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Irlanda: O legado da não separação entre religião e Estado

Também recentemente, Gerry Adams, líder do outro partido que compõe o "governo de unidade nacional" da Irlanda do Norte, o Sinn Féin, assumiu a existência de casos de abuso sexual na família. Fê-lo para combater a "cultura do encobrimento", que durante décadas foi praticada por todos os sectores ligados ao catolicismo irlandês. É sintomático, aliás, que o cardeal espanhol António Cañizares tenha dito que os abusos sexuais comprovadamente praticados de forma sistemática por membros da igreja católica irlandesa sobre crianças a seu cargo são menos graves... que o aborto.

O que têm os dois casos em comum? O facto de surgirem de uma sociedade onde a religião marca a agenda política. A norte e a sul, entre católicos e protestantes, a igreja é símbolo de um misto de espiritualidade e poder. A norte e a sul a sexualidade é tabu, e só é discutida em contextos de escândalo ou abuso. Mas norte e sul reclamam-se o baluarte da intervenção estatal ao nível da sexualidade, porque o aborto é expressamente proibido em toda a ilha (e as viagens a Inglaterra para o praticar um dado adquirido, embora nos últimos anos pelo menos duas adolescentes grávidas em consequência de violação tenham sido impedidas de sair do país para não abortarem).

É este o legado da não separação entre religião e Estado no país da Europa mais frequentemente comparado com Portugal. Lá, como aqui, as igrejas das denominações maioritárias preocupam-se sobretudo em garantir que o Estado se rege pelos seus valores, e minimizam todo o sofrimento que isso possa causar. O grande mérito de um Estado laico é garantir os direitos e dignidade de todos os cidadãos, sem que isso ponha em causa a liberdade (por exemplo religiosa) de ninguém.

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