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Sorrisos sobre um equilíbrio de terror

O acordo reduz as armas nucleares de longo alcance dos EUA e Rússia em 30%. Mas os números oficiais deixam de fora mais de metade do arsenal nuclear na sua posse.

Obama e Medvedev brindam ao acordo, apesar das capacidades<br />
atómicas instaladas continuarem a ser suficientes para arrasar várias<br />
vezes o planeta Terra. Foto Casa Branca/FlickrO acordo reduz as armas nucleares de longo alcance dos EUA e Rússia em 30%. Mas os números oficiais deixam de fora mais de metade do arsenal nuclear na sua posse.


Os presidentes dos Estados Unidos e da Rússia assinaram em Praga a versão mais actual do Tratado START para limitação de armas nucleares estratégicas. Os números da capacidade nuclear instalada de ambas as potências são reduzidos oficialmente em 30 por cento mas estas cifras deixam de fora volumosos arsenais atómicos, que o acordo não contempla. Mantém-se também o espírito de corrida aos armamentos, que se reflecte nos aumentos dos orçamentos militares de Washington e Moscovo e na discussão sobre a instalação de novos equipamentos de guerra na Europa de Leste. O novo tratado não altera esta outra realidade:

A cerimónia de assinatura do novo START, que substitui o de 1991, já expirado, decorreu no castelo presidencial em Praga, capital de um país que está envolvido no centro da polémica sobre a instalação de novos dispositivos militares na Europa de Leste – tema que não cabe na letra deste tratado.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, qualificou o acordo como “apenas um passo de uma longa jornada”, mas que serve para “conter a deterioração das relações entre os dois países”. Dmitry Medvedev, presidente russo, salientou que o tratado proporciona “um mundo mais seguro”, significa “uma vitória para ambos os países” e reflecte “os blocos de interesses da Rússia e dos Estados Unidos”.

Nas declarações associadas à cerimónia de assinatura o presidente russo criticou as alegadas intenções nucleares do Irão, atitude que foi interpretada como um passo na direcção pretendida por Obama de reforçar as sanções internacionais contra Teerão. As duas potências detentoras de 95 por cento das cerca de 23 mil armas atómicas existentes no mundo poderão assim convergir contra um país acusado de desenvolver tecnologia nuclear militar, a poucas semanas do início da renegociação do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Segundo os números oficiais divulgados, o novo tratado de redução de armas estratégicas  (START) implica um corte de 30 por cento no número de armas nucleares de longo alcance das duas potências em relação ao Tratado de Moscovo, assinado em 2002. Estados Unidos e Rússia ficam com a capacidade nuclear estratégica reduzida a 1550 unidades cada, a par de uma limitação a 700 veículos de transporte – mísseis balísticos, submarinos e bombardeiros pesados.

Estes números dizem respeito apenas às armas atómicas prontas a ser lançadas – vectores estratégicos com alcance superior a 5 500 quilómetros, o que representa apenas uma parte – menos de metade – do real potencial nuclear dos dois países. O acordo START não inclui as armas atómicas em estado operacional contidas em arsenais.

Segundo o “Bulletin of the Atomic Scientists”, os Estados Unidos têm 5200 armas nucleares operacionais, contra 4850 da Rússia. Embora não estejam prontas a ser lançadas, estas armas mantêm-se nos arsenais e não foram contabilizadas no acordo. Além disso, a Rússia e os Estados Unidos têm no conjunto 12500 armas nucleares não operacionais que ainda não foram desmanteladas.

Em relação aos veículos de transporte, o tratado estabelece uma redução a 700 mas não altera o facto de cada um deles poder continuar a transportar múltiplos vectores. O “New York Times” informou recentemente que por exemplo um bombardeiro B 52 está equipado para transportar 14 mísseis de cruzeiro e seis bombas atómicas. De acordo com o Departamento de Estado norte-americano, a situação anterior à assinatura do tratado é de 1762 ogivas em 798 veículos para os Estados Unidos e de 1741 em 566 veículos para a Rússia.

“As relações actuais entre os Estados Unidos e a Rússia são tudo menos cordiais”, comentou Zbigniew Brzezinsky, o conhecido estratego ao serviço de várias administrações norte-americanas e que definiu o controlo da Eurásia como o fulcro da estratégia de Washington. A operação no Afeganistão e a presença militar norte-americana no Leste da Europa são passos dessa doutrina.

Apesar das declarações de apaziguamento proferidas em Praga, mantêm-se, de facto, sinais de tensão entre Washington e Moscovo, a par de um ambiente de corrida aos armamentos.

Poucas horas antes da assinatura do tratado, o chefe da diplomacia de Moscovo ameaçou que a Rússia poderá não o respeitar o novo START no caso de se registar “uma evolução quantitativa e qualitativa do potencial estratégico norte-americano capaz de afectar significativamente a eficiência estratégica russa”. Estas palavras são uma alusão às intenções dos Estados Unidos de instalar novas “capacidades defensivas” ou “um escudo defensivo” na República Checa, Polónia e Hungria. Moscovo contraria a tese norte-americana de que se trata de meios de defesa contra o “perigo iraniano” afirmando que são efectivamente instrumentos que podem integrar-se numa estratégia ofensiva de desferir “o primeiro golpe”.

A Rússia tem dado sinais de se preparar para responder às iniciativas norte-americanas não apenas recorrendo ao território da Moldávia mas também através da evolução recente do modelo de submarino de propulsão nuclear “Yasen”, capaz de transportar até 24 mísseis de cruzeiro de longo alcance.

Analistas militares norte-americanos consideram que a assinatura do Tratado START habilita Barack Obama a apresentar-se com autoridade reforçada nas negociações sobre a renovação do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, a iniciar brevemente. Nesse âmbito, o presidente norte-americano apresentou há dois dias a chamada “nova doutrina” estratégica nuclear, na qual privilegia como alvos o Irão e a Coreia do Norte, e vai proferir uma intervenção perante o Conselho de Segurança da ONU no próximo dia 12. No documento doutrinário, Barack Obama foi omisso em relação a algumas situações de países que não assinaram o tratado de não proliferação e possuem arsenais nucleares não declarados, como por exemplo Israel.

Os serviços da Casa Branca prometeram que Obama divulgará “novos dados” perante o Conselho de Segurança, ao que tudo indica no sentido de conseguir mais apoios para a estratégia de reforço de sanções ao Irão.


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu

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