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Robert Fisk: Até eu questiono a verdade sobre o 11 de Setembro

Robert Fisk, foto de Marjorie Lipan - FlickrSempre que faço uma palestra sobre o Oriente Médio há sempre alguém na plateia - só um - a quem chamo de "delirante". Desculpem-me aqueles homens e mulheres que vão às minhas palestras apresentar questões brilhantes e pertinentes - na maioria das vezes muito humildes em relação a mim, como jornalista - e que mostram saber muito mais sobre a tragédia do Médio Oriente do que os jornalistas que cobrem o assunto. Mas o ''delirante'' é real. Ele assume forma física tanto em Estocolmo quando em Oxford, tanto em São Paulo quanto em Erevan, no Cairo, em Los Angeles e, na forma feminina, em Barcelona. Não importa qual seja o país, vai sempre haver um "delirante".
Por Robert Fisk, publicado no The Independent em 25/8/2007

A pergunta dele - ou dela - é mais ou menos assim: se você se considera um jornalista livre, por que é que não diz o que sabe realmente sobre o 11 de Setembro? Por que não conta a verdade - que a administração Bush (ou a CIA, a Mossad, sabe-se lá o quê) explodiu as torres gémeas? Por que não revela os segredos por trás do 11 de Setembro?

A convicção em cada pergunta é que Fisk sabe - que Fisk tem um absoluto, concreto, cofre de metal, que contém a prova final do que "toda a gente sabe" (esta é a frase habitual) - quem destruiu as torres gémeas. Às vezes, o "delirante" está claramente stressado. Um homem em Cork gritou a sua pergunta para mim, e depois - no momento em que sugeri que sua versão do plano era um pouco ímpar - ele deixou a plateia, insultando e pontapeando as cadeiras que via pela frente.

Geralmente, tento dizer a "verdade"; que, apesar de existirem questões não respondidas sobre o 11 de Setembro, eu sou o correspondente do The Independent, não o correspondente da conspiração; que tenho em mãos muitas maquinações concretas no Líbano, no Iraque, na Síria, no Golfo, etc, para me preocupar com planos imaginários em Manhattan. O meu argumento final - um KO, do meu ponto de vista - é que a administração Bush estragou - do ponto de vista militar, político e diplomático - tudo o que tentou fazer no Médio Oriente; então, como é que alguma vez essa mesma administração poderia realizar com sucesso aqueles crimes contra a humanidade nos Estados Unidos em 11 de Setembro de 2001?

Bem, ainda defendo esse ponto de vista. Qualquer militar que diga - como os americanos fizeram dois dias depois - que a al-Qaeda está desbaratada, não é capaz de fazer algo na escala do que aconteceu em 11 de Setembro. "Nós desbaratámos a al-Qaeda, pusemo-la em fuga", disse o coronel David Sutherland sobre a "Operação Martelo Relâmpago" na província iraquiana de Diyala. "O medo que eles tiveram de enfrentar as nossas forças prova que os terroristas sabem que não há lugar seguro para eles". E outras coisas semelhantes, todas falsas.

Horas depois, a al-Qaeda atacou Baquba com a força de um batalhão e massacrou todos os sheiks locais, que haviam caído nas mãos dos americanos. Isso fez-me lembrar o Vietname, a guerra que George Bush assistiu dos céus do Texas - o que pode explicar as razões de ele ter misturado o fim da guerra do Vietname com o genocídio num outro país chamado Camboja, cuja população foi salva pelos mesmos vietnamitas contra os quais os colegas mais corajosos de Bush lutaram anos a fio.

Mas, aqui vamos nós. Estou cada vez mais desconcertado com as inconsistências da narrativa oficial do 11 de Setembro. Não apenas pelos mais óbvios non sequiturs: onde estão as partes da aeronave (motores, etc) que atacou o Pentágono? Por que as autoridades envolvidas com o voo 93 da United (que caiu na Pensilvânia) foram obrigadas a calar o bico? Por que os restos do voo 93 se espalharam por quilómetros, quando supostamente o avião se chocou contra o solo ainda inteiro? Novamente, não estou a falar sobre a "pesquisa" maluca de David Icke (Alice no País das Maravilhas e o Desastre do World Trade Center), que poderia fazer qualquer homem são tentar decorar a lista telefónica.

Estou a referir-me a questões científicas. Se é verdade, por exemplo, que o querosene queima a 820º celsius sob óptimas condições, como é que o aço das duas torres, cujo ponto de fusão está supostamente acima de 1.480ºC, poderia ter entrado em colapso na mesma velocidade? Elas caíram em 8,1 segundos e 10 segundos. E a terceira torre, o World Trade Centre Building 7, ou edifício Salmon Brothers, que desmoronou em 6,6 segundos até os alicerces às 17h20 do dia 11 de Setembro? Por que desmoronou daquela maneira se nenhuma aeronave a atingiu? O Instituto Americano de Padrões e Tecnologia analisou a causa da destruição dos três edifícios. Ainda não disse nada sobre o WTC 7. Dois importantes professores americanos de engenharia mecânica - com toda a certeza fora da categoria dos "delirantes" - estão neste momento a contestar o Instituto na Justiça contra os termos de referência deste relatório final, argumentando que eles podem ser "fraudulentos ou enganadores".

Jornalisticamente, existem muitas coisas estranhas sobre o 11 de Setembro. Relatórios iniciais de repórteres que afirmam terem ouvido explosões nas torres - que bem poderiam ser as estruturas rompendo-se - são fáceis de desmentir. Já não é tão fácil fazer o mesmo em relação ao relato de que o corpo de uma hospedeira da tripulação de um dos voos foi descoberto nas ruas de Manhattan com as mãos atadas. OK, então vamos assumir que isso foi só boataria de momento, assim como a lista da CIA de sequestradores-suicidas, que incluía três homens que estavam - e ainda estão - vivos da Silva e a viver no Oriente Médio, foi um erro inicial da espionagem americana.

Mas e o que dizer da estranha carta supostamente escrita por Mohamed Atta, o assassino - sequestrador egípcio de cara assustada, cujo conselho "islâmico" aos seus cruéis camaradas - revelado pela CIA - mergulhou na perplexidade cada amigo muçulmano que tenho no Médio Oriente? Atta mencionava a sua família - coisa que nenhum muçulmano, mesmo mal-intencionado, gostaria de incluir numa oração final. Ele lembra os seus companheiros de morte para que façam a primeira oração muçulmana do dia e depois começa a citá-la Mas nenhum muçulmano precisa de tal lembrança - e muito menos esperaria que o texto da oração do Fajr fosse incluído na carta de Atta.

Deixem-me repetir. Não sou um teórico da conspiração. Poupem-me dos "delirantes". Poupem-me das maquinações. Mas, como toda a gente, gostaria de conhecer a história completa do 11 de Setembro, não só porque ela desencadeou essa campanha lunática e falsa da "guerra ao terrorismo", que nos levou ao desastre no Iraque e no Afeganistão e na maioria do Oriente Médio. Uma vez, o assessor de Bush alegremente despachado Karl Rove disse que: "somos um império agora - criamos a nossa própria realidade". Verdade? Então contem-nos. Isso iria evitar que as pessoas saíssem pontapeando as cadeiras por aí.

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