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A Internacional Nacionalista

A oposição à União Europeia une os partidos europeus mais à direita. Por detrás da retórica inflamada encontra-se uma clara declaração de guerra. Por Tobias Müller.
Gerolf Annemans (Vlaams Belang), Ludovic de Danne (Frente Nacional), Geert Wilders (PVV), Heinz-Christian Strache (FPÖ), Viktor Zoebarev, Matteo Salvini (Liga do Norte), Lorenzo Fontana (Liga do Norte).

Geert Wilders chamou e todos apareceram: os Democratas Suecos, a Liga do Norte italiana, o Partido pela Liberdade austríaco (FPÖ), o partido independentista de Flandres Vlaams Belang e a Frente Nacional francesa (FN). Nos últimos meses, o populista de direita holandês, encontrou-se com os líderes dos respetivos partidos para discutir a possibilidade de uma campanha conjunta para as eleições europeias de maio de 2014. “Um punho contra Bruxelas” é o que Wilders lhe chama, isso ou: “trabalhar em conjunto para derrubar os europeístas”.

E não se fica pela campanha, já existem anúncios contínuos: o partido de Wilders pela Liberdade (PVV) pretende a saída da UE e da zona euro. E a líder da Front National, Marine Le Pen, profecia uma queda da UE à moda soviética. Aparentemente, só se pretende derrubar a UE com forças unidas. Esse objetivo foi formulado por Wilders da seguinte forma: “ser outra vez Senhor das próprias terras, do próprio dinheiro e das próprias fronteiras".

Um bloco de direita que combate a União odiada entre eles: é esta a sua reivindicação. Um anúncio de luta sério e preocupante, pela primeira vez ambos, o PPV e a FN mantêm-se constantemente no topo das sondagens. E o FPÖ vai provavelmente ser o mais bem-sucedido nas próximas eleições austríacas. No entanto, até agora, no Parlamento Europeu não foi criado nenhum grupo parlamentar entre os deputados, apenas um partido solto chamado “Aliança Europeia pela Liberdade” com uma mão cheia de participantes. Potencial desperdiçado, segunda a lógica dos eurofóbicos.

Marine Le Pen, que pretende ser Presidente de França, fala da futura união de “todos os partidos patriotas”. Mas, como é que será que se entende o nacionalismo francês com o holandês? E o que é que podem significar os separatistas padanos da Liga do Norte e os inimigos da imigração Suecos Democratas um para o outro? Não será o internacionalismo nacionalista por si uma contradição?

A massa que agrega toda esta força é a sua oposição radical à União Europeia. Financiamentos e fundos de assistência financeira são um desperdício de dinheiro, segundo Heinz-Christian Strache (FPÖ) e Filip Dewinter (Vlaams Belang), e, uma transferência obrigatória dos trabalhadores árduos do norte para os trabalhadores preguiçosos da Europa do sul. Além disso, Bruxelas, enquanto elite supranacional estrangeira, com a persistência da crise, assumiu facilmente um rosto inimigo.

Sem percursores ideológicos esta direita não avançaria. Desde o fim do século passado a nova direita assumia o conceito de uma “Europa de Pátrias”. E os grupos ligados às identidades regionais (Vlaams Belang, Lega Nord, Alsace d'Abord), sob o lema “Europa das Regiões”, mantinham contactos próximos – por solidariedade numa suposta batalha comum. Que o mote destes partidos seja “o próprio povo primeiro”, não é problema para os nacionalistas.

Porém, essencial para a grande coligação de direita é um outro fator: a adaptação dos extremistas de direita a posições da direita conservadora burguesa. O Vlaams Belang, a Front National e também a FPÖ já procuram há vários anos distanciar-se das suas raízes racistas, antissemitas e populistas. O próprio ícone do Vlaams Belang, Filip Dewinter, que na sua tomada de posse no Parlamento Europeu optou por fazer o cumprimento de Hitler, rejeita agora os nazis. Não está claro o que estará por detrás: maturidade, convicção ou apenas uma estratégia cor-de-rosa?

O elo unificador que permitiu aos velhos populistas ancorar na nova e ascendente direita populista, no caso do PVV ou dos Democratas Suecos foi certamente o debate sobre o islamismo. Nos últimos anos até os brutais partidos anti-imigração como o Vlaams Belang e o FPÖ adaptaram-se à nova retórica: desde então, os estrangeiros já não estão no centro das atenções, mas sim os muçulmanos. Desta forma, arranjaram maneira de reunir simpatizantes de movimentos críticos ao Islão, à religião em si, mas também extremistas de direita e conservadores.

Hoje em dia, para além dos muçulmanos, a ideia da UE como inimiga vem sendo reforçada, na Holanda já se está bem ciente desta alteração de foco de Wilders. Agora, empenha-se para cerrar fileiras à direita. Wilders e Le Pen irão encontrar-se de novo em meados de novembro em Den Haag. No programa, segundo o líder do PVV, está o “restabelecimento da soberania nacional” e a “excessiva imigração em massa”.

Talvez, se possa ter a esperança que o projeto falhe novamente, repetindo-se os desentendimentos do Identidade, Tradição e Soberania (ITS), um grupo parlamentar nacionalista de pouca duração no Parlamento Europeu no ano de 2007. No entanto, deve-se temer o facto de um fenómeno nacionalista espalhado pela Europa também se tenha estendido a Bruxelas, que partidos convencionais orientem os seus objetivos políticos para a direita, a fim de tentar travar o ascenso da direita populista.

Artigo publicado na revista suíça Die Wochenzeitung.

Tradução de esquerda.net

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