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Viva! A crise já passou!

Michael R. Kraetke, professor de economiaCrise? Qual crise? A crise já passou, o pior ficou para trás; estamos outra vez encaminhados. Esta é, desde há algumas semanas, a cantilena que os meios de comunicação reproduzem. E imediatamente antes das eleições federais alemãs, é uma mensagem reconfortante sobretudo para a coligação que está no governo.

Artigo de Michael R. Krätke

Vem ajudar ao seu pretendido êxito e proclama: não vos preocupeis, Merkel e o mercado já resolveram e agora estamos outra vez na direcção certa. Não precisamos mais de programas conjunturais; não é necessário falar mais dos custos das recentes acções de resgate; calem-se sobre a distribuição dos encargos da crise. Ou por acaso não estamos todos, ganhadores da crise e as suas vítimas, no mesmo barco? Este está novamente a flutuar; a palavra-chave, como sempre, não pode ser outra senão a do "crescimento"; e o crescimento oficialmente estimado em 0,3% tem de alargar-se a todo o mundo.

Um populista é aquele que diz às pessoas aquilo que elas querem ouvir. Um populista é quem desperta falsas esperanças e joga sem escrúpulos com o medo dos outros. Um louco perigoso é aquele que acredita nas próprias mentiras e toma por remédios medidas milagrosas. Um desmancha-prazeres é aquele que chama mentira à mentira. Um bom cidadão é aquele que não se deixa levar pela superioridade.

Como se mente com as estatísticas

Como se mente com as estatísticas: eis aqui um curso que, embora devesse ser obrigatório para os economistas, cientistas sociais e jornalistas, não se ensina nas universidades alemãs. Se não fosse por isto, poderia supor-se com a melhor das intenções que os nossos governantes e os seus porta-vozes mediáticos, mentem descaradamente. Os números que o gabinete federal alemão de estatística acabou de publicar, mostram o que qualquer perito já sabia ou podia saber: não se pode falar em absoluto do fim da crise. Por exemplo, o famoso 0,3% de crescimento do PIB alemão no segundo trimestre de 2009 resulta de uma comparação com o trimestre anterior: se, por outro lado, a comparação for feita com o trimestre do ano passado, o PIB continua a baixar. E não é pouco: digamos uns 7,1% (descontando preços) ou uns 5,9% (descontando factores conjunturais). No primeiro trimestre de 2009, o retrocesso em relação ao trimestre do ano anterior representou 6,4%. Assim, a queda dos valores entre Abril e Junho acelerou-se. Se a recuperação pretendida decorre desta maneira, no final do ano chegaremos aos 8% pelo menos. Antes, chamava-se a isto crescimento negativo sem sombra de ironia.

Outro fenómeno que merece atenção: em comparação com o trimestre do ano passado, o chamado "tecido produtivo" alemão sofreu, no segundo trimestre de 2009, uma nova queda de 23,6%. A tendência para a queda da indústria alemã não foi então consertada e apenas no Japão encontramos um paralelo tão perigoso.

Contudo, as encomendas crescem desde Maio e as exportações, inopinadamente, voltaram a crescer! Não é razão para se atirar foguetes: as encomendas e as exportações continuam 25% abaixo do nível do ano passado e a ligeiríssima retoma não significa de forma alguma um crescimento incipiente pois explica-se por uma razão simplicíssima: depois de vários meses de crise, na Alemanha, como em tantos outros países industriais, os stocks esgotaram-se e há que voltar a repô-los.

O Senhor Macreíque é parente do Senhor Tonteque e é uma loucura acreditar que, depois de alguma "turbulência", a crise passará. Como se vê, nem sequer se bateu no fundo: não se ultrapassou a erosão da indústria exportadora, nem a crise bancária, nem a crise imobiliária, já para nem mencionar a crise do crédito. Devemos ter presente que estamos perante a mais grave crise económica dos últimos 80 anos.

A primeira ronda

Além disso, a jogada do pretendido crescimento de 0,3% revela até que ponto é politicamente útil falar cada vez mais - ou continuar a fazê-lo - de recessão e não de crise: permite, com a ajuda de uma retórica estadista mais do que questionável, esquivar de qualquer análise da crise.

Pois se estivermos à porta do fim da recessão, nem de longe isso significaria o fim da crise. Em todas as grandes depressões da história do capitalismo moderno houve várias "recessões" e pequenas "fases de recuperação", e também houve algumas vezes um intervalo grande, e pequenas ou não tão pequenas ondas especulativas nos mercados financeiros. Como hoje. Vale a regra: depois da recessão, está-se às portas de outra recessão. Presumivelmente, deixámos para trás a primeira ronda da grande crise.

Tudo indica que a Alemanha entrará na próxima ronda da crise pouco depois das eleições de 27 de Setembro. Que fazem as empresas privadas perante tal diagnóstico? Justificadamente, o que fazem é poupar nos custos, racionalizar como nunca e movimentar-se para pelo menos aplacar a quebra. Tentam livrar-se de uma concorrência inclemente para se deslocarem umas às outras de um mercado que encolhe a olhos vistos. A onda de quebras e insolvências na indústria e no sector financeiro está à vista. Em 2010 poderemos desfrutar dela em pleno. Um terço dos títulos desvalorizados existentes em todo o mundo encontra-se depositado nos bancos alemães. A única notícia boa: a Alemanha não tem um "sector financeiro" tão extraordinariamente sobrevalorizado como a Grã-Bretanha ou a Suíça.

Em vez de perdê-los no "sector financeiro", a grande parte de postos de trabalho na Alemanha perder-se-ão na indústria. Se a economia encolhe entre 7 e 8%, significará que haverá entre 2,8 e 3 milhões de desempregados. Já hoje, 1,2 milhões trabalha menos tempo: uma "flexibilização"do mercado de trabalho generosamente alimentada pelo contribuinte. Sem solução à vista, a onde despedimentos em massa avançará imparavelmente: no Outono, depois das eleições. Em apenas duas semanas, o crescimento artificial induzido pelos incentivos públicos para substituir os carros velhos (Abwrazkprämie) voltará atrás. Então, começará a onda de quebras de vendas de automóveis e esta repercutir-se-á na indústria automóvel.

Bancos ‘bunkerizados'

Todas as indústrias de ponta no mercado mundial, em todas as nações, foram afectadas pela crise: o sector informático, a indústria automóvel, a fabricação de maquinaria e indústria do aço. Entre oito a doze empresas de alcance mundial estão envolvidas numa luta feroz. Os fiéis ao mercado, no governo e nos meios de comunicação, fantasiam sobre os primeiros indícios de recuperação nos EUA e na China virem ajudar as exportações alemãs. Confiam inteiramente no êxito dos programas públicos de conjuntura de terceiros, os quais, de facto, abandonaram tudo aquilo em que até agora o governo alemão confiou.

Esquece-se com ligeireza que os mais importantes mercados para a saída da economia exportadora alemã, antes como agora, encontram-se ao virar da esquina, isto é, nos países vizinhos europeus. São o destino de 60% das exportações. E são também os destinos de investimentos, particularmente, no sector industrial de um forma mais dramática que nunca: Grã-Bretanha, cerca de 25%. Tendo em conta que o néscio Tratado de Maastricht, elaborado pelos ideólogos do mercado, impede qualquer cooperação económica efectiva em crise, cabe apenas esperar por uma salvação oriunda do conjunto europeu.

Congratulam-se os governantes porque, graças a uns quantos truques estatísticos, conseguiram manter o número inferior a 4 milhões de desempregados. Contudo, Scholz (ministro federal do Trabalho) e seus assessores enganam-se se julgam que podem agir assim. A marca dos 5 milhões de desempregados será atingida facilmente, e até ultrapassada, em 2010/2011. O ataque aos salários, à protecção contra os despedimentos, aos restos sobreviventes do Estado social, manter-se-á. ‘Dont' waste a good crisis', não desperdicem uma boa crise, dizem os ingleses. As nossas falsas elites não perderão um minuto e aproveitarão a crise para acabar de desarticular um Estado social maltratado o qual conseguiram levar a uma situação de crise financeira duradoura. Uma onda crescente de subocupação e despedimentos massivos, assim como o código de poupança designado por Hartz IV1 propiciado pelo governo, encarregar-se-ão de que o consumo privado caia ainda mais rápida e amplamente do que noutros países.

Que resta, então? Segundo as pesquisas, é necessário voltar a aumentar a ‘confiança' dos agentes económicos e isso é também o que os índices publicados permitem pensar. Boas para os bolsistas, para os analistas, para os banqueiros e outros fabricantes da crise: as ajudas públicas foram parar, e por muito, a mãos erradas. Nunca tivemos uma crise de liquidez propriamente dita, nem a teremos. O dinheiro existe em abundância porque os bancos "bunkerizaram-se", prolongando o bloqueio do crédito consecutivamente. Temos já os primeiros indícios de crescimento do mercado de valores, as próximas bolhas especulativas serão inchadas com um zelo ardente. O que mudou é ínfimo. Os investidores, que durante anos se apresentaram como semideuses e verdadeiros génios, aprenderam que se ganha quando se retiram a tempo. Assim, largam tudo às três semanas para fazer lucros. Daqui surge a subida e queda dos mercados de valores e a alegria obscena dos bolsistas.

Michael Krätke, publicado em Setembro de 2009 por simpermiso.info  

Tradução de Sofia Gomes

1 "Hartz IV" é um programa de contra reforma no sentido neoliberal do Estado social da República Federal Alemã. O programa recebeu o nome de Peter Hartz, um executivo da empresa de automóveis Volkswagen, a quem o anterior governo federal vermelho-verde de Schroeder e Fischer encarregou de fazer um estudo para um plano de "reformas". Entretanto, o senhor Peter Hartz, símbolo da desmontagem do Estado social na Alemanha, foi processado e condenado por corrupção.

Michael R. Krätke é professor de Política Económica e Direito Fiscal na Universidade de Amesterdão, investigador associado no Instituto Internacional de História Social dessa mesma cidade e catedrático de Economia Política e director do Instituto de Estudos Superiores de Universidade de Lancaster no Reino Unido

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