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Manifestação em Marraquexe pela justiça climática

Manifestantes dizem que o futuro do clima será decidido pelos povos e não pelas Nações Unidas. Artigo de João Camargo, em Marraquexe.
Marcha pela Justiça Climática em Marraquexe, 13 de novembro de 2016
Foto João Camargo.

Milhares saíram à rua em Marraquexe no passado domingo, na Marcha pela Justiça Climática. Perante todas as adversidades, os manifestantes reafirmam que terá de ser no terreno, nas contestações locais a cada projeto de exploração de gás, de petróleo, de gás, fracking, offshore, construção de gasodutos e oleodutos, obstrução de portos de gás natural liquefeito (LNG), a salvação do clima e da Humanidade.

Com poucas ilusões do que deverá sair das negociações em Marrocos perante a quase certa de decisão do novo presidente dos Estados Unidos de abandonar o Acordo de Paris, a aguerrida manifestação foi encabeçada pelos povos indígenas, com particular destaque para as populações nativas dos Estados Unidos que neste momento estão em confronto com as autoridades em Standing Rock, no Dakota do Norte, contra a construção de um oleoduto, e para as comunidades indígenas que no Paraná (Brasil) combatem a tentativa de exploração por fracking. Os Amazigh de Marrocos contestam as minas de prata de Imider e enquanto o governo marroquino propaga a sua mensagem de campeão climático, autoriza a extensão de produção para centrais termoelétricas a carvão por mais 20 anos, assim como a construção de uma nova central a carvão em Safi, a 150 km de Marrakexe.

Segundo a Coligação pela Justiça Climática, foram mais de 5.000 os presentes na marcha
Segundo a Coligação pela Justiça Climática, foram mais de 5.000 os presentes na marcha

Segundo a Coligação pela Justiça Climática, foram mais de 5.000 os presentes, com representantes de mais de uma centena de países, exigindo justiça climática e justiça social. Num país com pouca tradição de marchas (excetuando naturalmente o movimento 20 de Fevereiro que em 2011 ocupou as ruas) e preferência por sit-ins e ocupações, a manifestação foi considerada um sucesso, contrastando com a própria Cimeira das Partes, a COP-22, que se anuncia já como de difícil desfecho relevante. Embora a decisão só possa ser tomada em janeiro, Donald Trump anunciou a possibilidade de simplesmente abandonar a Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, o que o tornaria o único país do mundo a não participar neste órgão. Os Estados Unidos, a par do Sudão e do Afeganistão, já haviam sido os únicos que não ratificaram o Protocolo de Quioto. Aparentemente é a China que tomará a dianteira no processo climático, sendo que os próximos dias dirão exatamente o que é que isso significará.

Desde o Estádio El Harti até à praça de Bab Doukala, a manifestação atraiu a atenção da população que se juntou à marcha. Para Nicolas Haeringer, da 350.org, “esta marcha mostra que o verdadeiro poder, no que diz respeito à acção climática, não pertence às Nações Unidas nem a Donald Trump, mas ao povo. Temos de aumentar a intensidade da nossa contestação para conseguir vencer a crise climática.”. Noura Elouardi, activista da Coligação Marroquina pela Justiça Climática, destacou a importância da diversidade dos participantes da manifestação, com diversas posições sobre o próprio processo da COP, que permitiu fazer convergência de várias dinâmicas, mas no que diz respeito a expectativas sobre o acordo, diz “Nenhuma. Mas não só por causa de Trump. A justiça climática será obtida pelas pessoas ou não será”.

Desde o Estádio El Harti até à praça de Bab Doukala, a manifestação atraiu a atenção da população que se juntou à marcha
Desde o Estádio El Harti até à praça de Bab Doukala, a manifestação atraiu a atenção da população que se juntou à marcha

Entretanto foi lançada na 2ª feira a campanha #ZeroFossil, que defende que para se travar o caos climático, o mais conhecido como "runaway climate change", é necessário travar todos os novos projetos fósseis. Será mais uma ferramenta de pressão para os participantes nas negociações e para os milhares de ativistas que por todo o mundo se defrontam com projetos de prospeção e exploração de gás, petróleo e carvão, assim como de gigantescos oleodutos e gasodutos que ameaçam cortar continentes inteiros.

Mas com mais quatro dias de negociação pela frente, um acordo que avance em relação a Paris parece cada vez mais uma miragem na cidade vermelha.

Artigo de João Camargo para esquerda.net

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