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Nita Clímaco: a proibição de “O adolescente”

As orelhas da capa do livro faziam propaganda a dois livros proibidos. Assim, a PIDE proibiu também a circulação deste romance. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Em O adolescente (1966), Nita Clímaco descreve a aventura de Françoise, jornalista francesa de 38 que passa férias em Portugal, numa pousada em Coimbra. Aí, conhece Rui, de 18 anos, que lá trabalha, e com ele inicia uma aventura amorosa. A primeira regressa a França e Rui fica em Portugal, perdidamente apaixonado. Não se conformando com a distância, parte para Paris, de forma a encontrá-la, depois de ter recebido um curto postal com uma fotografia de Paris e a frase: “As minhas recordações de Portugal confundem-se com os bons momentos que juntos passámos” (p. 132).

Uma vez em Paris, apanha a adivinhável decepção amorosa. Françoise, depois de uma certa relutância em encontrá-lo, acede ao pedido, ainda que contrariada. A viagem de Rui para França é-lhe totalmente indiferente: “E que culpa tenho eu disso? Não te mandei vir!” (p. 277).

No final da narrativa, Rui mostra-se feliz e encara Françoise como uma recordação, afirmando ainda procurar outras mulheres para poder aperfeiçoar o seu francês. Para além disso, mostra-se grato a quem o ensinou a não acreditar em paixões.

Recepção/censura de O adolescente

Os motivos que levaram à proibição desta obra foram diferentes dos que levaram à proibição das outras a que nos referimos neste trabalho:

Nita Clímaco é uma escritora que se tem notabilizado por lançar a público, apoiada por grande maquinação publicitária, obras que se destacam pela sua extrema imoralidade, tais como Falsos Preconceitos (1964) e Pigalle (1965) as quais foram oportunamente “Proibidas de Circular no País” por estes Serviços. Agora (1966) apresenta um novo romance com o título que está em epígrafe.

Este romance é porém muito mais comedido que os anteriores e embora foque e destaque ambientes comuns aos dos livros precedentes, não deixando de apresentar em cena invertidos sexuais inevitáveis nos textos e as descrições realistas das cenas amorosas que contém não enveredam pela pornografia

Nestas condições, em meu parecer, este livro (atendendo ao seu texto) pode ser autorizado a circular no País. Todavia surge um óbice de acentuada gravidade na edição deste livro. Nas “orelhas” da capa, destinadas a publicidade, faz-se aberta propaganda dos dois livros “proibidos” acima referidos e anuncia-se para breve a edição em França da versão francesa desses mesmos livros.

Parece-me portanto que estes Serviços não devem tolerar essa propaganda. As duas soluções que me ocorrem para obviar este caso, uma é autorizar a sua circulação com a condição de serem suprimidas as bandas marginais da capa que inserem a propaganda dos livros proibidos, a outra é proibir o livro fazendo constar ao Grémio Nacional dos Editores e Livreiros que o mesmo será autorizado desde que lhe seja substituída a capa. Como a primeira solução tem muito de contingente parece-me melhor a segunda. (Azevedo, 1997: 116/117)12

A segunda solução sugerida pelo censor foi a que foi posta em prática, tendo o livro sido proibido no dia 27 de Agosto de 1966 (Azevedo, 1997, p. 117). A obra, portanto, que não apresentava, per se, grande perigo ou ameaça ao regime, acabou por ser apagada: a primeira e única edição foi proibida e o livro pode apenas ser encontrado em lugares como a Biblioteca Nacional de Portugal ou em websites de revenda.

Conclusões

Na criação ficcional de Nita Clímaco, o tema da emigração de portugueses para França é central, estando presente em todos os seus romances. Assim, é evidente que as obras trazem elementos históricos em si, que são obras que falam para os leitores coevos, que a ficção é usada para apontar a História: afinal, centram-se em condições específicas de uma altura específica, contrastando a ideia de um Portugal empobrecido e iminentemente rural com a de uma França moderna (embora Clímaco acabe por associar essa modernidade a uma pretensa devassidão, que acaba por estragar as vidas das personagens).

A abordagem ao exílio permite, no entanto, que se pense e questione a expatriação. No que Nita Clímaco, emigrada em França, nos apresenta, podemos vislumbrar um profundo pessimismo inerente à emigração: afinal, ou acontece o que é, nas narrativas, encarado como depravação moral, prejudicial para o próprio bem-estar psíquico e emocional das personagens, ou a desgraça económica e o mergulho em péssimas condições materiais de vida.

Pode dizer-se que a matiz crítica das obras é difusa. É certo que a formulação literária inclui a intenção de denúncia. Afinal, há uma crítica clara à realidade social e cultural de Portugal, notada pela forma como a autora a menoriza em relação a França: Portugal é constantemente apresentado como tacanho e provinciano, as personagens que de lá partem para França, regra geral, ficam fascinadas com o progresso que lá vêem e a condição de alteridade coloca no centro da narrativa o que é ser português, o que distingue esta nação das outras. Assim, após a partida, as personagens parecem perder as suas identidades individuais e as suas condições de vida, por motivos diversos, pioram de forma considerável.

Nas obras, o pacto de veracidade pode ser o do pano de fundo, não o da acção principal, e pode ser esse o ponto de questionamento. Afinal, é no pano de fundo que tenta mostrar-se os abismos sociais, tanto materiais como morais, e é em prol dele que, em A salto, a autora pontua o texto com notas atestatórias da veracidade do que é apresentado no decorrer da narrativa. Assim, o pano de fundo da obra global de Nita Clímaco será a relação de alteridade que se estabelece entre os emigrantes portugueses em França e o meio que os recebe. Neste globo, encontram-se situações diversas (a descoberta da sexualidade, uma rede de prostituição, o desencanto com o mercado laboral francês) e não se crê que o objectivo, ou mesmo a posição da autora, fosse muito claro. Apesar de a autora ter sido tão perseguida pela PIDE, não pode dizer-se que grande parte dos seus livros não pudesse ser-lhe abonatória. Tal, per se, não será de condenar nem significará que a autora estava presa aos grilhões da ditadura. Talvez possa apenas dizer-se que não se deixou enlaçar nos grilhões da instrumentalização da arte nem usou os seus romances para marcar uma posição política inequívoca.

Para saber mais sobre as obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE, clique aqui.

1 Azevedo, Cândido de. Mutiladas e Proibidas (1997). Para a história da censura literária em Portugal nos tempos do Estado Novo. Porto: Caminho.

2Como no que se refere ao relatório sobre Falsos Preconceitos, não conseguimos aqui apurar a fonte usada por Cândido de Azevedo.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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Resto dossier

As obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE

Nas últimas semanas, estivemos a olhar para a história da censura literária em Portugal, focando-nos nas obras das autoras que a PIDE censurou. Neste dossier, podemos ver análises de todas essas obras - um total de 21, escritas por 9 autoras. Dossier organizado por Ana Bárbara Pedrosa.

Escritoras portuguesas e Estado Novo: 9 autoras e 21 obras censuradas

No decorrer do Estado Novo, foram censuradas 21 obras de 9 autoras portuguesas. Salta à vista o número reduzido e a variedade de percursos destas obras, que têm ainda valores literários muito diferentes. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Três Marias: a censura de “Novas Cartas Portuguesas”

"Algumas das passagens são francamente chocantes por imorais (...) Sou do parecer que se proíba a circulação no País do livro em referencia, enviando-se o mesmo à Polícia Judiciária para efeitos de instrução do processo-crime." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “Minha Senhora de Mim” (1971)

"Minha Senhora de Mim (1971) compõe-se de 59 poemas. Neles, a autora usa a forma poética das cantigas de amigo medievais, usando a literatura canónica – e, portanto, a tradição literária – para desafiar um status quo." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria Teresa Horta: a censura de “O delator”

"É uma peça nitidamente marxista, sem ponta por onde se lhe pegue: se fizesse cortes seria da primeira à última linha. Por isso reprovo.", pode ler-se num parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de "Quem move as árvores" (1970)

"As relações dialógicas são constantes na obra de Fiama: se em O Testamento vimos que vida e peça se confundem, dialogando, em Quem move as árvores há um paralelismo temporal com alcance no passado, entre a época da monarquia e o Estado Novo. Em nenhum dos casos o povo escolhe, o poder é imposto." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de três peças num volume

"Auto da Família, consiste numa versão ou visão desprimorosa e desrespeitosa do Natal de Cristo, apresentando Maria e José como dois criminosos que, depois de terem morto, para os comerem, a vaca e a mula do presépio, abandonam o filho à porta do lavrador, proprietário da estrebaria onde os deixara alojar." Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Museu”

O tom absurdista da peça dificulta a sua análise, na medida em que, para além de não haver grandes relações dialógicas até nos próprios diálogos, se torna difícil descortinar as intenções da autora. No entanto, são mostrados dois grupos numa relação conflitual, em que um está submisso ao outro, recebendo acriticamente as suas instruções, viabilizando acontecimentos que servem os interesses do segundo. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fiama Hasse Pais Brandão: a censura de “O Testamento”

"A peça de Pais Brandão sugere que não pode haver espectadores na vida, que toda a gente tem de intervir em tudo o que à vida pública diz respeito, e é por isso que peça e vida se confundem, mostrando a autora que em tudo há relações dialógicas". Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O Encoberto”

"Trata-se do desenvolvimento em estilo de 'paródia' de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de 'Natália Correia', com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar", pode ler-se no relatório da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A Pécora”

Nesta peça, Natália Correia denunciou os poderes da Igreja e a relação estabelecida entre esta e o Estado, assim como o comércio religioso. Ao mesmo tempo, o povo tem consciência do seu poder colectivo. O Estado Novo não gostou. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “O vinho e a lira”

"Como a função destes Serviços não é de índole literária não cabe aqui a apreciação do valor literário desta obra que me parece nulo. Todavia há que assinalar as suas intenções e expressões que considero muito más.", pode ler-se no parecer da PIDE. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de "O Homúnculo"

O Homúnculo contaria com a rápida censura, sendo de imediato apreendida, e, pasme-se, com a admiração de Salazar. No cenário, a autora denuncia ainda os pactos implícitos e explícitos entre os vários poderes que estruturavam a ditadura salazarista. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “O adolescente”

As orelhas da capa do livro faziam propaganda a dois livros proibidos. Assim, a PIDE proibiu também a circulação deste romance. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Natália Correia: a censura de “A comunicação”

Este é um texto em que a autora apresenta uma ambiguidade entre poesia e teatro. A PIDE considerou que “o estilo irreverente e por vezes pornográfico da linguagem em frequentes passagens de algumas das quadras” obrigava à “reprovação da peça”, já que a sua “Indispensável sequência” impossibilitava “quaisquer cortes de saneamento”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Pigalle”

Como em "Falsos Preconceitos", o romance parece inicialmente querer contrastar uma moral retrógrada portuguesa com uma França livre e moderna. Acaba por mostrar uma França imoral, perversa, desta vez palco de negócios de tráfico e redes de prostituição. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Nita Clímaco: a proibição de “Falsos preconceitos”

A PIDE considerou que “dada a imoralidade que o livro revela”, “não é de molde a ser autorizada a sua circulação no País”, e isto apesar de a obra ser de tal forma reaccionária que, afinal, se colocaria ao serviço do que o regime apregoava. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Maria da Glória: a proibição de “A Magrizela”

Nesta obra, não apenas há muitas situações sexuais como há muitas variantes que hão-de ter sido ainda mais problemáticas para os censores: sexualidade infantil, necrofilia (praticada por crianças), atracção sexual de uma criança pelo pai adoptivo, relações eróticas homossexuais, relações eróticas grupais, várias relações extra-conjugais. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Vinte anos de manicómio!”

O romance não foi censurado assim que foi publicado. É que, "como era feito por uma escritora”, os censores da PIDE nunca supuseram “que esta tivesse escrito com tanta realidade”.  O livro tem “um realismo tão cru e descrições de tal basévia e lubricidade que custa a crer terem sido escritas por uma mulher”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Carmen de Figueiredo: a proibição de “Famintos”

A PIDE censurou a obra “Famintos”, de Carmen de Figueiredo, considerando que esta se “refere a uma vida familiar romanceada, com descrição de acidentes trágicos, revelando caracteres mórbidos, aberrações sexuais e outras taras”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: ephemerajpp.com

Maria Archer: a proibição de "Casa sem pão"

"Casa sem pão" (1957) foi o segundo livro de Maria Archer proibido pela PIDE e deu azo não apenas ao processo mais longo sobre qualquer uma das suas obras, mas também ao processo mais longo que tratamos neste dossier. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Fotografia: cvc.instituto-camoes.pt

Maria Archer: a proibição de "Ida e volta duma caixa de cigarros"

A PIDE censurou a obra "Ida e volta duma caixa de cigarros", de Maria Archer, considerando que este “não atingiu o alcance moral” e que a autora “compraz-se na volúpia do pormenor sensual”. Por Ana Bárbara Pedrosa.