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Que nos reserva a era Obama?

Barack Obama. Foto de campanha de Obama, FlickRNão só a tomada de posse do primeiro presidente afro-americano é, por si só, histórica, como também a eleição de Obama significa o advento de uma nova era na política mainstream americana. Mas haverá muitas oportunidades para que a "mudança" que Obama prometeu descarrile - e que os seus apoiantes se desiludam.
Por Lance Selfa, do Socialist Worker

Leia também o dossier Obama depois da vitória

Com os média a pôr o foco na pompa e circunstância da entrada de Barack Obama na Casa Branca, é fácil perder de vista o profundo significado da sua eleição.

Não só a tomada de posse do primeiro presidente afro-americano é, por si só, histórica, como também a eleição de Obama significa o advento de uma nova era na política mainstream americana.

Apesar de terem passado apenas dois meses e meio desde a noite das eleições e das triunfantes comemorações multirraciais, vale a pena falar novamente acerca da profundidade da vitória.

A lista Obama-Biden derrotou McCain-Palin por mais de 7 pontos percentuais (52,9% a 45,6%) e perto de 10 milhões de votos (69,5 milhões contra 59,9). Obama é o primeiro presidente democrata desde Jimmy Carter, e apenas o segundo desde Franklin Roosevelt a ganhar uma maioria completa na eleição presidencial.

Os democratas ganharam em estados como Indiana, Carolina do Norte e Virginia, que foram solidamente republicanos durante a maioria da última geração. Ao mesmo tempo, Obama vai ter a mais ampla maioria democrata na Câmara de Representantes desde 1992 e a mais ampliada maioria no Senado desde 1977.

Esta vitória põe fim a uma era de domínio conservador que dura há mais de uma geração.

A emergência dos republicanos no final dos anos 60 como o principal partido de governo, pelo menos na Casa Branca, dependia da "estratégia sulista" dos apelos racistas que fizeram o Sul pós-movimentos de direitos civis a principal base do Partido Republicano.

Este apelo político aos opositores da mudança social, associado aos anos 60 e 70, combinou-se com a ideologia de livre-mercado que desafiava o consenso económico keynesiano e se tornou a ortodoxia reinante nas últimas quatro décadas.

Talvez não haja maior repúdio da "estratégia sulista" que a eleição do primeiro presidente afro-americano. Apesar de as sondagens mostrarem que McCain ainda tinha a maioria do voto branco, Obama obteve o melhor resultado de qualquer candidato presidencial democrata desde Carter.

Como explicou o especialista em sondagens Andrew Kohout, "a raça foi certamente um factor na eleição, e teve um balanço mais positivo que negativo para Obama. A ida às urnas dos negros (13% do eleitorado) foi consideravelmente mais alta que em 2004 (11%). Este aumento de 20% é atribuível aos eleitores que votaram pela primeira vez.

"Globalmente, 19% dos afro-americanos votaram pela primeira vez, comparados com 8% de eleitores brancos que foram às urnas pela primeira vez. A comparência maior, combinada com um quase universal apoio a Obama entre os negros foi responsável por aumentar uns dois pontos percentuais à sua votação global."

Ao mesmo tempo, a ideia de que o "governo grande" é o problema, mais do que parte da solução para a actual crise, também foi posta de lado. As sondagens mostram que 51% dos eleitores disseram que queriam que o governo "fizesse mais", e 76% desse grupo votou Obama.

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É importante compreender que esta "nova era" não se baseia apenas em movimentos demográficos ou tácticas de curto-prazo aplicadas pelos diferentes partidos. O facto de ocorrer durante a pior crise económica desde a Grande Depressão, significa que tem potencial para abrir toda uma nova gama de questões políticas.

Para milhões que estão a perder os empregos, as casas, as poupanças de reforma e mais, a crise do sistema económico já questionou os lemas da desregulação, dos cortes de impostos, do livre comércio e da marketização de tudo o que acompanhava o dogma neoliberal da última geração.

Ao assumir a presidência, Obama tem a vantagem da popularidade alargada. Durante as eleições, o Pew Center registou a maior percentagem de sempre de eleitores que votaram "a favor" de um candidato (em contraste com os que votaram "contra" o outro candidato).

E o sentido de antecipação e de esperança em Obama só aumentou desde Novembro. Na véspera da posse, a popularidade de Obama aproximou-se dos 80%, o que supera de longe os números dos dois últimos presidentes.

Além de ter o apoio da maioria do povo, Obama tem também apoio significativo entre a classe dominante dos EUA para executar um programa que supere a crise económica. Gerald F. Seib, do The Wall Street Journal observou: "Uma coisa é certa: o pensamento tradicional sobre relações entre a administração democrata e a comunidade empresarial precisa ser deitado fora. Esta é uma nova era."

Os empresários americanos amplamente apoiam a proposta de pacote de estímulos de Obama, e importantes protagonistas da indústria financeira apoiam os apelos de Obama para nova regulação dos mercados financeiros. Durante uma boa parte de 2009, Obama deve também ter uma "lua de mel" com o povo.

Mas Obama não vai ficar sem contestação.

No início do seu mandato, os republicanos e a direita parecem desnorteados, incertos de como confrontar a nova era e responder ao amplo repúdio público que sofreram. Apesar disso, eles vão tentar fazer oposição aos planos de Obama, caracterizando-os como esquemas liberais de "governo grande" - apesar de que, com o apoio das grandes empresas aos pacotes de estímulo de Obama, estas objecções conservadoras podem não ganhar grande peso.

Por outro lado, empresários e republicanos anunciaram total oposição à Lei da Livre Escolha do Empregado (Employee Free Choice Act - EFCA), que tornaria mais fácil aos trabalhadores aderir aos sindicatos. E podem procurar enfraquecer ou pôr a pique os planos de Obama de reforma do sistema de saúde.

O crescimento desta oposição vai testar Obama e os democratas. Será que eles vão aproveitar a vantagem das expectativas levantadas pela eleição para marginalizar o Partido Republicano? Ou, em prol do "bipartidarismo" - ou do reconhecimento da esmagadora vantagem democrata nas contribuições de campanha dos empresários - Obama fará concessões aos conservadores?

O plano de estímulo de Obama já foi recheado de milhares de milhões de cortes fiscais para as empresas, e os democratas do congresso estão a movimentar-se para adiar a introdução da EFCA.

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Obama tem a maior oportunidade desde a presidência de Ronald Reagan de recompor a política americana por uma geração. Mas como criatura do establishment político dos EUA, ele é respeitador do pensamento convencional e dos seus muitos contribuintes em Washington e na academia.

Devido à horrível situação económica que Obama está a herdar, é pouco provável que a sua administração seja uma cópia do equilíbrio orçamental e do pensamento pequeno da administração de Bill Clinton dos anos 90 - apesar da presença dos ex-ministros de Clinton entre os seus principais conselheiros.

Mas a tensão entre as novas possibilidades e as velhas concepções significa que haverá muitas oportunidades para que a "mudança" que Obama prometeu descarrile - e que os seus apoiantes se desiludam.

Diferente da vitória democrata nas eleições para o congresso de 2006, quando a questão mais importante era a fracassada e impopular guerra do Iraque, Obama e os democratas devem a sua eleição em 2008 à crise económica.

Isto não quer dizer que os eleitores sejam indiferentes às guerras do Iraque e do Afeganistão. Quer dizer que a principal preocupação popular é doméstica, e que se espera que Obama resolva a crise económica - por outras palavras, que seja um presidente "doméstico".

Em relação à política externa, Obama vai fazer provavelmente algumas mudanças que lhe vão trazer apoio entre as forças antiguerra e internacionalmente - por exemplo, fechar o campo de Guantánamo e retirar algumas tropas do Iraque. É provável que introduza mudanças de estilo, como falar mais de diplomacia e de direitos humanos, em vez de ver toda a política externa sob as lentes da "guerra contra o terror".

Mas estas mudanças serão acompanhadas de uma ampliação da guerra do Afeganistão - que tem o potencial de se tornar um desastre que pode submergir a sua agenda doméstica - e uma postura mais agressiva em relação ao Paquistão. Apesar da retórica em relação ao "processo de paz", a sua política em relação à Palestina não se vai afastar da abordagem padrão de direita, de cem por cento de apoio a Israel.

Entretanto, a posição comprometida dos democratas e liberais em relação ao grande empresariado significa que haverá limites definitivos em relação a quão longe irá a luta pelo serviço de saúde ou a reforma laboral. E não devem questionar as principais plataformas da política externa de Obama.

Assim o povo que quer ver mudanças mais amplas vai ter de se organizar para pressionar a favor das mudanças.

A luta é a chave. Os exemplos da recente ocupação da fábrica Republic Windows & Doors e das mobilizações a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo mostram o potencial de organização do povo comum para pressionar a favor da mudança. Mas eles, e essas lutas, terão de ser construídas, organizadas e politizadas no longo prazo.

Este é o desafio para os primeiros anos desta nova era.

20/1/2009

Lance Selfa é o autor de "The Democrats: A Critical History", um análise socialista do Partido Democrata, e editor de "A Luta pela Palestina", uma compilação de ensaios de activistas de solidariedade. Faz parte do comité de redacção da International Socialist Review.

Tradução de Luis Leiria

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