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RD Congo: Falar dos verdadeiros autores da guerra

Guerra na R.D. do Congo tem pesado duramente sobre as mulheresCada episódio da prolongada guerra civil da República Democrática do Congo tem pesado de forma particularmente violenta sobre as mulheres, embora estas tenham uma voz relativamente pequena nas negociações para a paz.

Terna Gyuse entrevista Aimee Mwadi Kadi e Katana Gege Bukuru, activistas dos direitos das mulheres congolesas, para a IPS.

Os novos combates que eclodiram em Agosto de 2008 entre o Congresso Nacional para a Defesa do Povo (conhecido pela sigla francesa, CNDP) e o exército e milícias aliadas da República Democrática do Congo expuseram novamente as mulheres congolesas à deslocação, à morte e à violência sexual generalizada.

Como directora na República Democrática do Congo da Sociedade das Mulheres contra a SIDA em África, Aimée Mwadi Kady efectuou um estudo dos efeitos da violência sexual geral no leste do país.

Katana Gégé Bukuru formou a organização Solidariedade das Activistas pelos Direitos Humanos, que ensina as mulheres a defenderem os seus direitos.

Ambas as mulheres têm um envolvimento activo nos esforços locais e regionais para trazer a paz para aquele país. São também consultoras do Fundo Global, que apoia as organizações de mulheres que trabalham nas questões dos direitos humanos, incluindo a violência baseada no género e a edificação da paz.

Falaram à IPS na Cidade do Cabo durante a conferência, em Novembro de 2008, da Associação das Mulheres em Desenvolvimento; parte da entrevista é publicada aqui.

IPS: Vou começar com uma questão abrangente - qual é a situação das mulheres na República Democrática do Congo neste momento?

Aimée Mwadi Kadi: A situação das mulheres no Congo não é boa. A pobreza tem um rosto feminino. As mulheres que vivem em áreas urbanas costumavam ter uma situação um pouco melhor, mas com a guerra, a pobreza saiu do campo e deslocou-se para a cidade.

As mulheres enfrentam grandes dificuldades. Há mais mulheres a viverem sozinhas, mais pessoas a viverem em lares encabeçados por mulheres. Existe um número crescente de mães jovens, isto é, as raparigas são mães muito cedo e tornam-se um fardo adicional para as suas próprias mães, visto que continuam a viver em casa. Esta situação piorou com a guerra.

Existem muitos deslocados internos; as mulheres que abandonaram as zonas de conflito e ocupam espaços ilegalmente nos centros urbanos enfrentam grandes dificuldades. Trabalham muito para sobreviver.

IPS: Quem presta auxílio ou apoio a estas mulheres?

Katana Gege Bukuru: É primariamente o movimento feminista, as organizações de mulheres que tentam congregar as mulheres para partilharem as dificuldades.

As mulheres estão profundamente envolvidas na busca da paz e algumas participaram directamente nas negociações, enquanto que a maioria das mulheres participou indirectamente enviando abaixo-assinados, memorandos, fazendo manifestações. Mesmo agora que a guerra começou outra vez, as mulheres continuam a organizar-se.

IPS: As organizações de mulheres têm contacto com os diversos intervenientes na guerra?

Katana Gege Bukuru: A nível de negociações locais e esforços diplomáticos, realizámos pequenas reuniões com os diferentes grupos armados, mas não cimeiras. Tivemos encontros com alguns dirigentes locais que estavam abertos à nossa visão sobre a paz, mas não é tarefa fácil. Por vezes alguém diz-nos: "Não, não estamos a favor da guerra, mas por outro lado se o seu dirigente/patrocinador insistir, é difícil dizer não".

Conhecemos os actores que vemos no terreno, mas não conhecemos os que se encontram nos bastidores. É esse o problema.

IPS: O que é que pensam do papel desempenhado pela missão das Nações Unidas, a MONUC, neste momento?

Katana Gege Bukuru: Posso dizer que, mesmo se desempenha um papel positivo e mesmo se faz parte do apelo a um cessar-fogo, o que realmente sobressai neste momento é isto: por que motivo a guerra continua enquanto a MONUC está aqui?

Aimée Mwadi Kadi: A MONUC é uma instituição criada para manter a paz. Hoje em dia, trabalho frequentemente nas zonas onde há guerra. Estive em Goma, em Kiwanja, Tamugenga, Rumangabo, todos estes sítios. Mas nas aldeias o que é que o povo diz? "Sem Nkunda, Não há trabalho, Não há dinheiro."

Entende?

Quer isto dizer, nalguns sítios a MONUC tem desempenhado um papel que afirmo ser negativo, porque falei com muitas mulheres durante o meu trabalho a apoiar as mulheres vítimas de violência. E em todo o lado é isso o que me dizem: "Não, a guerra vai começar outra vez porque os membros da MONUC encontram satisfação nela, visto serem bem pagos. Se não houvesse guerra, não teriam dinheiro".
Não há trabalho, e sem Nkunda (dirigente do CNDP), Não há trabalho, não há dinheiro.

Portanto, é muito importante, nesta altura, dizer a verdade. As pessoas devem compreender que a MONUC também tem desempenhado um papel no regresso à guerra.

Katana Gege Bukuru: O que eu tenho a dizer é que toda a gente usa o nome de Nkunda. Nkunda é apenas uma pessoa. Uma pessoa não pode fazer guerra sozinha. Nkunda é e imagem, portanto não queremos continuar a falar de Nkunda, mas antes dos verdadeiros autores da guerra na República Democrática do Congo.

IPS: E quem são os verdadeiros autores?

Katana Gege Bukuru: É isso que queremos saber! Porque um indivíduo não pode fazer a guerra sozinho. Não fabrica armas. Nkunda não tem os meios suficientes para continuar a guerra. Não é ele - é por isso que queremos saber quem são esses autores.

IPS: Parece que se avançam sempre as mesmas soluções. Existe sempre um ex-presidente que é chamado a servir de mediador, há sempre a busca de soldados adequados a uma missão de manutenção da paz quando não há paz para ser mantida. Que outras soluções proporiam?

Aimée Mwadi Kadi: Essa é uma pergunta pertinente. Deixe-me propor uma solução. Porque fingimos sempre que o FDLR, o antigo exército ruandês, se encontra no Congo e cria uma situação difícil para o Ruanda.

Mas, meu irmão, o Ruanda tem - a República Democrática do Congo foi dividida em duas partes durante quanto tempo? Durante três anos, a República Democrática do Congo esteve dividida, e eles [Ruanda] tiveram todo o tempo que queriam para varrer tudo, até massacrar, matar todos os membros do FDLR até chegar ao último bebé. Mas não conseguiram.

A solução - a comunidade internacional tem de assumir a responsabilidade... Porque está a pedir à República Democrática do Congo que desarme o FDLR, mas como? Desmobilizá-los - com que meios?

A comunidade internacional deve encontrar um meio. Não estamos a insistir que regressem ao Ruanda e participem num diálogo como tivemos no Congo.

Sentámo-nos à mesma mesa, até aceitámos pessoas originárias do exterior da República Democrática do Congo que hoje encontramos em altas posições em Kinshasa.

Tudo isto para dizer que nós, congoleses, somos pacifistas. As pessoas disseram, Queremos paz. Agora juntos, vamos edificar a paz, esquecendo as nossas diferenças.

Mas hoje Nkunda declara, Vou lutar até que o FDLR tenha saído da República Democrática do Congo. Estão a lutar porque o FDLR é suposto estar a evitar que o Ruanda se desenvolva? Isso é loucura .

A solução... A comunidade internacional tem os meios. Sabe onde está o FDLR e pode formar um corredor e levá-los até ao Ruanda. E se o Ruanda se recusar a falar com eles, com os seus irmãos, então a comunidade internacional deve levar este FDLR para os Camarões. Há lá espaço, vamos colocá-los ali e resolve-se a questão.

E então teremos paz. Fingimos constantemente que o FDLR é a razão [do conflito]. Mas a razão é o roubo.

Olhe para o lago. Quantos sacos de cassiterite se encontram ali? Quantos sacos de coltran? Quantas aeronaves aterram em Walungu? E em Borega? Quantos?

Vá ao Ruanda agora, estão ocupados a construir o país. Com quê? O Ruanda está a vender diamantes agora, está a assinar contratos para vender diamantes; pergunte a si próprio: de onde é que vêm estes diamantes?

Deixe a comunidade internacional ouvir a voz de uma mulher que viu outras mulheres a chorar. A comunidade internacional precisa de pegar no FDLR e levá-los...Não sei para onde, até para o deserto. OK? Levem-nos para o deserto, porque não queremos guerra.

Vá a Kinshasa; há tantos mutilados. Mães, jovens. Quando falamos com mães ruandesas, também elas choram, porque muitos dos seus filhos vêm morrer na República Democrática do Congo.

Portanto, as minhas palavras finais sobre este problema é que a solução não é continuar a dizer à República Democrática do Congo que tem de organizar o desarmamento. É a comunidade internacional, que tem sido cúmplice nesta situação, que tem de efectuar essa tarefa.

Se não... iremos pegar em armas.

Sou mulher, tenho mais de 50 anos, mas estou pronta para pegar em armas, e os nossos filhos também. Estamos no processo de criar bombistas suicidas - depois de dez anos de guerra, estamos a criá-los. O meu alfaiate vem ter comigo e diz-me, Estou pronto, estamos prontos para pegar em armas e, não importa o que suceder, colocar bombas em todo o lado.

É isso que estamos a preparar aqui se nos deixarem assim, abandonados à nossa própria tristeza.

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