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Michael Moore: É preciso muito esforço para despertar as pessoas

Um dos cartazes de SickoEstreou quinta feira em Portugal Sicko, o demolidor documentário de Michael Moore sobre o serviço de saúde pública dos Estados Unidos (que inclui uma comparação com o mesmo serviço em Cuba). Para assinalar o evento, o Esquerda.net publica extractos de uma entrevista publicada há duas semanas no diário argentino Página 12. Nela, o realizador fala sobre o filme e sobre as próximas eleições nos Estados Unidos. E alerta: "os democratas são profissionais em estragar tudo".

 

"Os Estados Unidos são um país orientado para a esquerda"

Por Luciano Monteagudo, Página 12

Optimista por natureza, o director de Farenheit 9/11 pensa que com Sicko pode contribuir para melhorar o sistema de saúde do seu país e que nas próximas eleições americanas finalmente vai acabar o reinado do Partido Republicano.

"Eu nem sequer acreditaria nas boas coisas que se dizem de mim, tanta é a manipulação que há nos média americanos. Fui à missa no domingo passado, quem acreditaria nisso? Esse sou eu, sou assim, em criança fui seminarista porque queria ser sacerdote católico; fui escuteiro e no início do século XX o meu avô foi líder do Partido Republicano, quando a palavra 'conservador' não era uma má palavra, o que significa que não se gastava o dinheiro que não se tinha, que se 'conservava' a água e o meio ambiente... 'Conservar' era uma boa palavra..."

Assim se apresenta Michael Moore - ténis, bermudas, o boné vermelho de beisebol que não pode faltar - na conferência de imprensa com um punhado de jornalistas canadianos, à qual teve acesso o Página 12. O marco é o Festival Internacional de Filmes de Toronto, onde Moore veio apresentar o seu novo documentário, Captain Mike Across America, nas suas próprias palavras um "concert film" que dá conta da sua maratona de viagens que o próprio realizou a fazer campanha contra George Bush, durante as eleições de 2004, um esforço que Moore não considera um fracasso, mas sim o começo de um despertar político da juventude americana com vistas às eleições do próximo ano. Mas foi Sicko que lhe devolveu o primeiro plano do debate político e a atenção dos talk shows mais vistos do seu país.

 

Depois de Sicko, Oprah Winfrey já o levou duas vezes ao seu programa. Porquê?

Oprah decidiu que este é um tema para ela, que neste ano de campanha as pessoas estão interessadas no que acontece com a saúde pública, que é uma coisa que interessa a todo o país, à margem das suas tendências políticas. Depois da minha primeira aparição no programa, uma enorme quantidade de gente telefonou para a produção para contar histórias de graves problemas de desatenção médica, os momentos terríveis que tiveram que passar, e muitas destas histórias são mais eloquentes ainda do que as que eu exibo em Sicko. Oprah encontrou aí um tema e vai acompanhá-lo, porque é o que interessa ao público.

 

Como foram estes últimos meses, considerando que depois de mais de dois anos de silêncio apresenta não um mas dois filmes consecutivos e que Sicko está agora no centro das atenções?

Tenho sentimentos desencontrados a respeito disso. Por um lado, estou feliz com os meus dois filmes, com a possibilidade de dizer o que penso publicamente, em diferentes tribunas, que o tema da saúde volte a ser notícia... Mas em termos mais pessoais, estou um pouco cansado - devo confessar - de ter de alimentar esta energia todos os dias. Sinto que é preciso muito tempo e esforço para despertar as pessoas e provocar mudanças reais. Mas ainda assim foi um Verão excelente e estou muito agradecido de que tanta gente tenha ido ver Sicko. Mais, Harvey Weinstein (o produtor) pensa relançá-lo agora novamente, com o início do novo semestre universitário, para que haja mais oportunidades de vê-lo antes da edição em DVD.

 

Pensa que Sicko pode ajudar a provocar uma mudança na política de saúde dos Estados Unidos?

Uma das empresas mais sérias do meu país, a Kaiser Polls, fez uma sondagem sobre Sicko. O filme já recolheu uns 24 ou 25 milhões de dólares, o que implica que foi visto por uns quatro milhões de espectadores. Mas a sondagem assinala que 46% dos norte-americanos recebeu o impacto da estreia do filme de uma ou de outra forma. Que acontece? Cada um desses quatro milhões de espectadores fala ou comenta o filme junto de outras dez pessoas, o que faz com que já estejamos a pensar em 40 milhões de pessoas. E depois cada um desses 40 milhões fala com outras cinco pessoas e já estamos em 200 milhões. É um efeito cascata. Agora até os pré-candidatos presidenciais têm de ir ver o filme, porque se fala de saúde pública nos média. O seja: Sicko tem um alcance que vai muito mais além do que acontece nas salas.

 

Sente o peso dessa responsabilidade?

O que sinto é que - como muitas das pessoas a quem me dirijo - venho da classe trabalhadora, só cheguei ao nível secundário na educação, mas tenho o privilégio de ser ouvido, de ter voz, e posso falar pelos que não têm, que não podem fazer um filme, publicar um livro ou aparecer na televisão. E essa é a minha primeira responsabilidade: falar por aqueles que trabalham por cinco dólares e quinze centavos à hora, que não têm seguro de saúde, que perderam o trabalho, que são vítimas da proliferação de armas de fogo, cujos filhos estão no Iraque numa guerra ilegal. Por isso, aceito essa responsabilidade, com os prós e os contras que vêm dela, e levanto o mais alto que posso a minha voz para mudar as coisas que acho que é preciso mudar.

 

Acha que Bush tem muitos opositores?

Tenho dito isto há muitos anos: os Estados Unidos são um país liberal, não um país conservador. A maioria dos americanos são liberals. Odeiam esta palavra, não a usam nunca, mas se lhes perguntamos se a mulher deve ter as mesmas oportunidades laborais e o mesmo salário que o homem, se o salário mínimo deve ser aumentado, se devem ter melhor cobertura de saúde, enfim, a lista toda, a maioria responde de acordo a posturas liberais em cada aspecto em particular.

 

Salvo na pena de morte...

Salvo na pena de morte, é verdade, mas mesmo isso está a mudar. Até há pouco, 75% do país estava a favor, e agora esse número baixou para 55%. Ou seja, vamos bem. Repito: os Estados Unidos são um país cuja população é liberal, com um pensamento que se orienta basicamente para a esquerda, e, pelo contrário, o que reflectem os meios é um país conservador governado por conservadores.

 

Mas os conservadores ganham...

É verdade. Mas a minha resposta a isso é que aqueles que votam (que não são a maioria) votam por alguém que sabem exactamente o que vai fazer. Quando alguém vota em Reagan, sabe o que espera dele e o que vai fazer. O mesmo acontece com Bush pai e com Bush filho. Mas quando alguém vota nestes democratas que se apresentaram, não tem ideia do que vão fazer com o voto dele. Estão sempre a flutuar à mercê do vento, mudam de ideias e de discurso de um dia para o outro. Se há alguma coisa que temos de admirar nos republicanos é que eles realmente acreditam nalguma coisa e esfregam-nos na cara. Dizem que não pensam aumentar o salário mínimo apesar de 70% da população, segundo as sondagens, dizer que quer aumento. Dizem que não pensam em retirar as tropas do Iraque mesmo quando 70% da população está contra a guerra. É preciso admirar a coragem que têm. Do nosso lado não há ninguém que tenha essa coragem. E as pessoas não querem dar-se ao trabalho de ir votar num indeciso para presidente.

 

Refere-se a John Kerry?

Nunca poderíamos ter ganho a eleição no lugar de Kerry, ele é que deveria tê-lo feito. A contribuição de Bruce Springsteen, das Dixie Chicks, de Jackson Browne e de eu próprio, entre muitos outros, foram contribuições espontâneas. Cada um fez a sua digressão como uma acção cidadã. Mas claramente o problema era o candidato. Por exemplo, na minha digressão procurei não coincidir com Kerry, mas em Albuquerque, no Novo México, estivemos na cidade nas mesmas 24 horas. E enquanto nós enchemos um estádio de 12 mil pessoas, ele apenas juntou 800 nas proximidades do aeroporto. Não sei o que dizer. Muita gente pensa que não era candidato suficiente e que não se lhe pode pedir que seja o que não é. E agora vai depender de quem for o candidato democrata nas próximas eleições para decidir se vou trabalhar forte com ele ou se simplesmente vou votar nele. Porque não posso trabalhar com alguém com quem não compartilho os pontos de vista. Digo-o muito francamente: se votaste a favor desta guerra, não sei como ajudar a aproximar das urnas aqueles que como eu - e somos milhões - estão contra a guerra. Mas tenho claro que não podemos ter outros quatro anos de governo republicano. Temos que por fim a isso. Não podem continuar.

 

Como imagina que vão ser as próximas eleições e quem acha que vai ser o candidato democrata?

Bom, os democratas são profissionais de estragar tudo. As perspectivas são as melhores, as sondagens indicam que as pessoas já estão cansadas de votar nos republicanos, mas não se deve dar nada por seguro. Já aconteceu na eleição anterior: Kerry tinha intenções de voto muito superiores e acabou Bush por ganhar. Quanto aos candidatos, penso que Hillary (Clinton) vai passar muito mal as primárias porque a base mais liberal dos democratas vota nas primárias. Essa base liberal está contra a guerra e ela no Congresso votou a favor da guerra. Penso que Obama é um bom candidato, mas John Edwards também é: não quero apoiar nenhum em particular. Gostaria que Al Gore entrasse também na corrida, não porque o apoie, mas sim porque há pessoas que ainda não assimilaram o roubo de que foi vítima sete anos atrás. E Gore está contra a guerra, contra o aquecimento global, a favor de um sistema público de saúde. E cada vez que menciono o seu nome, os meus compatriotas dizem: "Teria sido um bom presidente". Por isso seria bom que corresse o risco novamente e não vejo uma razão pela qual não o faça.

 

E no campo republicano?

Nas primárias dos republicanos, os mais conservadores são os que mais votam, por isso (Rudolph) Giuliani tem mais hipóteses. E ele trabalha sobre o medo e os norte-americanos reagem muito bem ao medo. Por isso vai levantar uma vez mais a bandeira do 11 de Setembro e vai armar todo um circo com isso, porque sabe que lhe pode dar frutos. Mas espero que os bombeiros de Nova York venham dar a sua versão e revelem a verdadeira história do mayor Giuliani e as suas desastrosas decisões, antes do 11/9 e também depois.

 

Qual a sua opinião sobre a política de imigração da administração republicana?

Somos uma nação de imigrantes e isso é muito bom. Todos nós somos produto da imigração. Todos, com a excepção dos descendentes dos escravos e dos descendentes dos nativos, que são os grandes pecados que estão na origem do nosso país: a escravatura e o genocídio. Mas creio que devemos continuar a dar as boas vindas às pessoas de outros países, temos muito espaço e, se não acreditam em mim, atravessem o Kansas um dia. Parece uma terra que nunca acaba e não há muito que ver. Nesse sentido, creio que tenho uma posição diferente da de muitos compatriotas, que uma vez que entraram não querem que mais ninguém o faça.

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