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Peões britânicos num jogo iraniano

britishsailorsOs 15 marinheiros e fuzileiros navais britânicos que estavam a patrulhar o Shatt-al-Arab - ou Arvand Roud, como é conhecido no Irão - não estavam exactamente a passear ao estilo Rod Stewart ("I am sailing/stormy waters/to be with you/to be free" - "Estou a navegar/em águas tormentosas/para estar contigo/para ser livre"). Tinham as armas carregadas. Que teriam certamente sido disparadas contra contrabandistas iraquianos - ou melhor ainda, contra a resistência iraquiana, sunita ou xiita. Mas, subitamente, os britânicos foram confrontados não por iraquianos, mas por barcos de guerra do Irão.

Por Pepe Escobar, Asia Times, 03/28/07

Este correspondente já esteve no Shatt-al-Arab. É um curso de água movimentado e enganador, para dizer o mínimo. Barcos de pesca iraquianos partilham as águas com navios-patrulha iranianos. Da margem iraquiana avista-se a margem iraniana, bandeiras ao vento. Estas águas continuam a ser extremamente disputadas. Em 1975, foi assinado um tratado em Argel entre o xá do Irão e Saddam Hussein. O centro do rio era suposto ser a fronteira. Mas depois Saddam invadiu o Irão em 1980. Depois da guerra Irão-Iraque, que acabou em 1988, e mesmo depois das duas guerras do Golfo, as coisas continuam perigosamente inconclusivas: não foi ainda assinado um novo tratado.

Os britânicos afirmam intransigentemente que os marinheiros britânicos estavam em águas iraquianas à procura de carros, não de armas, contrabandeados. É quase risível que a Royal Navy estivesse reduzida a achar perigosos Toyotas no Golfo Pérsico. Relatos de Teerão alegam que os britânicos estavam na verdade a espiar os preparativos militares iranianos, antecipando um possível confronto com os EUA.

Os meios de comunicação ocidentais esmagadoramente deram por adquirido que os britânicos estavam em águas iraquianas ou "internacionais" (errado: são águas iraquianas/iranianas em disputa). Teerão acusou os britânicos de "flagrante agressão" e lembrou a opinião pública que "esta não é a primeira vez que os britânicos cometem actos ilegais como este" (o que é verdade). Os diplomatas de Teerão sugeriram mais tarde que os britânicos poderiam ser acusados de espionagem (que é na verdade o que está a acontecer na província iraniana do Khuzistão, com forças especiais americanas).

 

Assuntos de xadrez

A cobertura do sensível incidente do Shatt-al-Arab na imprensa iraniana foi chocante: de início, não houve nenhuma. Estava tudo fechado devido ao Nowrouz - a festa de uma semana do Ano Novo iraniano. Mas isso não impediu a radicalização.

Membros da linha-dura, como os Guardas Republicanos e o Basiji - a milícia islâmica voluntária - pediram ao governo do presidente Mahmud Ahmadinejad que não libertasse os marinheiros até que fossem também libertados os cinco diplomatas iranianos presos pelos Estados Unidos no Iraque. Também pediram que as novas sanções impostas ao Irão pela ONU fossem confrontadas. E tudo isto sob os atentos olhares (e ouvidos) da 5ª Frota da Marinha americana no Bahrein.

Grande parte da imprensa ocidental assumiu que o Irão queria reféns ocidentais para trocar pelos cinco diplomatas iranianos, sem sequer questionar antes de tudo a captura ilegal dos iranianos pelo Pentágono. Depois, a trama foi ampliada para se tornar numa diversão táctica de Ahmadinejad, no momento em que o Conselho de Segurança trabalhava numa nova resolução para impor mais sanções sobre o Irão; e em que a Rússia dizia a Teerão que arranjasse dinheiro, ou então a central nuclear de Bushehr, que aquele país está a construir no Irão, não será concluída.

O incidente do Shatt-al-Arab tem sido ligado a uma resposta iraniana às acusações de Washington de que Teerão estaria a ajudar as milícias xiitas do Iraque com dinheiro, armas e treino militar. Oficialmente, o embaixador do Irão no Iraque, Hassan Kazemi Qomi, disse que não há qualquer ligação: "Entraram em águas territoriais iranianas e foram presos. Não tem nada a ver com outras questões." Sem surpresas, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Iraque, Hoshyar Zebari tomou o lado dos ocupantes que o puseram no cargo: disse que os britânicos estavam no Iraque convidados pelo governo iraquiano e que estavam em águas iraquianas.

Isto não impede que as pessoas, especialmente no mundo islâmico, questionem, para começar, o que é que os britânicos, como força de ocupação, estavam a fazer no Shatt-al-Arab.

Das profundezas da sua recente e abismal experiência histórica, até mesmo o mundo árabe - que nem gosta tanto dos persas - vê as sanções da ONU, orquestradas pelos EUA, como elas realmente são: o Ocidente, uma vez mais, está a tentar esmagar uma nação independente que se atreve a querer ganhar mais influência no Médio Oriente. Mais sanções serão inúteis, enquanto a China e a Índia continuarem a fazer grandes negócios com o Irão.

Tacticamente, como numa partida de gamão, ou, melhor ainda, de xadrez,- no qual os iranianos são excelentes - o incidente do Shatt-al-Arab pode muito bem ser mais inteligente do que parece. O preço do petróleo está a estabilizar acima dos 60 dólares o barril, como resultado do incidente, e isso é bom para o Irão. É verdade que, do ponto de vista de Londres, o incidente poderia muito bem ter sido montado como uma provocação, parte de um maligno plano para ampliar o conflito com o Irão e virar a opinião pública ocidental, e talvez mundial, contra o regime iraniano.

Mas, do ponto de vista do Irão, de todas as formas, o primeiro-ministro britânico Tony Blair é um alvo débil. O episódio tem o potencial de paralisar tanto o presidente George W. Bush quanto Blair. Nenhum deles pode usar o incidente para começar uma guerra com o Irão, apesar de Blair ter advertido que o seu governo está preparado para avançar para uma "fase diferente" se o Irão não libertar rapidamente os marines.

Se a liderança de Teerão decide arrastar as coisas, os xiitas do sul do Iraque, já exasperados pelos britânicos (como estavam nos anos 20), podem aproveitar e acelerar o confronto. Sectores da resistência xiita podem começar a fundir-se com sectores da resistência sunita (é o que clérigo xiita Moqtada al-Sadr sempre quis). E isto provaria uma vez mais que não é preciso ter armas nucleares se se é grande mestre em xadrez.

Pepe Escobar é o autor de Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War (Nimble Books, 2007). Mail: [email protected]

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