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Prossegue a tensão no bairro da Bela Vista

O bispo emérito de Setúbal alerta para o "rastilho" que pode tornar-se num "incêndio" social como o da Grécia ou dos subúrbios francesesPela segunda noite consecutiva, os protestos contra a violência policial fizeram-se sentir na Bela Vista, em Setúbal. O bispo emérito D.Manuel Martins diz que este não é um caso isolado e que não é com polícia que se apagam «fogueiras» sociais.

 

“Um bairro não se torna mais seguro por ter polícias em todas as esquinas (…) porque as gentes de um bairro podem ultrapassar todos os sistemas de segurança. O que importa é garantir o pão aquela gente, o que importa é recorrer ao coração, isto é, fazer toda uma governação de presença, para que aquela gente tenha capacidade de engrenar em pleno numa sociedade justa e fraterna”, disse o antigo bispo de Setúbal à Rádio Renascença.

"O que eu receio e tenho repetido muitas vezes é que nestas situações possamos encontrar, num futuro próximo ou remoto, já uma fogueira preparada para incendiar o país", acrescentou D. Manuel Martins em declarações à agência Lusa. "Já há muito tempo que muita boa gente fala no perigo de sublevações que podem ser à partida muito pequeninas e muito localizadas e podem de um momento para o outro tornar-se generalizadas. Quem está no poder tem de ter muito cuidado e lidar com especial atenção estas situações, porque não basta ter a polícia tomar conta", avisa o antigo responsável pela igreja católica na diocese setubalense.

"Sei que isto está a acontecer em Portugal, aqui e além, com maiores ou menores dimensões. Está a acontecer com grandes dimensões na Grécia, na França, na Itália. Já tem acontecido em Espanha e na Inglaterra e eu tenho muito medo que mesmo até inconscientemente toda aquela gente esteja a preparar, a criar terreno, para qualquer coisa de muito grave para a Europa", alertou ainda D. Manuel Martins, que ficou conhecido como o "bispo vermelho" quando denunciou a fome no distrito durante a crise nos anos 80.

A morte de um jovem do bairro da Bela Vista, baleado pela polícia com um tiro na nuca durante um assalto a uma caixa multibanco no Algarve, incendiou os ânimos da comunidade, que se manifestou em frente à esquadra após o funeral e originou um confronto com a polícia que dispersou a multidão com tiros para o ar. Já na noite de sexta-feira, voltaram os protestos ao bairro, de que resultaram dois carros e uma motorizada incendiados.

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