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Problemas de saúde mental têm fortes custos económicos

Um relatório da Ordem dos Psicólogos diz que as empresas nacionais perdem 3,2 milhões e pede um reforço de investimento nesta área que considera “um investimento necessário que tem retorno”.
saúde mental no trabalho

Segundo a Rádio Renascença, são várias as conclusões do relatório “O Custo do Stress e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal”, com dados do ano passado, feito pela Ordem dos Psicólogos. Uma delas é que as empresas podem perder até 3,2 milhões de euros por ano devido à redução da produtividade relacionada com o absentismo e o presentismo derivados do stress e de problemas de saúde mental. Estes problemas também podem custar 0,9% do volume de negócios das empresas.

Se os custos do abstentismo costumam ser salientados e contabilizados, já que atrasos ou faltas ao trabalho têm implicações fáceis de perceber, os custos do presentismo estão muitas vezes mais escondidos. Este traduz-se em estar no trabalho fazendo figura "de corpo presente", por obrigação, desmotivado.

Os dados deste relatório são só referentes ao setor privado, não revelando dados do setor público e social. As faltas dos trabalhadores, derivadas de problemas de saúde psicológica, representam 6,2 dias por ano, mas o custo do presentismo será três vezes superior ao do absentismo, de acordo com o relatório. 

O documento ainda refere que a prevenção e a promoção da saúde mental pode fazer poupar perto de mil milhões de euros às empresas. Em declarações à Rádio Renascença, Rodrigues Miranda, bastonário da OPP, diz que “as acções de prevenção não são um custo, são um investimento”. 

Em Portugal, só 10% das empresas têm mecanismos para combater os riscos psicossociais derivados do trabalho. Miranda Rodrigues afirma que “isto não é um problema apenas do mercado de trabalho, é uma questão de saúde pública porque estas pessoas depois vão parar ao Serviço Nacional de Saúde que não tem resposta para estes casos”. 

Os riscos psicossociais mais comuns no mundo laboral são quando as empresas colocam os trabalhadores em zonas de perigo, a ausência de fronteiras entre o trabalho e o lazer e a dificuldade em equilibrar a vida familiar, pessoal e profissional. 

Dados de 2016 mostram que os trabalhadores portugueses trabalham mais horas do que a média europeia com 41,1 horas, sendo o quinto valor mais alto da União Europeia. A isto, temos que somar as 8,11 horas que os trabalhadores portugueses passam em transportes nas áreas metropolitanas. 

Também os horários excessivos e contínuos são fatores de desenvolvimento de alguma doença de saúde mental, mas também os horários por turnos, a existência de poucas pausas para descanso e de curta duração e exigências contraditórias de superiores.

Outras das situações referidas no relatório é o “burnout”, já que pode ter um efeito de contágio do stress e da ansiedade, por exemplo entre os profissionais de saúde, mas também para os utentes colocando até em risco a própria qualidade dos cuidados de saúde. 

Para a OPP, o reforço financeiro nas medidas de combate aos problemas de saúde mental é um investimento e não um gasto porque “os custos das intervenções de promoção da saúde mental no trabalho, geralmente, são claramente ultrapassados pelos ganhos na redução do absentismo e melhoria da produtividade”. Este investimento pode representar um aumento de cinco vezes mais no que toca a produtividade. 

A OPP também deixa algumas sugestões ao governo como por exemplo, a criação da figura do psicólogo do trabalho, mas também algumas críticas já que “tem sido a parte mais escondida, mais omissa, e mais inerte de todo este processo”, diz Miranda Rodrigues.

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