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"O Hezbollah não tem condições de assumir o poder no Líbano"

Mufid KuteishO Hezbollah está pronto para enfrentar e expulsar qualquer invasor do Líbano, mas não tem nem condições nem planos de mudar a situação libanesa, afirma , secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista Libanês, entrevistado no Brasil por Nilson Dalledone, Prof. Dr., especialista em Médio Oriente e professor de Geopolítica, colaborador do Esquerda.net, e Khaled Fayez Mahassen, ex-presidente da FEARAB - Federação de Entidades Árabes de São Paulo, jornalista e tradutor. A entrevista aborda também o papel de Israel na região e a sua situação actual, o Iraque, o Afeganistão, e o papel da Síria, entre outros temas.

Nilson Dalledone - No Médio Oriente, no momento, quais as possibilidades estratégicas de Israel manter o poder hegemónico diante do Líbano, da Síria, da Palestina, da Jordânia, do Egipto, considerando-se a derrota do Iraque diante dos EUA e a resistência do Irão?

A nossa percepção, em relação a Israel, vai além do fato de Israel ser uma estrutura estatal. Não seria apenas isso. Aliás, há a possibilidade de a questão da criação de um Estado palestiniano ser resolvida em detrimento dos palestinianos. Israel é uma entidade ao serviço do imperialismo. A sua finalidade política, no momento da sua criação, era tornar-se um policial na Região. Difere, por isso, de todos os movimentos de libertação. Israel, no ano 2000, foi expulsa do Líbano por uma força armada. Desde então, ao não conseguir liquidar a resistência libanesa, deixou de ser capaz de executar a função para que foi criado, mesmo considerando que vários países árabes tenham assinado acordos. Esse foi um dos motivos que levou os EUA a usarem a sua força directamente, na região. Depois de 2006, a sua presença foi ainda mais prejudicada. Na guerra de julho, mais de um milhão de cidadãos israelitas tiveram de abandonar o norte de Israel. Houve, então, um movimento oposto da população que, ao invés de vir para Israel, começou a partir. Israel não esqueceu a derrota. De qualquer forma, sabem que não podem continuar a enfrentar nem o Hezbollah, nem a Síria, nem o Irão. Se fossem capazes de fazer alguma coisa, já teriam feito. A única coisa que fazem, agora, com sucesso, é impedir a destruição do Estado de Israel. Egipto e Jordânia têm acordos com os EUA.

ND - Na Faixa de Gaza, os palestinianos romperam as barreiras que impedem o trânsito rumo ao Egipto. O governo egípcio, ao invés de dar-lhes ajuda, fez o contrário. Como entender uma situação como essa?

Todos os governos árabes estão calados. Até a Arábia Saudita participou de uma reunião religiosa com a presença de Israel. São parceiros de Israel. Por isso, têm ódio à resistência palestiniana e libanesa. São eles que financiam os ataques israelitas contra essas forças.

ND - Até o final da Guerra Fria, em 1989, era possível dividir os países árabes em dois blocos. A Síria, de algum modo, confrontava Israel. A Líbia, em 1986, sofreu, inclusive, um ataque directo dos EUA. Também, formavam a linha de frente a Argélia, o Iémen do Sul e o Iraque. Na contrapartida, havia outro bloco de países árabes feudais ou semifeudais, como a Arábia Saudita. Actualmente, seria possível fazer uma divisão como essa?

De facto, houve muitas alterações na correlação de forças. A Argélia está quase mergulhada numa guerra civil. O Iraque está ocupado pelos EUA. Os países do Golfo, em geral, estão sob domínio directo ou indirecto da Arábia Saudita e dos EUA. O Sudão está mergulhado nos seus problemas internos, como Darfur e outras regiões. A Líbia está condenada a aceitar as exigências norte-americanas. Tudo isso levou à vitória dos norte-americanos no seu eixo de ataque, constituído por Arábia Saudita, Jordânia e Egipto. Sobrou, então, só a Síria, que, nos seus melhores momentos, consegue, somente, fazer oposição, mas sem qualquer perspectiva de enfrentamento. Na realidade, esse país tem procurado negociar com o Ocidente. Talvez isso não seja um erro, mas o estilo da sua actuação deixa muitas dúvidas. Ao mesmo tempo, há um movimento fundamentalista tanto na Síria como no Líbano, e a Síria decidiu enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, isso abriu um novo canal de comunicação entre a Síria e o Ocidente. O Ocidente está interessado na Síria, na mesma medida em que esta poderia oferecer seus serviços. Por outro lado, é evidente o confronto entre Síria e Arábia Saudita, o que afecta toda a região. De qualquer modo, a Síria tem tido um papel positivo, ainda que limitado.

ND - Em relação ao Líbano, o Hezbollah tomará o poder com o apoio do Irão. E, então, quanto tempo levará para massacrar os comunistas?

O Hezbollah sabe que nem hoje nem daqui a cem anos assumirá o poder, pois a situação do Líbano não lhe permitiria esse passo. Segundo a avaliação dos comunistas, o Hezbollah, na sua constituição social, assemelha-se a todos os demais partidos libaneses. A sua composição inclui desde o operário oprimido até a burguesia emergente, passando pela classe média. Por sua formação, representa uma camada burguesa. Tal como outros, pensam que, para que tudo se resolva, basta expulsar o invasor e tomar o poder. Na sequência, implantariam um governo burguês, capitalista, dentro da Nação. O Hezbollah está pronto e atento para enfrentar e expulsar qualquer invasor, mas não tem nem condições nem planos nem desejo de mudar a situação libanesa. Os comunistas e o Hezbollah são parceiros na solidariedade ao Irão e na luta contra os norte-americanos, mas estão em lados opostos em todas as questões internas libanesas. Seria possível reverter esse quadro em alguns aspectos. De momento, os comunistas avaliam positivamente o papel do Hezbollah, na luta contra Israel.

ND - Quais são as principais forças revolucionárias no Líbano, hoje?

Lamento, mas à excepção do Partido Comunista do Líbano, não há forças revolucionárias no país. Com todo o sentido da palavra, nem partidos nem grupos. Há um leque muito amplo de esquerdistas. Tenta-se agrupá-los, mas ser revolucionário implicaria em ter condições de lutar para mudar o sistema vigente. O maior obstáculo a isso é o actual regime, no poder. Todas as demais forças são contrárias a esse ponto.

ND - Em que forças sociais o Partido Comunista se apoia concretamente?

O Partido Comunista apoia-se nalgumas partes da classe operária, na classe média, nos profissionais da educação, desde os de nível primário até os de nível universitário, em alguns profissionais liberais e em alguns engenheiros. Infelizmente, a classe operária está dividida entre xiitas, sunitas, drusos, maronitas e outros. Ao invés de a classe operária lutar contra a burguesia, em geral, essa divisão fez com que o operariado lutasse entre si, provocando a inércia e a paralisia do movimento sindical.

ND - O Partido Comunista ou qualquer partido comunista segue, como método, o materialismo dialético e o materialismo histórico. Considerando o papel da religião no Médio Oriente, em geral, ainda muito fortemente influenciada pelo feudalismo, como consegue o Partido comunista penetrar nas camadas populares?

Esta é uma questão muito importante, porque tanto a religião como a religiosidade são a ideologia do feudalismo, em geral. Hoje, a religião, em sentido amplo, não tem ideologia religiosa. As burguesias coloniais do Líbano e de outros países árabes são incapazes de enfrentar uma luta de classes aberta. Recorrem, então, à religião como substituto à luta ideológica, nos marcos do capitalismo. Hoje, não são as classes feudais, clero e nobreza, que dominam a economia e a produção. Por isso, a luta não é contra a religião, engendrada, no passado, por essas classes, e nem contra os religiosos, mas contra a burguesia que usa a religião e os religiosos, para defender sua posição, isto é, o capital.

ND - E o projeto do pan-arabismo e da Grande Síria neste contexto, já que o Líbano, a Síria, a Palestina e a Jordânia formariam uma unidade?

O Partido Comunista, em convenção, analisou os problemas que se enfrenta, actualmente, e concluiu que o Movimento de Libertação Árabe se encontra em crise, especialmente, quanto ao aspecto da liderança. Os líderes, em geral, originários da pequena burguesia, desejavam e desejam libertar a região, mas sem mudar a estrutura existente. Ou se caminha rumo à libertação ou rumo à traição. Morreu Nasser, assumiu Sadat. Caminhou-se para acordos com Israel e para a submissão. Os substitutos a esses líderes burgueses, isto é, os Partidos Comunistas e a esquerda árabe, encontram-se em crise, até por terem sido incapazes de liderar o movimento de massas. O Partido Comunista tentou articular um programa que visava a libertação social e nacional, mas não obteve sucesso. Ao invés de unidade, cada líder ou chefe de Estado árabe tentou resolver o seu problema, em sua casa. Israel deixou de ser inimigo de todos. Alguns tornaram-se inimigos do Irão. Mas há algo novo. Apesar de tudo, Israel perdeu o Líbano e os EUA estão a perder o Iraque. Então, há esperanças de um recomeço.

ND - Como o Partido Comunista Libanês avalia a situação do Iraque e sua influência sobre a Região?

O Iraque é importante militar e economicamente. Esse país foi governado durante 20 anos por um ditador ignorante. Nem o seu próprio Partido, o Baath, se movimentou para protegê-lo, quando foi capturado. Ele entrou em disputa directa com o imperialismo norte-americano. No momento em que o Iraque caiu sob domínio estrangeiro, os comunistas foram os primeiros a convocar todos para a luta unificada contra o invasor. Infelizmente, tal objectivo não foi alcançado e a luta entre as forças de resistência acabou por justificar a ocupação. O ocupante, então, para prevenir-se, passou a buscar apoio em cada uma dessas forças, em separado, articuladas com novas fracções, criadas por ele próprio. Mas, mesmo assim, a luta patriótica avançou. O soldado americano foi igualado ao cidadão comum iraquiano. Essa guerra destruiu o Iraque, porém o imperialismo não conseguiu realizar seus objectivos. Os norte-americanos continuarão a usar a mesma estratégia para dividir, até que surja um movimento realmente democrático no Iraque. O agressor, nessas condições, não pôde reagir contra o Irão e contra a Síria. Isso explica, em parte, a tentativa dos EUA de avançarem sobre os interesses russos na Geórgia. O sentimento é de que a derrota norte-americana é certa. A divisão feita entre xiitas e sunitas é baseada na religião. Usaram o modelo libanês. Quanto ao Curdistão, nenhuma das partes pretende permitir a criação de um Estado curdo independente.

ND - Como avaliar a atual situação no Afeganistão, comparando-se com o período de presença da URSS no País?

Num aspecto, pelo menos, não há grande diferença, porque tanto aqueles líderes afegãos do passado, quanto os actuais, defendem o atraso de seu povo. Os norte-americanos estão à procura, de algum modo, de negociar com os talibans e com a Al-Qaeda. Por isso, é preciso tomar muito cuidado nas atitudes favoráveis ou contrárias a esses movimentos. Há um novo cenário.

ND - No Brasil, houve uma grande descoberta de petróleo. Os EUA mobilizaram a sua Quarta Frota. Isso indicaria alguma possibilidade de a pressão se reduzir sobre o Médio Oriente e recair sobre o Brasil? Em que isso facilitaria ou dificultaria as relações do Líbano com o Brasil?

Os norte-americanos estão dispostos a tudo por petróleo. Estão assustados com os estudos que indicam que nem mesmo todas as descobertas de petróleo serão capazes de satisfazer a seis mil milhões de pessoas. Haveria duas saídas. Uma seria o uso de tecnologias alternativas com a diminuição da dependência de petróleo, solução não disponível até o momento. A outra seria conquistar todas as riquezas naturais, em qualquer lugar. O problema de Darfur tem uma relação directa com o petróleo sudanês. A guerra do Iraque, também. O conflito com o Irão não tem nada a ver com armas nucleares, porque os EUA sabem que esse País não tem condições de criá-las. Portanto, também se trata da questão do petróleo. Na América Latina, ocorrerá o mesmo, não por causa das actuais descobertas de campos petrolíferos. Mas será colocada a questão do petróleo venezuelano, do gás boliviano e outras. Se eles perderem em algum lugar, serão incapazes de ganhar noutro. E eles estão com pressa. Acreditam que o diálogo histórico seria com a China, seu real concorrente no consumo de petróleo. Desejam chegar a Ásia Central antes da China, por isso.

Khaled Fayez Mahassen - Muitos questionam a razão pela qual o Partido Comunista Libanês tem relações políticas cordiais com o PC do B, mas não com as outras forças da esquerda brasileira.

É apenas uma coincidência. Para o Partido Comunista Libanês não haveria nenhum problema em manter relações com todas as forças de esquerda brasileira. O PC do B não se constrangeria com isso, certamente. Para que se iniciem relações, basta que uma das partes tome a iniciativa. Todos ganhariam com isso. Os participantes desse evento não actuam em bloco. Nem haveria um porquê.

KFM - A que se atribuiria a fraca participação da comunidade árabe nos movimentos de solidariedade a palestinianos, a libaneses, dentre outros?

O imigrante que veio ao Brasil procura garantir a sua sobrevivência e há um sentimento de que sua pátria não o acolheu e, por isso, teve de deixá-la. Além disso, não há hegemonia de um grupo. Há uma mistura de trabalhadores e empresários. Estes são contra as forças democráticas, seja no Oriente Médio, seja no Brasil e América Latina. Não se trata de irresponsabilidade, mas de posição. É preciso inserir-se nessas comunidades e organizá-las.

KFM - Que impressões São Paulo lhes ofereceu nesta primeira visita?

São Paulo não é uma cidade, mas um mundo. Apresenta muita diversidade e contradições que se vêem nas ruas. É dinâmica. Até a natureza colabora para essa diversidade, com mudanças climáticas constantes. A população é muito agradável. Chamam a atenção os detalhes e isso faz-nos reflectir.

ND - A que vieram a São Paulo?

Viemos a convite do PC do B, para o Décimo Encontro dos Partidos Comunistas e Operários do Mundo.

ND - Como avaliam o resultado do Encontro?

Neste que foi o Décimo Encontro debateram-se temas preparados de antemão, entre eles, a crise económica mundial e a solidariedade aos povos da América Latina. Nos documentos finais, tratou-se disso, centralmente. A conclusão geral foi de que não há alternativa ao caminho rumo ao socialismo, para a solução dos problemas mundiais. O outro aspecto importante relaciona-se ao local ou região onde ocorre, pois é um acto de solidariedade a esse local ou região. Decidiu-se que haverá comemorações aos 50 anos da Revolução Cubana, e que será criado um dia específico de protestos contra a crise económica mundial, além de manifestações contra a criação da NATO que chega, agora, aos seus 61 anos. Também, fizeram-se declarações sobre problemas específicos em diversos países.

ND - Quando diz "caminho ao socialismo", como seria? Haveria transição ou caminhar-se-ia directamente ao socialismo?

De fato, é uma pergunta muito inteligente e importante. Há possibilidade de luta pelo socialismo em qualquer lugar. Há situações maduras que permitiriam a passagem para uma etapa superior da sociedade. Mas existem particularidades na América Latina, na África e na Ásia. Esses países estão submetidos ao imperialismo. São países capitalistas, porém dependentes. É visível que há possibilidades de crescimento dos movimentos revolucionários, em tais países, até porque estão limitados em seu processo de desenvolvimento. Quando chegarem a certo ponto, não terão permissão de continuar a crescer. Então, a luta pelo socialismo, nesses países, tem caráter patriótico. Não há como lutar somente contra a burguesia local, sem lutar contra a burguesia global. Portanto, não há uma etapa única, mas diversas etapas.

ND - Via armada ou via eleitoral?

Não acredito que haja alguém capaz de responder a isso, nesses termos. O povo deve lutar dentro das suas condições, inclusive, dentro do sistema democrático, unindo todas as partes interessadas da sociedade. Mas sempre o povo enfrentará resistência das forças burguesas. A América Latina está diante de uma grande prova. Grandes tarefas estão a ser executadas, apesar das limitações da esquerda. Assim, deve-se estar preparado para a luta armada.

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