Pradesh de terem responsabilidade na tragédia, já que nada fizeram para evitá-la. E mesmo depois, quando aconteceu, estavam totalmente despreparados para lidar com a caótica situação. Os hospitais não tinham, obviamente, conhecimento de como tratar os pacientes. E faltaram todos os recursos para evitar a morte de milhares de pessoas.

O Julgamento

Na semana passada, depois da longa espera e da luta da população local, saiu o veredicto. Apenas oito pessoas foram condenadas. Dessas oito, uma já se encontra morta, tendo falecido antes de terminado o julgamento. Warren Anderson, CEO da Union Carbide, na época do acidente, que conseguira fugir para os EUA, escapando do julgamento, não foi sequer mencionado, ainda que pesasse sobre ele um mandato de prisão. Warren Anderson, agora com 89 anos, pôde continuar desfrutando impunemente, durante todos esses anos, retirado comodamente na sua mansão em Long Island, Nova York.

A pena imposta aos culpados foi a de apenas dois anos de prisão, afiançáveis por cerca de 1.750 euros. Os culpados imediatamente pagaram a fiança e saíram em liberdade condicional. Coube às vítimas uma mísera quantia como indemnização de 1.791 euros por morte e 447 euros às vítimas de ferimentos. À Union Carbide coube a ridícula soma de cerca de 8.870 euros de multa.

Para demonstrar a indignação desse resultado, publicamos na integra o artigo escrito pelo editor do Sunday Times of India no seu blog Main Street:

 

Vergonha! Índia vende barato seus mortos.

Cerca de 22.000 mortos. Mais de 120 mil feridos. 1.791 euros por cada corpo. 447 euros para cada pessoa com pulmões envenenados, corações afectados e cegos. Vinte e seis anos de longa espera. E apenas dois anos de prisão para os homens que cometeram o pior crime contra o povo deste país. É essa farsa de justiça após uma espera tão longa. Vinte e seis anos após 40 toneladas de um gás letal penetrar os pulmões de Bhopal. Cerca de 17 mil homens e mulheres estão à espera de serem chamados para receber compensação. E mais milhares aguardam serem reconhecidas como vítimas. O povo de Bhopal ainda esta a beber a tóxica água envenenada pela Union Carbide em Dezembro de 1984. E o principal culpado vive uma vida de rei numa mansão em Nova York.

Nenhum pais vende o seu povo tão barato.

Nenhum pais vende os seus pobres tão barato.

Nenhum pais vende os seus mortos tão barato.

Hoje, no dia do julgamento do desastre de Bhopal, se existe um estado falido no mundo, esse estado é a Índia. Não é o Iraque. Não é a Somália. Não é o Sudão. É a Índia.

A Índia – o seu governo, o judiciário e as institições – aceitaram a ridícula soma de 450 milhões de dóçares pelo povo morto e mutilado pelo metil-isocianato que escapou da fábrica da Union Carbide no coração de Bhopal há três décadas. Em todos esses anos, as pobres vítimas fizeram tudo o que podiam para conquistar justiça e compensação. Eles choraram e morreram nas ruas, sentaram-se famintos e enfrentaram a polícia nas ruas, e levaram os seus casos aos tribunais na esperança de que lhes fosse feita justiça

Hoje, a justiça foi-lhes negada. Hoje, foi dito que devem se contentar com as castanhas que lhes foram atiradas pela Union Carbide. Hoje, uma vez mais a Índia provou que não cuida dos seus pobres. Hoje foi provado uma vez mais que todos os que fazem política em nome dos pobres, governam para os ricos.

Que justificação tem o CBI (Central Bureau of Investigators) para não ser capaz de trazer Warren Anderson ao tribunal? Presidente da UC na época do ataque de gás (não foi um acidente, o gás escapou devido às medidas de contenção de gastos implementadas por ele) contra o povo de Bhopal, Anderson foi preso e depois solto sob fiança. Fugiu para os EUA em 1986 e nós não fomos capazes de encontrá-lo ou exigir que o governo dos EUA o extraditasse para a Índia. Porquê? O governo alegou que não sabia onde Warren se encontrava. Que mentira. Que vergonha.

No ano passado, num fresco dia de Julho, um punhado de vítimas dançou nas ruas após ouvir notícias de que o Magistrado Judicial Chefe de Bhopal ordenou ao CBI que prendesse Anderson e o trouxesse ao tribunal sem protelação. O tribunal também solicitou ao CBI que explicasse que medidas havia tomado desde 2002 para executar o mandato de prisão e extradição de Anderson, que foi declarado fugitivo em 1992. Apesar do CBI e do governo dos EUA fracassarem em localizar Anderson, apoiantes das vítimas de Bhopal encontraram-no nas vizinhanças da elitista Hamptons, em Nova York. Em 2003, activistas do Greenpeace fizeram uma visita à casa de Anderson e entregaram-lhe um mandato de prisão

O ridículo julgamento de hoje em Bhopal não diz nada sobre Anderson. Que não teve de se incomodar a responder a algumas perguntas cruciais:

– Por que a UC não aplica os mesmos padrões de segurança na sua fábrica na Índia que é operada como uma fábrica irmã em Wes Virginia, EUA?

– Na noite do desastre, por que seis medidas de segurança desenvolvidas para prevenir escape de gás falharam e não funcionaram?

– Por que a sirene de segurança, para alertar a população que vive na vizinhança da fábrica foi desligada?

– As vítimas sempre alegaram que Bhopal ocorreu por negligencia da UC e que foi causada pelas medidas de corte de gastos implementadas por Anderson. É por essa razão que ele se escondeu nos EUA?

Um criminoso tem motivos para fugir, mas que motivo tem o nosso governo para deixar um assassino em massa como Anderson continuar impune? É porque ele é americano? Um americano pode vir à Índia matar pessoas neste país e fugir sem arcar com as consequências? Parece que sim. Nós ainda estamos a lutar para ter uma possibilidade de questionar David Headley, um cidadão americano responsável pelo pior ataque terrorista na Índia. Vamos conseguir extraditá-lo para a Índia? De forma alguma. Nunca.

Hoje, a Índia provou que não cuida do seu povo, particularmente se eles forem massacrados pelo poderoso povo da mais poderosa nação do mundo. Ao contrário de lutar por justiça pelos seus pobres, a Índia está mais contente em vender barato os seus mortos.

1.791 euros por cada corpo. 447 euros por cada pessoa cega. Esse é o preço de um pobre num estado falido.

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