You are here

Michael Burawoy: “Se Trump tentar sabotar a eleição, teremos uma enorme crise institucional”

A poucos dias das eleições norte-americanas, entrevistámos Michael Burawoy, uma das maiores referências da sociologia marxista mundial. Entrevista de Miguel Heleno.
Michael Burawoy

Michael Burawoy vive e leciona nos Estados Unidos nos últimos quarenta anos. É autor de inúmeras obras sobre o mundo laboral na indústria em vários países, assumindo o papel de observador-participante. A sua tese transformada em livro -  "Manufacturing Consent: Changes in the Labor Process under Monopoly Capitalism" - um estudo etnográfico dos trabalhadores fabris em Chicago, tornou-se uma obra de referência no início dos anos 1980. Burawoy presidiu à Associação Americana de Sociologia entre 2003 e 2004 e e também à Associação Internacional de Sociologia entre 2010 e 2014.


Na sua opinião quais serão os aspetos chave que caracterizam esta “era de Trump” dos últimos quatro anos?

A era de Trump? Creio que temos de refletir sobre o que é o trumpismo, em vez de uma “era de Trump”. Estamos confrontados com um fenómeno muito americano. A atração que ele gera, quase como se fosse um culto do líder, é assim que eu vejo Trump. Tudo o que ele diz é aceite pelos seus seguidores. É um fenómeno muito individualista e que não pode ser reduzido ao fanatismo de direita, às milícias, aos supremacistas brancos. É uma fatia importante da população que apoia Trump. A esquerda e os liberais são muito críticos da irracionalidade de Trump e passam o tempo todo a dizer que ele é um narcisista, um irresponsável. Mas a questão interessante é perceber porque é que ele tem muitos apoiantes e como os atrai.

Alguns de nós, à esquerda, acreditávamos que a democracia funcionava através das vantagens económicas que concedia, a ideia da democracia capitalista leva as pessoas a lutar por vantagens económicas. Esquecemo-nos que não são só as vantagens económicas que a democracia cria, mas também uma espécie de vantagens de identidade e dignidade. É isso que Trump faz, ele apela ao individualismo de uma parte tão grande da população americana. A ideia de que podemos ter sucesso se tentarmos, de que a América é ótima e nós também somos ótimos. Julgo que tocou em algo muito profundo. Não creio que possa ser reduzido a temas de marginalização económica. Já aconteceu antes na história dos EUA e provavelmente acontecerá de novo. Por isso é que muitos de nós estamos preocupados com a possibilidade de ele ser reeleito, apesar de as sondagens indicarem o contrário.

Como analisa este tema do identitarismo no trumpismo em comparação com outros movimentos autoritários e de extrema direita que chegaram ao poder, como Bolsonaro no Brasil, as Filipinas, Hungria?

Parece que Bolsonaro é ainda mais irracional que o Trump, mas também ele apelou a políticas de identidade, como Duterte nas Filipinas. É também o caso de Orbán, mas este teve mais sucesso na transição para o autoritarismo, mudando as leis e a Constituição. Aqui nos EUA temos uma pessoa que é um ditador mas não estamos numa ditadura. Fiquei muito impressionado com a resistência institucional às suas jogadas. Aquilo que ele chama o “deep state”. Se ele continuar no poder, essas defesas contra a erosão da democracia podem ser enfraquecidas. Ele já está a encher o sistema judicial de pessoas da sua confiança, não só o Supremo mas também os tribunais inferiores…

O que significa isso para as instituições norte-americanas? Mesmo que Trump perca as eleições será necessário “limpar” as instituições. Qual o impacto destes quatro anos na estrutura institucional?

Pois, ele pôs pessoas à frente de agências governamentais que se opunham à própria missão dessas agências. As do Ambiente ou do Trabalho são os casos mais evidentes. O Estado foi restruturado lentamente e não é a primeira vez que acontece. No tempo de Reagan foi o mesmo, com uma grande ofensiva contra a classe trabalhadora. Foi aí que começou. O movimento laboral teve os seus pontos altos mas nunca recuperou. Há greves, mas são poucas e muito espaçadas. Isto não são os anos 1930, ou pelo menos ainda não são os anos 1930. E não falámos das múltiplas crises que se abateram sobre os EUA: a crise ambiental, a económica, a pandémica, a de justiça racial… O que é mais extraordinário é esta convergência de todas essas crises.

Diz que isto não se parece com os anos 1930, mas temos visto um aumento da participação dos trabalhadores em lutas e greves, a esquerda apresenta-se com uma cara nova. Tudo isto aconteceu nos últimos anos. Será isso uma resistência a Trump ou um seguimento do ciclo anterior, da crise económica de 2008?

Isso teve muito a ver com o Bernie Sanders e os Democratic Socialists of America (DSA) que cresceram bastante e isso é extraordinário. Está cheio de gente jovem, os sub-35 e também gente com mais de 65 anos, mas poucos entre essas faixas etárias. Sim, há essa polarização. sempre pensámos em termos da convergência das políticas dos democratas, mas agora surge essa polarização. Temos esse movimento da esquerda do Partido Democrata, que são os apoiantes de Bernie. E temos de olhar para isso no quadro da crise em que o capitalismo mergulhou e que levanta essas formulações mais extremas. Até considero esse apoio a Bernie e à ideia do socialismo tão surpreendente como o trumpismo, tendo em conta a história dos EUA.

Mas esse autoritarismo trumpista será a nova cara do capitalismo, a única forma de o capitalismo encontrar uma saída?

Não me parece que se consiga encontrar uma saída para estas crises. Trump não traz quaisquer soluções nesse sentido. Tem uma base política, mas não tem soluções para reformular o capitalismo. Não vejo isso. A única forma de reformular o capitalismo é através de um projeto socialista, não encontro outra forma. Como diria a nossa antepassada Rosa Luxemburgo, é o socialismo ou a barbárie. O que é tão extraordinário nesta conjuntura é que não podemos pensar no futuro. Podemos pensá-lo, mas não politizá-lo, nesta altura não existem políticas para o futuro. Bernie apresentou algumas, mas como o capitalismo limita de tal forma os nossos horizontes e as crises aprofundam essa preocupação com o imediato, acabamos por não conseguir pensar além do imediato. Pensar que tipo de políticas são necessárias para enfrentar as alterações climáticas… E Trump não traz nenhuma solução desse tipo. Aliás, nem sequer reconhece que esses problemas existem.

O que está em jogo nesta eleição? Não temos Trump contra um projeto socialista, mas sim Trump contra um projeto da elite dos Democratas. O que está então em jogo?

Bem, uma espécie de política na lógica liberal, como no tempo de Obama, o que também levanta problemas. Parecia-nos sensata a muitos de nós, muitos esperávamos coisas diferentes de Obama, mas mal chegou ao poder resgatou os bancos. Deixou as pessoas continuarem a ficar sem casa, ao contrário do que aconteceu no New Deal, que serviu para proteger o direito das pessoas à sua habitação. Devia ter tido uma postura mais agressiva com os bancos. Podia ter nacionalizado os bancos! Mas fez o contrário. O que está em jogo é um regresso a essa espécie de políticas liberais, que não respondem aos problemas fundamentais que o capitalismo enfrenta. É cada vez mais evidente que estes problemas são globais, sejam a pandemia ou as alterações climáticas. É verdade que Obama viu a importância das alterações climáticas, mas as suas políticas principais dependiam do capitalismo tal como existia, com o domínio do capital financeiro. É o mesmo que se passa agora. É incrível como Wall Street não foi pelo cano abaixo! Claro que está a ser apoiada pelo poder federal, mas também pelas empresas de sucesso: Google, Facebook, Amazon. Essa é também uma mudança que está a ocorrer mesmo à frente do nosso nariz.

Falemos destes gigantes do capitalismo, essas empresas como a Amazon e outras tecnológicas que encontraram forma de reforçar a sua posição dominante com a pandemia. E vemos também um aumento da economia informal. Qual será o impacto disto na organização dos trabalhadores, em especial numa altura de grandes divisões no país?

Há algumas greves em plataformas como a Instacart ou Uber. Há a proposta 22, aí onde estás, na Califórnia, promovida pela Uber, Instacart, Doordash, essas plataformas que estão por detrás da proposta para enfraquecer a lei aprovada. que declarava os seus trabalhadores como dependentes em vez de trabalhadores independentes. Há uma grande divisão entre os trabalhadores. Muitos dependem de guiar os carros da Uber ou da Lyft. É o seu ganha-pão e fazem-no a tempo inteiro. Esses querem provavelmente ser considerados empregados, com as garantias mínimas que isso traz. No outro lado estão os que trabalham a tempo parcial para ganhar algum dinheiro extra. Esses estão satisfeitos com as condições atuais, podem trabalhar quando querem e quanto querem, essa liberdade é importante para eles. Mas é difícil distinguir de que lado estamos, independentemente da opinião política de cada um. Creio que ambos refletem a degradação da classe trabalhadora, que tem sido sistematicamente enfraquecida.

Os dilemas desta economia informal têm de ser vistos num plano mais geral, o da perda de poder da classe trabalhadora neste país nos últimos 50 anos. É disso que se estão a aproveitar a Uber, a Lyft e outras empresas, em especial nesta crise em que toda a gente desespera para ter um emprego. Há um contexto mais geral da reformulação do capitalismo e de uma classe trabalhadora mais enfraquecida.

Uma última questão: quais as hipóteses de haver uma crise institucional caso Trump perca as eleições e desrespeite o estado de direito?

Essa pode ser a grande questão após a eleição. É isso que preocupa muitos de nós, que ele perca. mas não por uma grande margem, e possa sabotar a própria eleição. Isso pode tornar-se uma enorme crise institucional. Se me perguntam o quão provável isto será, eu respondo que é muito provável. Que forma pode assumir? Não sei, nem consigo imaginar o que se vai passar.

Quando me perguntava o que está em jogo na eleição, eu diria que é o que virá depois. Temo que Biden possa vencer no voto popular nas urnas, mas depois vai haver tanta confusão, que eles já estão a preparar há dois ou três anos, ou mesmo há quatro. Há tantas formas que eles podem usar para contestar o resultado… E já há muita supressão de votos, coisas extraordinárias como limitar o número de mesas de voto. E está mesmo na lei: cada círculo no Ohio deve ter uma mesa de voto, não importa se tem 500 ou 5.000 eleitores. E as pessoas fazem fila, o que é interessante, essa resiliência das pessoas acerca disto, como se quisessem proteger o princípio de “uma pessoa, um voto”. Mas essa é a questão para um milhão de dólares, o que vai acontecer depois da eleição… E pode durar muito tempo. Depois temos o Supremo Tribunal. Aí, meu Deus, se o Supremo tiver voto na matéria, como teve no passado… Mais do que uma crise institucional, podemos vir a assistir a uma crise orgânica em grande escala por entre a população. As instituições podem declarar nulas as eleições…

Já vimos nos últimos meses, nos protestos de maio, junho, julho, que é possível que a população saia à rua para contestar. Não falámos disso, mas essa foi a parte mais animadora do que aconteceu desde março. Essa onda extraordinária e interracial nas ruas contra a brutalidade policial. Isso pode dar-nos uma pista sobre o que pode acontecer se tentarem sabotar a eleição.

385035389304807

(...)

Resto dossier

EUA: presidenciais de alta tensão num país em crise

Os EUA vão a votos num cenário de crise generalizada. As presidenciais acontecem após as mobilizações massivas contra a violência policial racista e com os números da covid-19 a baterem recordes mundiais. O voto não presencial será um campo de batalha. Trump ameaça não reconhecer a derrota. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Cartaz a exigir justiça. Foto do Facebook do DSA de Nova Iorque.

O que significará o resultado das presidenciais para a esquerda americana?

Para Micah Uetricht a esquerda norte-americana renasceu nos últimos quatro anos. A sua principal tarefa é ir concorrendo a várias eleições e incorporar-se nos sindicatos. O desafio é “construir um movimento que possa ganhar o tipo de políticas substantivas de esquerda que nenhum dos partidos tem para oferecer”.

Projeção de protesto num edifício do governo na Virgínia. Foto de Backbone Campaign/Flickr.

EUA: nas vésperas das eleições, incertezas, tensões crescentes, fraqueza da esquerda

Trump foi incapaz de gerir a covid, milhões de americanos vivem da assistência alimentar, muitos à beira do despejo. Crise climática e Black Lives Matter não podem ser esquecidos num país em que a esquerda continua “muito pequena para ter uma influência significativa”. Artigo de Dan La Botz.

Bandeira americana numa vedação de arame farpado. Foto de Glen Zazove/Flickr.

Pandemia, polarização e resistência nos Estados Unidos

Nesta entrevista, Ashley Smith fala sobre a gestão trumpista da pandemia e a situação económica, o estado dos movimentos sociais, a campanha de Sanders e a posição da esquerda sobre Biden.

Michael Burawoy

Michael Burawoy: “Se Trump tentar sabotar a eleição, teremos uma enorme crise institucional”

A poucos dias das eleições norte-americanas, entrevistámos Michael Burawoy, uma das maiores referências da sociologia marxista mundial. Entrevista de Miguel Heleno.

Joe Biden foto de Phil Roeder/Flickr.

Joe Biden é um desastre que está à espera de acontecer

Assim que Biden anunciou a sua candidatura, Branko Marcetic descreveu o seu historial. Desde a sua oposição às medidas de transporte escolar que permitiram a integração racial, às políticas de encarceração de massa, às posições económicas neoliberais, entre outras que o aproximam dos republicanos.

Marcha das Mulheres 2020. Foto de Mobilus In Mobili/Flickr.

EUA: a importância particular deste ato eleitoral

O balanço de uma presidência reacionária e narcisista e as perspetivas de resultado para as eleições presidenciais, para o Senado e Câmara dos Representantes são analisados neste artigo por Jorge Martins.

Pormenor de um cartaz contra Trump. Foto de Thomas Cizauskas/Flickr.

Cenários pós-eleitorais: pode Trump agarrar-se ao poder?

Enquanto as sondagens mostram uma clara possibilidade de derrota, o presidente norte-americano dá todos os sinais de que não a aceitará. A especialista Anne E. Deysine traça os vários cenários do imbróglio político-jurídico em que se podem tornar estas eleições.

Memorial às vítimas da covid-19 em Washington. Foto de Phil Roeder/Flickr.

Covid USA

Enquanto a Covid-19 se revela uma tragédia sem paralelo no país, Trump continua a sua farsa de muito mau gosto. A sua gestão da pandemia é uma história de mentiras, insensibilidade e incompetência. Por Carlos Carujo.

Alicia Garza

“Não sou a primeira nem serei a última a aparecer numa lista de um supremacista branco”

Alicia Garza, co-fundadora do Black Lives Matter, falou com a jornalista Amy Goodman sobre o papel das milícias da extrema-direita nos distúrbios durante os protestos contra a violência policial racista, e do conforto que lhes é dado pelo atual presidente dos EUA.

Chapéu com o slogan eleitoral de Trump. Foto de Marco Verch Professional Photographer/Flickr.

“Muitos americanos brancos gostam de ouvir dizer que são espoliados”

Nesta entrevista, a historiadora Sylvie Laurent olha para a popularidade de Trump como enraizada na história profunda dos EUA e no “medo de despossessão” e no sentimento de ressentimento da classe média branca que este soube explorar.

Memphis, 1968. A Guarda Nacional bloqueia uma rua enquanto os manifestantes negros trazem um cartaz a dizer "eu sou um homem". Foto de bswise/Flickr.

Os primórdios do racismo na política norte-americana

A revolução americana foi um dos processos fundadores do que se tem chamado a democracia liberal mas nem todos os seres humanos eram iguais no novo país. Uma parte das pessoas foram reduzidas a mercadoria. Francisco Louçã mostra-nos a história deste racismo constitutivo dos EUA.

Mural contra a manipulação de fronteiras eleitorais. Foto de chucka_nc/Flickr.

Eleições nos EUA: sufrágio verdadeiramente universal?

Em 2013, o Supremo Tribunal de maioria conservadora revoga o Voting Rights Act que impedia os estados de modificar regras eleitorais sem acordo federal. Regressa a “supressão de votos” que atinge desigualmente comunidades racializadas e pobres. A ela se junta a manipulação das fronteiras eleitorais. Por Michel Gevers.

Pintura numa fábrica abandonada. Thomas Hawk/Flickr.

Os Estados Unidos estão a enfrentar uma crise de democracia?

A Constituição dos “pais fundadores” propunha um sistema que institucionalizava o papel dos ricos para controlar as paixões da "ralé". Lance Selfa mostra como esse medo do povo originou várias caraterísticas do sistema político dos EUA e como as lutas sociais expandiram direitos.

Os dois principais partidos dos EUA estão dependentes do dinheiro dos grandes capitalistas do seu país. Ilustração de  Butter My Parsnips/Flickr.

EUA: Recorde de gastos na campanha, sobretudo doações de super-ricos

11 mil milhões de dólares terão sido gastos nas eleições norte-americanas de 2020. Mas o problema não é apenas a quantidade de dinheiro. É de onde ele vem, defende Richard Briffault.

Constituição dos EUA. Foto Pikrepo.

O essencial sobre o sistema político dos EUA

O Federalismo, a separação de poderes, o bicameralismo, o presidencialismo, o colégio eleitoral, o papel do poder judicial e do Supremo Tribunal e os “podres” do sistema, neste artigo, Jorge Martins, descodifica a principais peças da política norte-americana.