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Índia: 145 mortos num ataque a comboio

Governo culpa organização maoísta pelo acidente. Guerrilheiros travam uma guerra popular que pouco aparece nos média. Por Tomi Mori, de Tóquio, para o Esquerda.net
Pouca gente sabe que a Índia enfrenta uma guerra popular. Foto de Ben Sutherland, FlickR

Até o momento já foram confirmadas a morte de 145 passageiros e existem cerca de 150 feridos, alguns em estado grave. É o resultado do provável ataque, na sexta-feira, a um comboio que percorria o trecho entre Khemashuli e Sardiha, em West Bengal, na Índia. Treze vagões descarrilaram e foram atingidos por um comboio que vinha da direcção oposta. Segundo Mamata Banerjee, ministro das Ferrovias, o acidente foi causado por uma explosão ou pela retirada de uma parte dos carris. Ainda que sem provas, o governo culpa a guerrilha maoísta pelo acidente, alegando que foram deixados panfletos no local. A área onde ocorreu o acidente é considerada umas das fortalezas do movimento maoísta.

Guerra popular

A Índia tem aparecido nos média principalmente por ser um dos poucos países com crescimento económico neste momento de crise, mas pouca gente sabe que o país enfrenta uma guerra popular, e que o Exército Guerrilheiro de Libertação do Povo, braço armado do Partido Comunista, maoísta, já controla algumas áreas do país.

Em Maio de 1967, os maoístas dirigiram o levante camponês contra os grandes proprietários de terra que levou à tomada da cidade de Naxalbari, em West Bengal. Durante algumas semanas, eles dirigiram a cidade, mas foram massacrados. Apesar da derrota e da repressão, nos anos posteriores o maoísmo estendeu-se por várias partes. Segundo diversas fontes, tem, actualmente, entre 10 a 20 mil militantes armados, espalhados por mais de vinte estados, principalmente no chamado “corredor vermelho”, que se estende do Norte em direcção ao Sul, nos estados próximos ao golfo de Bengala.

Estrutura social complexa

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com 1,18 mil milhões de pessoas e com o sétimo território do planeta. É um país com uma longa história e com uma estrutura social bastante complexa.

No século XVIII, foi colonizado pela Inglaterra, mas em 1947 a luta anti-colonial levou à independência do país. A vitória da luta anti-colonial também levou à formação do Paquistão, de maioria muçulmana. As questões não resolvidas após a independência levaram a várias guerras, com a China e o Paquistão.

Do ponto de vista dos números, a Índia é a sétima economia mundial, mas tem, depois da vizinha China, a segunda maior população vivendo na miséria do planeta, com 46% das crianças a padecer de subnutrição.

É um país de grandes contrastes e, mesmo com todo a miséria, a Índia passou a ser uma das potências nucleares. A estrutura social é bastante rígida e, embora tenha sido abolido o sistema de castas, do ponto de vista social as castas continuam a existir e representam um problema de grande magnitude na sociedade. Essa questão aflora muitas vezes nos casamentos de jovens de castas diferentes, que encontram a completa resistência familiar e em muitos casos levam à morte. Casos como este estão sempre no noticiário do país.

A maioria da população, 80%, segue o hinduísmo como religião, mas 13% são muçulmanos. As tribos representam cerca de 8% da população do pais. Metade das mulheres casam antes dos 18 anos e o divórcio ainda é comparativamente pequeno.

Contando com a segunda maior força de trabalho do globo, uma mão-de-obra ainda bastante barata, tem sido o país com o maior crescimento económico na arena mundial. É um país cuja mão-de-obra especializada, principalmente em tecnologia de informação, goza de grande respeito a nível internacional, bem como produz o Tata, que é o carro mais barato da indústria automobilística. Essas e outras considerações, levam muitos analistas a prever que, sob o capitalismo, a Índia vai-se transformar na segunda potência mundial após a China. Mas, apesar do optimismo, essa é uma longa e complexa caminhada, já que o país tem muitos problemas internos, entre os quais a questão da Caxemira e Jammu, nos himalaias, região disputada com a China e o Paquistão Essa questão levou à guerra entre a Índia e o Paquistão em 1965, 1971 e na guerra de Kargil, em 1999. Levou também à guerra com a China em 1962. E continua sendo um problema candente até hoje. Em Jammu, 37 % da população é muçulmana e, na Caxemira, 97%. Para se ter uma ideia da complexidade local, basta lembrar que a língua oficial de Caxemira é o urdu, mas são falados ainda o hindi, o caximiri, o dogri, o pahari, o balti, o ladakhi, o punjabi, o gojri, o dadri e kishtwari…

A violência política é outro problema agudo. Dias atrás, durante uma reunião política no Club Side, em Gorkhaland, foi assassinado Madan Tamang. Cerca de 150 militantes invadiram o local armados de facas e espadas. Gritavam pelo sangue de Tamang, líder da moderada Akhil Bharatiya Gorkha League. A Gorkhaland compreende a região de Darjeeling e Duars, em West Bengal.

Os problemas laborais levaram a duas greves importantes nas últimas semanas – a dos ferroviários, que parou Mumbai, e recentemente a da aviação. A greve na aviação levou a uma brutal repressão, com a demissão e punição dos líderes grevistas.

Guerra popular do Partido Comunista da Índia (maoísta)

A outra questão candente, mas que tem merecido pouco destaque da imprensa mundial, é a da guerra popular desenvolvida pelo Partido Comunista da Índia (maoísta). O partido foi fundado em Setembro de 2004, produto da fusão entre o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista) Guerra Popular e o Centro Comunista Maoísta da Índia. Já em 2006, o actual primeiro-ministro, Manmohan Singh, referiu-se aos maoístas como sendo o maior problema interno de segurança.

Os maoístas são chamados na Índia de naxalites, devido ao levante que protagonizaram na cidade de Naxalbari. Em 22 de Junho de 2009, o governo baniu o partido maoísta, catalogando-o como uma organização terrorista. Apesar da fundação recente, acredita-se que os maoístas já estão presentes em 20 dos 28 estados da Índia. A sua principal força é proveniente dos camponeses pobres de diversas tribos nas áreas de Jharkhand, Andrha Pradesh, Bihar, Chhattisgarh, Maharastra, West Bengal e Orissa.

Desde a fundação, a lista de conflitos armados entre a guerrilha, a polícia e as forças armadas tem aumentado sistematicamente. Só para citar os últimos casos, de uma lista imensa, no início de Abril, 76 soldados do CRPF (Central Reserve Police Force) foram mortos em emboscada da guerrilha. Durante o confronto, que durou algumas horas, os soldados foram caindo um a um próximo ao povoado de Chintalnar, em Dantewada. Apenas alguns escaparam depois da chegada de reforços recebidos sob fogo cerrado dos 350 soldados do Exército Guerrilheiro de Libertação Popular, que contava ainda com o apoio de mais 200 militantes e associações locais.

Após o enfrentamento, o Partido Comunista da Índia (maoísta), afirmou que o ataque fora planeado minuciosamente durante seis meses. E que contou apenas com a participação de 300 soldados do Exército Guerrilheiro de Libertação Popular, dos quais oito morreram no combate. O objectivo foi derrotar e parar a “Operation Green Hunt”, que visa limpar as tribos e o movimento revolucionário para entregar a área à exploração das multinacionais. Visava vingar também a morte de quatro líderes do partido mortos em falsos encontros, e também salvar a população de Bastar. Segundo o comunicado, o CRPF e o comando Cobra (do qual 15 membros morreram no confronto), estão a matar pessoas inocentes (125 foram mortos em vários povoados de Dantewada e Bijapur), queimando aldeias, violando as mulheres e expulsando as pessoas. Segundo pesquisa das mulheres maoístas, 76 mulheres de 10 povoados foram violadas pelos militares.

Ataques sucedem-se

No dia 16 de Maio, os maoístas liquidaram Hermant Bage, após interceptarem o veículo em que ia o congressista local no povoado de Lumbatoli, em Jharkhand.

No dia 17 de Maio, os maoístas explodiram um autocarro, o que causou a morte de 44 pessoas, entre as quais 18 oficiais da polícia especial, num trecho de selva em Sukma, Dantewada. Os oficiais da polícia viajavam no autocarro, contrariando as normas que os impedem de utilizar veículos civis. Mas acreditavam que, por esse motivo, não seriam alvo de ataques.

Após esse ataque, houve grande desmoralização das tropas governamentais: ”Em Bastar prevalece uma situação de absoluto terror. As forças dificilmente se movem, com medo dos ataques dos maoístas… eles estão a sentir-se aterrorizados nos seus próprios campos base”, afirmou uma alta patente militar local. “Nem a polícia nem os paramilitares estão com as mentes e os corações preparados para perseguir os maoístas nas áreas de selva”, comentou um polícia.

No dia 18 de Maio, os maoístas convocaram uma greve geral em cinco estados onde têm grande penetração: Orissa, Bihar, West Bengal, Jharkhand e Chhattisghar.

No dia 19 de Maio, quatro soldados do CRPF foram mortos e dois ficaram feridos por uma explosão enquanto patrulhavam a área de West Midnapore, no segundo dia da greve geral convocada nos cinco estados.

No dia 20 de Maio, os maoístas apoderaram-se de uma carga de explosivos de um caminhão, na selva, em Andhra Pradesh.

Apesar de não se poder concordar com os métodos utilizados pelos maoístas, que não são próprios do movimento operário, a longa luta da população da Índia contra a miséria e a opressão de milhões de pessoas é plenamente justificável.

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