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Crime e pecado

Perante o conhecimento do acumular de casos de pedofilia entre os membros do clero católico, a Igreja reagiu com três posições diferentes, e não só com a resignação da senhora entrevistada. Importa assinalar essas diferenças, porque elas permitem compreender melhor a dimensão desta crise.

Em primeiro lugar, o Papa Bento XVI atribuiu a inquietação da opinião pública a "murmúrios" ou a calúnias. A expressão é devastadora. Um teólogo alemão foi ontem mais longe, ao comparar a crítica ao silêncio da Igreja com a campanha anti-semita, que na Alemanha significou o nazismo e o genocídio. Apesar desta vontade de silenciamento - e sabemos agora como foram longas as décadas de encobrimento de casos já conhecidos pela hierarquia - a possível convocação de um Sínodo demonstraria que, mesmo para o Papa, não se trata de "murmúrios".

Em segundo lugar, temos posições que reconhecem o crime e dele se distanciam. Foi o caso de José Policarpo ontem: são "crimes da Igreja e dos seus sacerdotes", e devem ser portanto punidos. Policarpo nunca usou a expressão "pedofilia", mas não deixou dúvidas acerca do que se referia.

Em terceiro lugar, temos as vozes que reconhecem o crime e que o combatem com firmeza. O notável artigo de Anselmo Borges, aqui reproduzido no esquerda.net, é um exemplo dessa exigência. Borges propõe respostas fundamentais, depois do crime punido, sobre a vida da Igreja, incluindo o fim do celibato dos padres.

E vale a pena olhar para este argumento. Porque ele toca no essencial, que é um não-dito: porque razão é que a Igreja é tão criticada pela pedofilia de alguns dos seus sacerdotes? Um jornalista do DN indignava-se hoje porque, escreve ele, a imagem mediática da pedofilia na Igreja Católica é mais explorada do que a da pedofilia entre os Mormons ou noutras confissões. Eu sugiro-lhe uma explicação para esta inquietação, que aliás teria percebido se tivesse lido Anselmo Borges: é que a Igreja Católica, como poucas outras, notabilizou-se pelo discurso agressivo e dominador sobre a vida sexual, procurando uma castidade que castigava a sexualidade como pecadora.

A Igreja Católica recusou as relações sexuais sem casamento, impôs a ideia de que a sua função exclusiva era a procriação e por isso mesmo condenou o uso da pílula. A Igreja Católica condenou o uso dos preservativos e repetiu essa condenação quando as doenças como a SIDA se espalhavam. A Igreja Católica perseguiu os homossexuais e recusou o seu direito ao casamento. A mesma Igreja insistiu na continuação da perseguição criminal a mulheres que tivessem abortado. Ao longo das últimas décadas, um dos aspectos mais evidentes da acção pública desta Igreja foi o combate contra a vida sexual das pessoas concretas. Por isso se torna mais notório o macabro espectáculo da pedofilia e do seu encobrimento sistemático, deliberado e sinistro.

Não, minha senhora, não foi pecado. Foi mesmo crime.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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