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Massacre de Beit Hanoun

ISRAEL DIZ QUE FOI "ERRO TÉCNICO"
beithanoun
O primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, disse ontem que o ataque em Beit Hanoun, que resultou na morte de 18 civis palestinianos, ficou a dever-se a um erro técnico: "A direcção pretendida era um laranjal de onde tinham sido disparados tiros segundos antes. Mas não é possível garantir que quando disparamos numa direcção, por algum problema técnico, o tiro não vá para outro lado", afirmou. O ataque de Beit Hanoun foi condenado de forma unânime pela comunidade internacional.

O líder do Hamas no exílio, Khaled Meshaal, anunciou o fim das tréguas nos atentados-suicida em Israel, prometendo retaliar "com acções e não com palavras". O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, acusou Israel de ter enterrado todas as hipóteses de paz.

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Neste vídeo da CNN, com comentários acrescentados, imagens da impressionante manifestação de mulheres que na semana passada enfrentaram os tanques israelitas. Duas morreram sob as balas disparadas e outras ficaram feridas. Inacreditavelmente, o comando militar diz que disparou contra snipers que estavam entre as mulheres. Pelos vistos, novos "erros técnicos", porque só tombaram  mulheres

Um brutal aperitivo do futuro

Por Sami Abdel-Shafi na Cidade de Gaza
Publicado originalmente no Guardian de 8/11/2006

 

A estreia de Avigdor Lieberman - amplamente considerado um racista de ultra-direita - no governo de Ehud Olmert, parece já ter trazido um aperitivo do que está para vir. Durante a semana passada, a cidade de Beit Hanoun, na Faixa de Gaza, foi transformada pelo Exército israelita num ground zero. Ontem, havia mais de 260 vítimas palestinianas, com 53 mortes de mulheres, de crianças e de motoristas de ambulâncias entre eles.

O Exército israelita tinha dito que ia pôr fim aos disparos de rockets caseiros para o Sul de Israel. Muitos palestinianos discordam do uso destes rockets amadores, mas consideram a ofensiva israelita flagrantemente desproporcionada. Beit Hanoun ficou sem homens entre as idades de 16 e 45 anos na sequência de uma maciça operação de captura levada a cabo pelas tropas israelitas na noite de quinta-feira, entre o fogo de helicópteros, de tanques e de tiros de artilharia. Mulheres e crianças da cidade divulgaram apelos de ajuda urgente através das estações de rádio de Gaza. Para estas mulheres desempregadas, perder os maridos significa o colapso dos seus lares.

Na sexta de manhã, uma multidão de mulheres marchou por Beit Hanoum numa acção espontânea para ajudar amigos e parentes, depois de ouvirem os seus apelos. Desarmadas, foram alvo dos disparos dos tanques israelitas; duas mulheres morreram e outras ficaram seriamente feridas. Disse-se destas mulheres que estavam a dirigir-se a uma mesquita para libertar homens armados que se tinham refugiado ali. Filmagens de TV e entrevistas com testemunhas mostram que estas mulheres não representavam qualquer ameaça, mas foram tratadas como tal pelo exército israelita - e sem aviso.

Entretanto, o partido de Lieberman, Tisrael Beiteinu ("Israel é o Nosso Lar") tem como objectivo expulsar os palestinianos ou sujeitá-los a tal miséria que se vejam forçados a partir. As declarações dos ideólogos do partido são mais suaves: dizem que a proposta é realojar os palestinianos em áreas sob controlo da Autoridade Palestiniana. A ofensiva de Beit Hanoun é um exemplo do que eles realmente querem fazer.

Hoje, a Autoridade Palestiniana tenta governar uma Faixa de Gaza sitiada e uma Cisjordânia com cidades e aldeias sem ligação entre si. Os 1,4 milhão de palestinianos da Faixa de Gaza estão aprisionados sob as políticas de encerramento, empobrecidos e sem qualquer esperança de uma vida digna ou de desenvolvimento económico. Os 1,5 milhão de palestinianos da Cisjordânia estão a entrar rapidamente num colapso criado pelas dezenas de checkpoints militares israelitas e um muro de separação que torna impossíveis as suas vidas. As restrições de Israel às deslocações fazem os palestinianos de Jerusalém parecer como se vivessem num país longínquo, do ponto de vista dos cisjordanos ou dos habitantes de Gaza.

A actual subjugação dos palestinianos ao cerco, à pobreza e ao confinamento - além da continuidade dos ataques militares israelitas - só pode empurrar mais facilmente o nosso povo para a luta armada e para a tragédia. Tanto a comunidade internacional quanto os israelitas e palestinianos amantes da paz irão inevitavelmente enfrentar mais críticas por não conseguirem evitar este aperto de miséria. Mesmo para aqueles que nunca apoiaram o Hamas, é impossível ignorar este duplo critério: o mundo exterior aceita a nomeação de Lieberman para vice-primeiro-ministro, apesar das suas posições extremistas, enquanto boicota a administração eleita do Hamas da Autoridade Palestiniana.

Não podemos senão questionar a insistência de Olmert de que o seu vice não diminuirá quaisquer perspectivas de paz que ainda restem. As ofensivas de Israel contra Gaza punem toda uma população. Arrasar com bulldozers os sistemas de abastecimento de água e de esgoto, incluindo os que foram construídos com fundos internacionais, matando civis e sujeitando dezenas de milhares de moradores às medidas militares opressivas, representam a realidade da política israelita, quaisquer que sejam os seus anunciados objectivos.

  

Sami Abdel-Shafi é sócio do Emerge Consulting Group, da Cidade de Gaza - [email protected]

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