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A luta pela Eurásia no golpe do Quirguistão

A situação continua instável no Quirguistão depois do golpe de Estado que afastou o presidente da capital. Este refugiou-se no Sul e promete resistir. Moscovo e Washington contam perdas e ganhos.

A situação estratégica é a maior riqueza do Quirguistão”, sublinham os jornalistas.A situação continua instável no Quirguistão depois do golpe de Estado que afastou o presidente da capital. Este refugiou-se no Sul e promete resistir. Moscovo e Washington contam perdas e ganhos.

 

O golpe de Estado no Quirguistão conduzido por sectores da oposição e apoiado, até ao momento, pelo aparelho militar, afastou Burmanbek Bakaev do palácio presidencial depois de um conjunto de manifestações populares nas ruas de Bishek, a capital, e reprimidas por ordem do presidente. As vítimas mortais estão calculadas entre 75 e 100, havendo notícias de novos focos de violência durante o dia de quinta-feira tanto na capital como no Sul do País.

As manifestações populares surgiram como protesto contra as consequências da crise económica no Quirguistão, reflectida recentemente em aumentos que duplicaram por dois e por três os preços da electricidade e da energia em geral, desencadeando subidas em cadeia do custo de vida. A oposição enquadrou esses movimentos e associou-os ao descontentamento contra a actuação de Bakaev como presidente, acusado de nepotismo, favorecimento étnico e de clãs.

A ex-ministra dos Negócios Estrangeiros, Rosa Otunbaeva, assumiu a presidência do governo provisório depois da fuga do presidente, e prometeu a realização de eleições presidenciais democráticas no prazo de seis meses, comprometendo-se também a não alterar o status quo das relações actuais do Quirguistão com a Rússia e os Estados Unidos.

O Quirguistão, independente desde 1991, é uma antiga república soviética da Ásia Central e tem um papel estratégico na guerra do Afeganistão como teve durante a presença militar soviética neste país. Os Estados Unidos e a NATO utilizam a base de militar de Manas desde 2001 como um entreposto estratégico de tropas e material de guerra para o Afeganistão. A Rússia controla a base militar de Kant, próxima de Bishek.

No mesmo dia em que Estados Unidos e a Rússia assinaram em Praga um acordo de controlo de armamento, as duas potências surgiram enredadas nas contas sobre perdas e ganhos relativos resultantes do golpe no Quirguistão, país montanhoso, sem saída para o mar mas inserido no contexto estratégico da Eurásia, considerado fulcral para os poderes que desejam controlar o mundo.

O presidente Kurmanbek Bakaev subiu ao poder em 2005 na sequência da chamada “revolução das tulipas” – uma das várias revoluções floridas e coloridas que se registaram em antigas repúblicas soviéticas e dos Balcãs, apoiadas pelos Estados Unidos e a União Europeia, para “instaurar a democracia”. Até então, o Quirguistão fora governado sob a tutela de Askar Akaev, antigo dirigente soviético, acusado de pretender manter-se no poder à custa de fraudes eleitorais.

Bakaev foi agora acusado do mesmo comportamento depois de ter sido reeleito no cargo. “Ele roubou a nossa revolução”, declarou a nova primeira ministra pretendendo dar o sinal de que o golpe é um regresso ao espírito do movimento das tulipas. Otunbaeva viveu parte da sua vida nos Estados Unidos da América e, segundo analistas universitários norte-americanos, também tem muito boas relações com Vladimir Putin, o primeiro ministro russo, com quem já conversou telefonicamente. Segundo os mesmos analistas, Rosa Otunbaeva e outros opositores estiveram há um mês em Moscovo, onde se encontraram com a cúpula do partido de Putin. Daí que os mesmos analistas considerem a Rússia a primeira vencedora do golpe uma vez que os Estados Unidos e a União Europeia terão “silenciado” os desvios de Bakaev em relação ao espírito inicial da revolução.

Bakaev, no entanto, tornara-se polémico nos últimos dois anos depois de ter manifestado a disposição de fechar a base da NATO em Manas como consequência do facto de a Rússia ter emprestado dois mil milhões de dólares ao Quirguistão em condições consideradas favoráveis. Algum tempo depois, o presidente voltou atrás com a sua decisão em relação à base de Manas depois de os Estados Unidos terem triplicado o valor do aluguer.

Durante o golpe, Bakaev fugiu de Bishek e refugiou-se no Sul, a sua região de origem. O Quirguistão caracteriza-se por uma divisão social e política muito acentuada entre o Norte e o Sul, sendo esta região essencialmente camponesa e conservadora em oposição ao elitismo político e à cultura urbana dominantes nas regiões setentrionais.

As acusações da oposição a Bakaev inserem-se num contexto de suposto favorecimento dos interesses sulistas pelo presidente, quebrando a tradicional relação de forças favorável à influência política nortista. O presidente afastado refugiou-se, segundo fontes do novo governo, na sua cidade sulista natal de Djalalabad, onde estará a rodear-se de apoiantes. “Sou o presidente, não me demito nem demitirei”, disse Bakaev, deixando antever a possibilidade de resistir ao golpe.

Uma vez desencadeada a actual crise, a União Europeia e a Rússia prometeram “ajuda humanitária” ao Quirguistão. Putin anunciou entretanto o envio de 150 paraquedistas, alegadamente para proteger os quadros militares russos em serviço na base de Kant. Os Estados Unidos mantêm o silêncio procurando essencialmente manter a fluidez do funcionamento da base de Manas, por onde passam por mês 35 mil soldados da NATO envolvidos na guerra do Afeganistão.

Rosa Otunbaeva, a nova primeira ministra, prometeu que “tudo continuará na mesma” nas relações com as duas potências que utilizam bases militares no país. Dentro de meses, porém, segundo jornalistas de jornais de Bishek, é seguro que “o leilão vai continuar” e os Estados Unidos e a Rússia vão ter de acorrer de novo “com licitações para usar as bases militares”. “A situação estratégica é a maior riqueza do Quirguistão”, sublinham os jornalistas lembrando que o seu país é essencialmente montanhoso e agrícola embora as riquezas em ouro e urânio não sejam irrelevantes para quem pretenda ter influência no país. O Quirguistão tem cerca de 200 mil quilómetros quadrados e pouco mais de 5,3 milhões de habitantes; faz fronteiras com o Casaquistão, o Uzbequistão, o Tajiquistão e a China, país que procura igualmente ter influência em Bishek e está atento aos movimentos de Washington e Moscovo.


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu

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