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Salvar os bancos até quando?

Até os mais consistentes e autorizados comentadores se aperceberam que as enormes somas reunidas com dificuldade para «salvar a Grécia» são efectivamente destinadas a salvar.... os investidores: bancos, fundos e outros credores internacionais. Por Frédéric Lordon

Se bem que o texto que aqui se apresenta tenha como finalidade desenvolver um ponto de vista (relativamente) independente, torna-se difícil nada dizer sobre o plano de «estabilização» que a União Europeia e o FMI acabam de anunciar e a propósito do qual não se pode deixar de questionar o que é que ele vai estabilizar e por quanto tempo...

O «plano de estabilização» ou os riscos do bootstrapping1

O plano é constituído por três parcelas: 60 mil milhões de euros de contribuições da União Europeia directamente mobilizáveis, 250 mil milhões da mesma moeda mas mobilizados pelo FMI, e uma grande fatia de 440 mil milhões provenientes do fundo de garantia. Diga-se, sem ambiguidades, que os 60 mil milhões da União Europeia são uma gota de água quando comparados com o problema potencial da dívida soberana na zona euro – mas são proporcionais ao poder fiscal da União (isto é, às contribuições nacionais que lançam créditos no seu orçamento). Os 250 mil milhões do FMI são mais substanciais mas, mesmo assim, quando acrescentados aos precedentes 60, não dão uma resposta satisfatória ao problema: a Natixis estima que só o plano de salvação da Espanha atinge 400 a 500 mil milhões de euros, sem falar da Itália, da Irlanda, etc. Daqui se conclui que se o contágio atingisse simultâneamente diferentes dívidas soberanas, seria o fundo de garantia que responderia ao essencial das tensões provocadas.

É aqui que reside o ponto fraco deste plano, pois, no seu fundamento, o dispositivo garante dívidas suspeitas por meio de finanças públicas suspeitas... Este projecto serve-se, claro está, da heterogeneidade da situação das finanças públicas europeias, ao garantir as menos boas pelas menos más. Subsiste, no entanto, um efeito de circularidade, que se tornaria manifesto se houvesse um efeito de contágio por pouco vasto que fosse e que veria inverter-se a proporção das dívidas (ditas) menos boas e das dívidas (ditas) menos más: neste caso, as primeiras, de minoria que são, tornar-se-iam preponderantes. Reside neste ponto a diferença entre o plano actual e o plano de garantia dos bancos privados concretizado pelos Estados, no Outono de 2008, numa altura em que os Estados em questão possuíam ainda dívidas públicas moderadas e pareciam estar numa situação de exterioridade e de solidez relativamente ao sector bancário.

No presente plano de estabilização, são os Estados que se protegem mutuamente numa altura em que as suas solvabilidades são controversas e a destruição da dupla condição de exterioridade e de solidez é um facto. Ninguém poderá excluir um cenário no fim do qual – daqui a seis, doze, dezoito meses? – a opinião financeira, actualmente exaltada pelas centenas de milhares de milhões postos à sua disposição, tome consciência do carácter bootstrapping da manobra. Se a crença financeira efectuar esta nova mudança, o conjunto do dispositivo desmoronar-se-á e tudo terá de recomeçar. Esperemos que o crescimento volte o mais rápido possivel e permita exaurir todas as tensões, iniciando calmamente o ajuste dos rácios de solvabilidade soberanos no mais curto lapso de tempo.

O único ancoradouro seguro do plano de salvação reside na sua quarta componente: a adopção pelo BCE de uma estratégia de Quantitative Easing2 que anteriormente proclamara irrealizável – mas que, milagres da crise extrema que tornam possivel o impossivel, atestam o carácter profundamente político da repartição de impossibilidades, objectivamente tecnicistas. Se a metempsicose existisse, transformar-nos-iamos de boa vontade em moscas, para irmos pousar candidamente na parede da sala de reuniões do conselho do BCE, onde os vidros poderão, dentro em breve, estremecer. Talvez se saiba em breve, qual foi a relação de forças que impôs aos representantes alemães (e talvez a outros) uma medida decisiva que eles rejeitavam imperiosamente e contra a qual tudo tinham feito para neutralizar.

Ludibriado, mais uma vez, pela rigidez geral do conjunto da construção europeia, que o obriga a editar regras infrangíveis para logo de seguida as violar, o BCE habituou-se a encontrar uma pose de unanimidade que, ao garantir a credibilidade, tolera mal as expressões públicas de discórdia, ressentidas como rupturas ou como dramas. Tal significa que as 'aflições dogmáticas' que certamente já se apoderaram do BCE, e que têm tendência para se agravar, correm o risco de se tornar incómodas. No caso de ocorrer uma crise de contágio soberana, o BCE, enquanto componente mais fiável do plano de conjunto, encontrar-se-ia na primeira linha e os senhores Stark e Weber assistiriam, furiosos, ao movimento incontrolável (mas, necessário) da cunhagem de moeda. A passagem para o Quantitative Easing é pois a única tábua de salvação tecnicamente robusta, mas politicamente talvez seja a mais frágil. Poderemos pois antecipar que a história está longe de ser contada e que outros capítulos serão acrescentados.

Salvar a Grécia ou salvar os bancos?

O anúncio do plano de estabilização não alterará nada (bem pelo contrário!), até mesmo as questões centrais que levanta (mais uma vez) a presente etapa da crise financeira. Até os mais consistentes e autorizados comentadores se aperceberam que as enormes somas reunidas com dificuldade para «salvar a Grécia» são efectivamente destinadas a salvar.... os investidores. Bancos, fundos e outros credores internacionais são, com efeito, os felizes receptores do esforço dos cidadãos gregos e dos fundos públicos europeus, o que significa que a solidariedade não é uma palavra vã e permanece um valor seguro nestes tempos perturbados. É de lamentar que o entusiasmo 'pedagógico' que preside a iniciativas tão admiráveis como às do CODICE (Conselho para a Difusão da Cultura Económica), do Instituto para a Educação Financeira do Público ou às dos programas dos cursos de SES (Ciências Económicas e Sociais) encontre aqui inexplicavelmente os seus limites. É preciso ser cego para não vislumbrar neste ponto uma excelente oportunidade de pedagogia, habitualmente considerada essencial pelas tropas de elite dos preceptores mediáticos e políticos: a ideia de que, a coberto de salvar a Grécia se salvarão os investidores, ganharia a ser popularizada, com fins exclusivamente experimentais, para se saber que efeito poderia ter sobre a opinião pública a sua propagação, e para observar, sempre com espírito muito cientifico, o que poderia vir a seguir.

Decerto, e com todo o rigor, não se poderia afirmar que os contribuintes europeus vêm socorrer os credores internacionais. Os Estados europeus vão cobrar um suplemento de dívida aos mercados durante os três anos que durará o plano e obterão lucros (escandalosamente), nas costas dos Gregos. Poder-se-á pensar até que, no seguimento das práticas do FMI, os Estados europeus cuidaram de si ao arranjar um lugar de credores privilegiados que lhes garante uma prioridade em caso de reestruturação.

Sejamos mais sérios. No último Outono, Dominique Strauss-Kahn, director-geral do FMI e Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, ao dar crédito à ideia de que a crise abrandara, cometeram uma imprudência, num movimento de alívio prematuro, ao declararem que socorrer a finança privada era em si suficientemente escabroso para não ter que fazê-lo uma segunda vez. No entanto, é aquilo que se está a passar actualmente, exceptuando a mediação oportunamente fornecida pelas dívidas soberanas que permite manter a ilusão, haja o que houver, de que se trata de salvar um Estado com pouco dinheiro (como todos os Estados) e nada mais. Ora, nunca se viu um Estado morrer por não pagamento de dívida, pela simples razão de que a expressão «falir» não tem rigorosamente cabimento a propósito de uma entidade política soberana. Tudo isto é muito diferente do que aconteceu com os bancos privados, em 2008, pois que, caso não tivessem sido ajudados, teriam desaparecido. Logicamente, se o Estado não morre por não cumprimento, não é o Estado que estamos a salvar. Quem é então? Os credores, claro.

As dívidas soberanas da zona euro são detidas, em média, a 12% pelos bancos e 14% pelos investidores não bancários3. No entanto, no caso da Grécia, pois que, ao que parece, é a Grécia que se está a salvar, a chave de repartição é singularmente diferente. No período compreendido entre 2005 a 2010, a dívida pública grega foi subscrita a 43% pelos bancos, 8% pelos gerentes (asset managers) e 4% pelos hedge funds (fundos de risco)4. Eis, pois, a população de necessitados que os fundos públicos de socorro europeu vão ajudar. E se nos lembrarmos da simpatia espontânea que toda esta pobre gente recebe, logo nos vem ao pensamento: por que é que não a deixaríamos sucumbir?

É uma questão que vale mais do que um movimento de humor e na qual se adivinha imediatamente a resposta, aliás não sem legitimidade. Porque, tal como o episódio do Outono de 2008 já o provou, a finança possui objectivamente meios para nos forçar a ajudá-la. É pois importante saber em que medida e perguntar, depois, se não haveria algumas conclusões políticas a tirar desta situação excessiva que nada tem de imaginário.

A ausência de mecanismos de reestruturação das dívidas soberanas

O que aconteceria aos bancos se a Grécia não tivesse dinheiro? Lembremo-nos primeiro que uma «dívida» não significa necessariamente perda completa e definitiva para os credores, mas reestruturação da dívida segundo uma sábia mistura de reescalonamento e de exoneração (haircut na linguagem astuciosamente imaginativa da finança). É certo que a reestruturação de uma dívida de mercado, por oposição a uma dívida bancária sindicada, apresenta numerosas dificuldades. Se nesta última era fácil reunir em torno de uma mesa um número razoável de credores bancários ou públicos para negociar, como por exemplo aquando das crises das dívidas latino-americanas do início dos anos 80, através dos seus clubes (Clube de Paris, Clube de Londres), a reunião de um grande número de credores obrigacionistas é problemática. Não é, no entanto, impossível.

O FMI ao tomar consciência, no início dos anos 2000, desta mutação nas formas de financiamento soberanas, questionou-se sobre o processo de liquidação ordenado das dívidas obrigacionistas sob o modo de um chapter5 remodelado (ou melhor, dum chapter 96) para uso das dívidas soberanas. Ann Krueger, na altura vice-directora do FMI, pôs de pé um projecto de SDRM (Sovereign Debt Restructuring Mechanism) decalcado do direito das falências privadas e organizou, sob a égide do FMI, convertido entretanto numa espécie de tribunal de comércio internacional, uma reunião dos principais credores com a finalidade de produzir um regulamento concordatário executório para todos a partir do momento que fosse avalizado por uma maioria qualificada. A ideia não era muito boa mas, pelo menos, acentuava a ideia de que um novo modo de financiamento soberano chamava a si novos modos de regulamentação das dívidas soberanas! Mas naquela altura, Wall Street fez ouvidos de mercador, já que reestruturar significava fatalmente «corte», e os nossos amigos da finança são homens elegantes que não cedem. Torna-se claro que a concordata traz sempre consigo uma boa parte de exoneração, enquanto que os bons planos de salvação pública, sob o comando do FMI ou dos Estados, oferecem melhores esperanças de total recuperação através de um «ajustamento estrutural». Acabados de sair dos anos Clinton, nada se podia recusar nessa altura à finança. O SDRM acabou por ser esquecido.

O indistinto ponto de falta de liquidez bancária

Impossibilitados de lhe darmos outra certidão de nascimento, dele se pode conservar a premissa essencial: quando há falta de liquidez, os credores abrem habitualmente o porta-moedas. Mas os dos investidores actuais gostariam de mantê-los fechados, por isso teremos de os obrigar a abri-los. Mas até onde e quais serão as consequências?

Os bancos encontram-se incontestavelmente em situação de assumir as perdas! Mas, como sempre (cf. «La croisée des chemins»), a questão decisiva é a localização dos pontos fracos. Que significa «ponto crítico» neste caso, isto é, o que é que poderá acontecer? Como para qualquer entidade económica não-soberana, o ponto crítico é o da falta de liquidez. Esta questão põe-se no entanto em termos diferentes para um agente económico não-financeiro. Com efeito, os bancos devem quotidianamente operar regulamentações extremamente finas da sua liquidez através do balcão do banco central, mas também e em parte com a liberalização financeira, nos mercados de capitais, em particular numa gaveta muito especial que é o mercado interbancário. A continuidade dos seus financiamentos a muito curto prazo é vital, bem como tudo o que a possa ameaçar é, potencialmente, uma catástrofe. Como já verificámos a grande escala, desde o Verão de 2007, a falta de liquidez bancária continua a ser raramente local. Propaga-se rapidamente através do jogo das obrigações cruzadas interbancárias e é precisamente nesta propagação que reside um risco sistémico de materialização.

O problema tem origem no facto de que a falta de liquidez de um só banco pode, muito rapidamente, contagiar os vizinhos. Como os bancos sofrem de uma paranóia de mútua fiscalização, muito embora, por vezes, fundamentada, não deixa de apresentar inconvenientes, nomeadamente a divagação. Tal significa, neste caso particular, que por causa do entusiasmo das antecipações do mercado interbancário e dos mercados de crédito por grosso, uma simples dúvida em relação à falta de liquidez pode transformar-se em certeza : «receamos que o banco A não tenha liquidez – mesmo se muitos elementos poderiam conduzir a uma conclusão inversa – e, por isso, emprestamos-lhe mais. Mas como todos os dias ele deve satisfazer as suas necessidades de tesouraria, o banco acaba por não ter liquidez...» Através das suas propriedades altamente auto-realizadoras, o contágio da desconfiança torna-se num poderoso veneno das finanças. É o que os Estados da zona euro estão a descobrir e os bancos privados vão talvez rapidamente redescobrir (já que o tinham experimentado no Outono de 2008).

É esta a razão pela qual os banqueiros mentem sistematicamente. Lembremo-nos que no Outono de 2007 o estado-maior da Société Générale (grupo bancário francês) afirmara a pés juntos que «no pior dos cenários» o banco não perderia mais de 200 milhões com as subprime. No entanto, perderam 2,5 mil milhões, astuciosamente misturados no chamado caso Kerviel, Baudoin Prot, presidente do grupo francês BNP-Paribas começou também por jurar que este banco não estava exposto a quaisquer riscos soberanos gregos. Logo depois, confessou que estava à altura de mil milhões de euros. E logo de seguida, a 5 mil milhões, aos quais se deve acrescentar 3 mil milhões de créditos comerciais. Não confessou, no entanto, que ele é o feliz proprietário do Fortis, um banco europeu que bate recordes na detenção de títulos públicos gregos (cerca de 60% dos seus activos líquidos, se acreditarmos no que diz o Financial Times, esse jornal esquerdista). O mais grave neste caso é que, no lugar destes bancos, faríamos a mesma coisa. E isto porque há uma racionalidade objectiva da mentira quando estamos submetidos aos erros, por vezes delirantes, da crença colectiva na finança. Uma excepção deve ser feita: a racionalidade que o senhor Prot reclama para ele, deveria ser concedida, da mesma forma, ao Estado grego...

Até onde deixar os bancos perder?

Poderíamos, ainda assim, tirar de tudo isto algumas conclusões simples.

A primeira é que um sistema cujos efeitos na vida material da maioria são de tão longo alcance – em inglês a expressão é mais incisiva: far reaching – e que funciona, em última análise, com as forças primitivas da opinião e da crença, está votado às mais aberrantes formas de suspeita e às reacções mais aberrantes que necessariamente se lhe seguem. Um tal sistema é, pois, iníquo e dá razões de sobra para que tenha de ser posto no bom caminho.

A segunda necessita de um desvio e parte da ideia de que nunca sabemos muito bem a quantas andamos com as perdas bancárias, e que essa incerteza nos obriga, à partida, a caminhar sobre ovos. Como qualquer empresa, um banco pode ter perdas. Em princípio, nada obsta a que se queixe dos títulos gregos. Existe, no entanto, um limiar de perdas – eventualmente muito longe do ponto de iliquidez – onde se desencadeiam todos os mecanismos geradores de antecipação de desconfiança que brutalmente a ela conduzirão. No universo bancário, uma crise de liquidez é geralmente uma inquietação de insolvência mal resolvida a partir de antecipações bancárias da concorrência7  – por um delicioso paradoxo desse universo, os bancos nunca deixam uma das suas congéneres chegar por si mesma à falta de liquidez, eles empenham-se em conduzi-la a isso…

Até onde deixar, então, os bancos «arrecadar» ? A resposta consiste num «nem demais nem de menos» que não é de grande ajuda operacional. Mas o susto do Outono de 2008, aliado à eficaz «presença» dos interesses bancários no coração dos aparelhos do Estado e o contexto geral da crise financeira em pleno desenvolvimento fizeram inclinar consideravelmente a balança do lado do «nem demais», até ao do «nada». Tirando o caso Lehman Brothers, somos obrigados a notar que os credores dos bancos implicados no naufrágio geral das finanças saíram sem um fio de cabelo molhado, façanha apesar de tudo considerável, se pensarmos na magnitude do choque, porque todos esses heróis, sem excepção, teriam ficado em camisa sem a ajuda pública…

Há algo intrinsecamente mau neste desencalhar permanente dos credores dos bancos e dos próprios bancos8  que os torna quase insubmersíveis. Mas o mal eleva-se ao quadrado se pensarmos que esta forma de graça de que usufruem está longe de ser inteiramente infundada. Não é que a falência de um banco seja impossível. Sem dúvida a brutalidade dos processos de mercado priva-o de um corte de todos os seus financiamentos a curto prazo – vitais. E, à parte os credores, é também de uma importância estratégica não deixar as contrapartidas penduradas demasiado tempo. Contudo, pode-se imaginar muito bem a continuidade das operações da banca sob administração judicial do banco central (se não sob “administração judicial”, pelo menos sob controlo de liquidez garantida) o tempo necessário para encontrar uma regulamentação que reestruture a dívida, distribua as perdas e organize a saída da insolvência (se a saída for possível) por recapitalizações ad hoc (por exemplo mobilizando os credores por debt-equity swap, isto é, convertendo as suas dívidas em capitais próprios).

Mas o problema que o choque de uma falha a alto nível no sector bancário coloca é não-local. Um grande número de bancos vão ver-se afectados simultaneamente. As coisas tornam-se razoavelmente mais complicadas. O suficiente para tornar impossível um regulamento ordenado. Podíamos fazer a experiência de deixar acontecer a falha a alto nível para ver se o sistema bancário é, afinal, capaz de a absorver sem entrar em colapso – e é possível que sim. Mas a experiência é a brincar, porque senão… É bem preferível antes de carregar no botão “falha a alto nível” ter na manga o segundo plano de salvamento bem montado e pronto a sair. Tudo depende, evidentemente, da medida da falha considerada. O que nunca pode ser dito com precisão já que, convém lembrar, os efeitos totais dependerão, em larga medida, da dimensão dos mecanismos de amplificação auto-realizadores, ex ante imprevisíveis.

 A captura privada do bem comum da estabilidade financeira

Suponhamos mesmo que estes efeitos não são fatais. O resultado é, no entanto, quase de certeza, um aperto suplementar na contracção do crédito, visto que é assim que reage sistematicamente o sector bancário a todos os seus contratempos – exactamente o que nos faltava no meio de uma recessão. Além disso, a eventualidade do colapso ou a eventual travagem brusca do crédito aproximam-se do ponto que justifica toda a presente discussão, a saber, a ligação objectiva do interesse particular do sector bancário e o interesse económico do corpo social. Efectivamente, os bancos têm como marca distintiva ocupar essa posição muito particular na estrutura social do capitalismo, onde o seu próprio destino se liga ao da colectividade – uma espécie de passagem para o plano real das pretensões vulgarmente imaginárias da ideologia, já que Gramsci define precisamente a ideologia como a operação discursiva que transfigura interesses particulares em interesse geral (e cuja fórmula genérica foi dada pelo célebre «o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos»). É por isso que convém olhar com a máxima desconfiança as declarações de certos agentes quando sustentam que o bem-estar da maioria depende do seu próprio bem-estar. É preciso estar de pé atrás sem que essa desconfiança a priori bem fundamentada impeça de ver os casos em que tal ligação está objectivamente constituída. Porque os há. E particularmente em materia bancária.

Em economia capitalista, o interesse material comum passa efectivamente pelo que se chama sector bancário. Isso acontece porque os agentes económicos do sector produtivo têm uma necessidade vital de manter o seu acesso ao crédito para financiar o ciclo de produção e também, evidentemente, para investir. Um golpe, não a este ou àquele banco local, mas ao sector no seu todo tem, no pior dos casos, – o meltdown – o efeito de pôr em pânico quase instantaneamente toda a economia; e no caso menos grave – perdas importantes sem colapso do conjunto – o de atrasar brutalmente o crescimento por retracção do crédito (depois de ter apanhado um calafrio, os bancos já não querem emprestar e só pensam em reestruturar o seu saldo).

É sabido desde 2008 que discutir o sistema bancário não é viável. É possível fazê-lo encaixar prejuízos mas – é preciso estar consciente disto – à custa de um contragolpe que virá rapidamente manchar a nossa alegria de ver finalmente os banqueiros amargar. Mas então, perguntar-se-á neste preciso momento, «estamos inteiramente nas suas mãos?» A resposta é sim.

Desprivatizar o sector bancário

Todavia, o momento da grande raiva que decorre desta percepção é ultrapassável, e pode até ser de curta duração. Porque a identificação dessa ligação objectiva traz ela própria a sua consequência política: a situação de dependência do interesse comun a um interesse particular tão localizado e tão concentrado tem o nome verdadeiro de captura e, por conseguinte, não pode ser tolerado. O que toca o interesse comum respeita o comum e não pode em caso algum ser abandonado a interesses privados – que, previsivelmente, reduzirão a comunidade aos últimos extremos da dependência: «salvem-me ou mato-vos, não me toquem ou firo-vos gravemente, que nada me aconteça ou pagareis por isso», o pior é que de todas as vezes estas ameaças são verdadeiras! Não há que desesperar com esta «verdade», basta tirar dela as conclusões certas: se se verifica que, devido a propriedades muito particulares do crédito em economia de mercado capitalista, o sector bancário é o detentor de facto dos interesses materiais superiores da comunidade, e que ele dispõe dos meios objectivos para forçar a comunidade a dar-lhe tudo o que ele exige, então ele deve render-se à comunidade.

Uma outra formulação deste princípio é: un sector bancário privatizado não é tolerável. Reunir o número de concessões que as finanças bancárias terão feito engolir aos corpos sociais de há três anos para cá, é uma ideia que tem pernas para andar. É de crer que isto não seja ainda suficiente a julgar pelo mega-plano de salvamento europeu de 9 de Maio, que não muda nada às estruturas, que determina a relação dos poderes (ditos) soberanos e das finanças, e finalmente entrega a estas absolutamente tudo o que elas exigem: dum lado os planos de rigor para a população, do outro as garantias para si! É verdadeiramente comovente a alegria da finança quando, na manhã do dia 10, no grande pacote de 750 mil milhões de euros, descobre que o Natal é em Maio. Embora dê vontade de bater se formos a pensar que as aposentações em França vão alegremente a caminho do desmantelamento por um impasse de 30 mil milhões no horizonte de vinte anos. Desta vez, a interpretação dos mercados está correta, pelo menos a curto prazo: todos os valores bancários estão em alta, é tão bom saber-se amado. Se – mas só por milagre – um terramoto político de grande magnitude viesse a ocorrer, o que se torna cada vez mais evidente que não partirá dos governos, e um novo acordo surgisse no horizonte, então aí seria preciso incluir formalmente o princípio de proibição da captura dos bens comuns – como a estabilidade e a segurança financeira lato sensu – por interesses privados, e tirar daí a conclusão operacional que logicamente se seguiria: nacionalisação e a seguir socialização do sistema bancário9.

Como muitas vezes acontece, para passar da raiva reprimida à raiva declarada basta uma palavra; de um abuso marginal para um abuso geral, uma provocação a mais, a maioria das vezes nem sequer consciente no espírito do provocador. A este respeito sejamos gratos ao excelente Baudouin Prot, presidente de BNP-Paribas e da Federação bancária francesa que, quando ainda nem se tratava de salvar a Grécia e reunir centenas de milhões, se inquietava já com uma possível taxação dos bancos – sem esquecer de juntar a ameaça à «inquietação»: «uma taxa reduziria os fundos próprios cujo nível determina a solidez e a capacidade de fazer empréstimos de bancos […] Se formos demasiado longe, vamos tornar o crédito mais raro e mais caro»10. Não seria possível ser mais transparente, nem afastar melhor a vontade de ir «demasiado longe». E até mesmo muito mais longe.

Terça-feira, 11 de Maio de 2010.

Tradução de José Costa e Deolinda Peralta

1 O bootstrapping designa a tentativa feita pelo barão de Munchausen de voar esticando ele mesmo os atacadores das botas e, de uma maneira geral, os processos repetitivos nos quais se espera que o efeito produza por ele mesmo a causa.

2 Isto é, a intervenção directa nos mercados através de proposta firme de títulos da dívida pública.

3 Sylvain Broyer, Costa Brunner, "Qui détient les dettes publiques européennes ?", Flash Natixis, n° 124

4 Números comunicados pela Public Debt Management Agency, agência grega de gestão da dívida pública.

5 cf. O capítulo do direito das falências da ONU consagrado às empresas.

6Ibid., mas desta vez dedicado às colectividades públicas territoriais.

8 Bancos que são importantes credores e devedores mútuos.

9 De que foi dada uma prefiguração em « Pour un système socialisé du crédit »

10 « Taxe bancaire : “une fausse piste” pour Baudouin Prot », Challenges, 15 de Abril de 2010

(...)

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