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Onde está o consenso?

A linguagem dos gestores da crise é uma comunicação vertiginosa de mensagens de medo, inevitabilidade e acomodação

Austeridade. A palavra é, em si mesmo, um eufemismo e uma espécie de apelo à compreensão e adesão por parte das suas vítimas. E aí estão todas as outras palavras que nos levam a esta. Reclamam-nos esforço, pedem-nos sacrifícios (agora acrescenta-se "repartidos", para não parecer mal) e até "patriotismo" - talvez porque a tal dívida que lhes estamos a pagar seja, também ela, "soberana"... A linguagem dos gestores da crise é uma comunicação vertiginosa de mensagens de medo, inevitabilidade e acomodação da ofensiva, alimentada por uma frenética mediatização da crise e do sacrifício inspirador da Grécia. O pano de fundo é um consenso artificial, a partir do qual nos estão a tirar rendimentos, direitos e expectativas. A austeridade é simplesmente o nome do roubo acelerado.

Mas onde está o consenso? Sócrates e Passos Coelho estão de acordo, afinal, para fazerem o que (ambos) asseguravam dias antes ser impossível. O aumento de impostos é, portanto, "inevitável" e por isso instantaneamente "consensual". Confirmam comentadores e especialistas - os mesmos que acham sempre tudo depois de acontecer. Teixeira dos Santos, ainda nem tinha anunciado o que já sabíamos, já estava a dizer ao mundo que em Portugal não se passaria o mesmo que na Grécia - aqui somos "pacíficos", nas suas palavras. Já antes Helena André pedia "responsabilidade" aos sindicatos, porque os mercados não gostam de manifestações nem da resposta dos trabalhadores. Cavaco Silva, homem de silêncios e consentimentos surdos, não fala - o cicerone do Papa não se pode meter na política e, de qualquer forma, já sabemos o que pensa. Passos Coelho pede desculpa, mas reclama inevitabilidade em nome do país e não abdica do seu lugar na fotografia. Também Sócrates apela ao "esforço patriótico", tentando-nos convencer que dividiu com justiça - "equilíbrio", na linguagem da moderação - a factura que nos deixam especuladores e outros criminosos. Se dúvidas houvesse, os banqueiros juntaram-se para "saudar" as novas medidas e desejar que tudo corra pelo melhor.

Já o sabíamos, mas os últimos tempos revelam-no com uma clareza total: os governos são hoje esta espécie de agência do neoliberalismo, correndo sempre atrás da última exigência dos poderosos, tentando, com mais ou menos sucesso, esse difícil exercício que consiste em penalizar a maioria e pedir-lhe acordo e confiança - sempre transitória, porque nos dias que correm o desgaste é maior do que nos tempos dos "grandes homens". Socorrem-se da sua periferia de privilegiados, para fazer coro em nome dos interesses dos de sempre. Assim foi, por exemplo, na imposição do novo Código do Trabalho - também ele vendido como resultado de um "acordo", claro está. Assim é agora, no maior ataque à classe trabalhadora das últimas décadas, a somar a anos de cintos apertados.

Querem-nos a aceitar tudo, conformados com o guião apresentado. E sabem que encontram uma sociedade com medo do presente e, ainda mais, do futuro: é o desemprego e a precariedade, uma mistura explosiva à qual se juntam os cortes nos apoios sociais, nos salários e nos serviços públicos (alguns para privatizar em saldos).

É precisamente este falso consenso, baseado no acordo entre os fortes e na chantagem massiva sobre os fracos, que é preciso destruir. Não há alternativa à luta e à mobilização e poucas vezes isso foi tão claro como agora. A grande manifestação nacional do próximo dia 29 de Maio, convocada pela CGTP, será um momento importante para afirmar essa recusa e agitar o pântano onde se consuma a descarada transferência para os que só aceitam acumular. Só um novo fôlego, capaz de juntar trabalhadores de todas as condições e idades, mas também os desempregados e todas as pessoas que estão a ser atiradas para o desespero e a pobreza, poderá enfrentar esta austeridade selectiva e o seu plano para redefinir as regras e as expectativas para milhões de pessoas.

Sobre o/a autor(a)

Ativista da Associação de Combate à Precariedade – Precários Inflexíveis
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