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O grau zero da discussão política e o Manifesto dos 70

Temos um grupo de pessoas, interessadas no futuro do país, e que apresenta um Manifesto a dizer: Cuidado, por onde vamos não vai dar. O produto não vai crescer suficientemente para pagar a dívida. É necessário fazer alguma coisa porque simplesmente não vai dar.
E a resposta que os nossos comentadores arranjam nunca é a de criticar os números, nem o que poderá mesmo acontecer...
Artigo publicado em jralmeida.com

 

Para já, vou deixar-vos com umas frases ditas por comentadores vários, sobre o Manifesto dos 70.

–> “O manifesto que defende a reestruturação da dívida pública tem um objectivo, mas não é aquele que os subscritores anunciam, é outro, é manter o modelo de negócio que temos, o Estado que temos, e atirar a dívida para trás das costas”, António Costa, director do Diário Económico.

–> “Gente da ‘espiral recessiva’, assina por baixo da elite das pensões acumuladas, esta aborrecida pelo corte de 40% das prebendas mensais acima dos seis mil e tal euros… sim, invejosos por os outros pensionistas (mais de 87%) não terem sido o alvo de cortes… (…) A Dívida Pública é sustentável. Claro, a economia terá de crescer de forma saudável (como está a acontecer) e terá de existir saldos primários positivos, como está previsto para este ano”. Rudolfo Rebelo, ex-jornalista, assessor económico do Primeiro-Ministro.

–> “Todos sabem que o cidadão médio dos países credores tem dos devedores o estereótipo do mandrião e irresponsável que está a viver à custa dos seus impostos. Basta atear esse “fogo que já arde sem se ver” para se incendiar a construção europeia.”, Helena Garrido, director do Jornal de Negócios.

–> “É que as vossas propostas já não resolvem, só agravam os problemas. Que tal darem o lugar aos mais novos?”, José Gomes Ferreira, SIC

Eis-nos, pois, chegados ao grau zero da discussão política e económica.

Temos um grupo de pessoas, interessadas no futuro do país, e que apresenta um Manifesto a dizer: Cuidado, por onde vamos não vai dar. O produto não vai crescer suficientemente para pagar a dívida. É necessário fazer alguma coisa porque simplesmente não vai dar.

E a resposta que os nossos comentadores arranjam nunca é a de criticar os números, nem o que poderá mesmo acontecer, ou encontrar alternativas aos números, ou provar que os “seus” números são mais reais. Não.

Há vários tipos de críticas:

1) os números até podem ser reais, mas o Manifesto é inoportuno.Inoportuno? Mas quando é que será oportuno? Quando tudo já estiver decidido sobre o período pós-troika? Quando nos tiverem lançado “aos mercados” e provar que afinal o Manifesto tinha razão, fazendo-se a reestruturação em tempo real, sem negociação política ao nível europeu e sem cobertura? Quando é que se pode achar ser oportuno?

2) os números até podem ser reais, mas não os digam muito alto. É a versão Helena Garrido. Sim, a reestruturação um dia será feita, mas só quando a Merkel perceber e, portanto, quiser. Pois, esse é o risco. É que a nossa estratégia como portugueses poderá não corresponder inteiramente à estratégia alemã. O nosso desenvolvimento como Portugal pode passar por menos Alemanha. Uma estratégia que nos mantenha com uma trela curta, que apenas se alivia de ora em quando, tudo desde que nunca este sistema de coisas seja posto em causa, um sistema em que a Alemanha beneficia de um Euro subavaliado por ter um conjunto de “países pobres” no seu interior e em que os “países pobres” são penalizados por ter uma moeda sobrevalorizada, pode nunca ser aquela estratégia para um “país pobre” se desenvolver. Porque, não se tenha ilusões, a Alemanha tem uma visão para o seu país. E num “casamento” entre dois países, em que os dois pensam o mesmo, há um que não está a pensar. E tenho a leve impressão de saber qual é o país que não está a pensar.

3) Os números não fazem sentido. Portugal está na boa via.Ora bem, esta é a posição oficial do Governo. Então se assim é, discutam-se os números. Quanto terá Portugal de crescer para conseguir saldos primários positivos como os previstos pela troika e pelo Governo? Saldo primário = Receitas – despesas sem juros. Ou seja, as despesas – lei-se vencimentos, despesas sociais, a função social do Estado – terão de descer muito – mas muito mesmo – para se poder pagar a dívida. Vamos cortar aonde? Diga-se já. Ou então quem pagará mais impostos ainda? A alternativa é o PIB crescer mais e, por arrasto, subir a receita fiscal e aliviar a austeridade. Mas olhe-se para a última década, mesmo sem crises de maior. Qual foi o crescimento médio? Rondou, se tanto, o 1% ao ano. Pois esse vai ser – se for – a melhor estimativa para o futuro, se não for inferior. Nesse cenário bem possível ,qual será a margem para evitar a austeridade? A palavra está do lado dos defensores da versão oficial. Prove-se qual vai ser o nosso destino. Cavaco Silva já o mostrou: 30 anos de austeridade… Falta o Governo Passos Coelho.

E nesta tarefa os jornais – e os económicos de sobremaneira – têm uma palavra a dizer.

Investigue-se. Façam-se contas. Mostre-se os vários caminhos.

Tudo, menos insultar.

Tudo, menos palavras fáceis, soundbytes.

Tudo, menos o grau zero da alarvidade política que os comentadores mostraram nos últimos dias.

Artigo publicado em jralmeida.com