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Nepal: Greve geral cria vácuo de poder

Que nome dar a uma greve geral que vai completar uma semana? Quantas vezes se viu uma greve dessa natureza na história? Por Tomi Mori, de Tóquio, para o Esquerda.net.

Cartazes do PC do NepalQue nome dar a uma greve geral que vai completar uma semana? Quantas vezes se viu uma greve dessa natureza na história? Por Tomi Mori, de Tóquio, para o Esquerda.net.

No 1º de Maio, os nepaleses fizeram uma manifestação de meio milhão de pessoas em Kathmandu. No dia seguinte iniciaram a greve geral por tempo indeterminado que dura até ao momento. A greve geral convocada pelo Partido Comunista do Nepal Unificado, de orientação maoísta, criou uma situação politica extraordinária. Milhares de activistas controlam o país, na sua maioria quadros do PC do N (U). Eles organizam os piquetes que controlam Kathmandu, a capital nepalesa, e as principais cidades do país. Com a continuidade da mobilização, já se registaram alguns pequenos confrontos entre os activistas e sectores contrários à paralisação

Que nome dar a uma greve geral que vai completar uma semana? Quantas vezes se viu uma greve dessa natureza na história do movimento operário? Na imprensa lemos palavras como crise, impasse politico. As lideranças políticas propõem um pacote político, uma saída de consenso para terminar a crise, com a formação de um governo incluindo os maoístas. Mas, até ao momento, não há nenhum consenso e nenhum sinal de que a greve será suspensa. O que vemos é uma greve geral revolucionária, independente do curso que tomará nos próximos dias, que criou um vácuo de poder, uma crise de poder de conteúdo revolucionário.

Terra natal de Sidharta Gautama, o Buda

O Nepal, encravado entre a China e a Índia, e terra natal de Sidharta Gautama, o Buda; detentor de uma paisagem cinematográfica que comporta oito dos mais elevados picos do planeta, entre eles o Sagarmatha, o Monte Everest, também possui uma população de 30 milhões, sendo que metade de sua população activa está desempregada, forçando metade do país a viver abaixo da linha de miséria com pouco mais de um dólar por dia. O budismo é uma religião minoritária, sendo a maioria hinduista.

O Nepal é um pais pobre, o 115º na lista da economia mundial, com uma grande disparidade económica Os ricos, que somam 10% da população, detêm 40% da riqueza nacional. A agricultura é responsável por 40% do PIB. E as condições do país, junto com a crise politica dos últimos 20 anos, fazem com que o turismo e os investimentos estrangeiros se encontrem em declínio e não haja nenhuma possibilidade de desenvolvimento industrial.

Na falta de emprego no seu próprio país, cerca de 700.000 nepaleses estão a trabalhar no exterior, em países como a Índia, Malásia ou do Golfo Pérsico. Esses imigrantes são responsáveis pelo envio de cerca de mil milhões de dólares anuais, num pais em que o PIB é de 12 mil milhões (dados de 2008). Mas as remessas também diminuíram em função da crise mundial. O único consenso que há no Nepal é de que a economia está a deteriorar-se. Estes dados formam a base sobre a qual se movimenta a actual crise politica.

Escravidão foi legalmente abolida em 1924

Se a miséria não fosse tão grande, o Nepal seria uma país de conto de fadas. Um distante e belo país encravado no Himalaia, governado por reis durante os últimos séculos. A escravidão foi legalmente abolida somente em 1924. Os monarcas nepaleses mantiveram o país isolado e no mais completo atraso em todos as áreas da actividade humana. Na década de 50 foi feita uma curta experiência democrática, destruída pelo rei Mahendra em 1959. De 1959 a 1989, o Nepal foi governado pela monarquia sem a participação de partidos no processo político. Em 1989, o movimento popular forçou o então rei Birendra a aceitar reformas constitucionais e o estabelecimento de um sistema parlamentar empossado em 1991.

O comunismo nepalês também nasceu atrasado. O Partido Comunista do Nepal foi fundado no exílio, em Calcutá, na Índia, em Abril de 1949. O mundo já havia passado então por duas guerras mundiais. E o PCN não diferia em conteúdo dos PCs em todos os países.

A revolução chinesa, que provocou um profundo impacto na vanguarda revolucionaria asiática, também teve a sua repercussão no Nepal e no PC local. Em 1994 foi formado o Partido Comunista do Nepal (M), maoísta, com a dissidência dirigida por Pushpa Kamal Dahal, conhecido como camarada Prachanda, O Pc do N (M) unificou-se com o Partido Comunista do Nepal Centro Unido-Masal (PC do N - Centro Unido-Masal), dando origem em 2009 ao actual PC do N (U). O partido reivindica a tradição de Marx, Engels, Lenine e Mao e defende o "Prachanda Path", que considera ser a teoria da revolução nepalesa.

Em 1996, o Pc do N (M) lançou a guerra popular no Nepal e passou a dirigir concretamente várias localidades como Rolpa, Rukum, Jajarkot, Salyam, Pyuthan e Kalikot, estendendo a sua influência por todo o país. Em 2001 formaram o Exército de Libertação Popular, dirigido por Prachanda até à sua ascensão a primeiro ministro. A guerra popular custou milhares de vidas e levou também ao assassinato do rei Birendra, da rainha Aiswarya e do príncipe Dipendra, acontecimento ainda não esclarecido. A guerra popular durou dez anos até a assinatura do Compreensivo Acordo de Paz em 2006.

Após o assassinato do rei Birendra, o seu filho Gyanendra assumiu o trono e tentou aniquilar as forças maoístas. Em 2005, Gyanendra demitiu o governo, assumindo o controlo do poder. Um poderoso movimento popular protagonizando inúmeras manifestações levou à formação do acordo de paz, em 2006, que culminou com a posterior abolição da monarquia.

O fim da Monarquia

Em 2008 foram realizadas eleições para a Assembleia Constituinte. Nelas os maoístas obtiveram maioria, e nesse mesmo ano foi constituída a jovem Republica Democrática do Nepal. A assembleia votou um prazo de 15 dias para o rei sair do Palácio Real de Narayanhiti, que seria transformado num museu. Pushpa Kamal Dahal, dirigente maoísta, tornou-se primeiro-ministro, encabeçando um governo de frente popular.

Em 2009, após alguns meses no poder, o PC do N (U) saiu do governo, rompendo a coligação devido à recusa de demitir o comandante do Exército. Por trás dessa crise estava a recusa em incorporar os cerca de 20.000 soldados do Exército de Libertação Popular, acantonados em várias partes do pais, às fileiras do exército regular. A saída do PC do N (U) do governo apenas fez com que a crise se aprofundasse. Um ano depois, chegamos à situação actual, de crise aguda. O governo não governa. O PC do N (U) tem de dar resposta às suas próprias bases, numa situação em que elas não vêem nenhuma saída clara numa economia que se deteriora. A militância, que é revolucionária, controla o pais. A revolução nepalesa aprofunda-se e não deu ainda a sua ultima palavra.

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