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O tango canalha

O delírio ultraliberal alcança níveis de violência inimagináveis. O Ministro Luís Amado, famoso por ter defendido a ocupação do Iraque, abre agora uma nova frente de batalha, procurando constitucionalizar o limite ao défice e ao endividamento. Por outras palavras, defende o que a direita até agora nunca conseguiu: plasmar na matriz fundadora da democracia a perpetuação do capitalismo neoliberal, impedindo, até, qualquer política económica de feição social-democrata ou de inspiração keynesiana. Para sempre uma ditadura do défice, baixos salários, retracção nos serviços públicos e no papel regulador e redistributivo do Estado. O fim da história, em suma.

Passos Coelho dá outro passo na perseguição aos pobres, querendo obrigar os desempregados a trabalhos forçados. Há muito se percebeu que os dançarinos deste tango frenético elegeram o pobre e o desempregado como bodes expiatórios, estigmatizando-os e jogando com os preconceitos que fervilham em tempos difíceis. É o caminho mais fácil, mas também o mais canalha.

O Governo pretende agora diminuir o montante que auferem os beneficiários do rendimento social de inserção que habitam em bairros sociais por...habitarem em bairros sociais! Como se isso fosse um privilégio e não um direito, apesar das miseráveis condições em que muitos sobrevivem. O rendimento mínimo, é bom lembrá-lo, surge como consequência da quebra do pacto fordista, quando se constata o fim do pleno emprego e o crescimento exponencial do número do que alguns cruelmente apelidam de «supranumerários», por já não caberem na relação salarial, dada a compressão do mercado de trabalho.

Ser desempregado ou habitante de um bairro social parecem constituir atributos de penalização. O mundo às avessas.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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