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José Sá Fernandes: "Lisboa vai mudar de rumo"

Foto de Paulete MatosO comício-festa da candidatura de José Sá Fernandes levou algumas centenas de lisboetas ao Largo do Carmo na noite de sexta-feira. O candidato lembrou a promessa eleitoral de há dois anos, quando disse que consigo na vereação, "os lisboetas iam a ficar o que se passa na Câmara". Agora, quer continuar a fazer frente aos "interesses instalados" e a apresentar propostas para mudar uma cidade que é "uma das mais belas da Europa" mas onde "tudo se faz ao contrário do que devia ser". Veja aqui as fotos do comício e o discurso de José Sá Fernandes.

José Sá Fernandes não deixou escapar as acusações que os candidatos dos partidos com responsabilidades recentes na gestão da Câmara lhe têm lançado na campanha eleitoral. E entusiasmou os presentes ao afirmar-se "culpado" de pôr a cidade à frente dos interesses dos especuladores imobiliários e dos clubes de futebol, de denunciar os subornos e a corrupção na Câmara, de não deixar que se façam obras que ponham em risco a segurança dos cidadãos, ou de querer acabar com as mordomias e o desperdício no aparelho camarário e nas empresas municipais: "Durante esta campanha parece muitas vezes que somos nós, e não quem esteve no poder, que está a ser julgado. Ainda bem. Faríamos tudo de novo. Faremos tudo de novo. E queremos ser julgados por isso mesmo", disse José Sá Fernandes.

O candidato lançou duras críticas aos responsáveis pelo governo da cidade nos últimos anos, que levaram a capital à situação de descontrolo financeiro e à paralisia da acção do município. Para Sá Fernandes, eles são os "embaixadores do passado em Lisboa: se falharam no passado, não são a resposta para o futuro". O balanço da acção do vereador e das iniciativas que levou à aprovação da Câmara foi também recordado: "Fizemos propostas e muitas foram aprovadas. Fomos a lista da oposição que mais propostas apresentou. Em apenas um ano apresentámos mais do que qualquer vereador da oposição alguma fizera em mandatos de quatro anos." O contraste com a acção dos restantes candidatos foi também sublinhado por Sá Fernandes, quando afirmou que Lisboao poder "foi governada nos últimos trinta anos por um enorme centrão, que foi do PCP ao CDS e que se alternou para deixar sempre tudo na mesma".

Sá Fernandes não deixou de fora o assunto quente dos negócios da Câmara com a Bragaparques e deixou a promessa: "Vamos forçar ao esclarecimento de todos os negócios entre a Câmara e a Bragaparques. E vamos conseguir que a permuta dos terrenos da Feira Popular e do Parque Mayer seja anulada". 

No final do discurso, José Sá Fernandes afirmou-se esperançado em como "Lisboa vai mudar de rumo. É para isso que estivemos na Câmara nos últimos dois anos, é para isso que estaremos nos próximos dois". Mas para que isso aconteça, "o vosso voto faz muita, muita falta" no dia 15, concluíu o candidato. O combate à abstenção será um dos assuntos dominantes na recta final da campanha. 

Francisco Louçã abriu o comício de campanha e não poupou o governo, a propósito do afastamento de funcionários por críticas ao PS: "O governo de José Sócrates persegue todos os críticos e pratica a pior forma de todos os autoritarismos, o autoritarismo social". Num clima que classifica de "cavaquismo cor-de-rosa", a colocação de militantes socialistas e até aliados do CDS no lugar dos críticos afastados também fez parte da intervenção de Louçã: "o PS é hoje um centro de colocações para os amigos, de "tachismos", de favorecimentos", concluíu o dirigente do Bloco.

Louçã sublinhou a importância da acção de José Sá Fernandes e do Bloco de Esquerda na vereação para defender o município de negócios prejudiciais ao interesse público, e das campanhas promovidas contra o vereador independente, por parte dos representantes desses negócios. "Sigam o cheiro do dinheiro", alertou o coordenador da direção bloquista, referindo-se a alguns dos casos que envolveram nos últimos anos \o município lisboeta, construtores e promotores imobiliários.

Após os discursos, a festa prosseguiu com o concerto dos O'questrada, que fizeram questão de afirmar ser a primeira vez que pisavam um palco da política e que o faziam com prazer por se tratar desta candidatura. A alegria da banda contagiou os presentes, que dançaram pela noite fora no Largo do Carmo. 

Este sábado é a vez de Benfica receber o candidato para uma sessão pública seguida de um concerto com "The Off Jazz Quartet". É ás 21h na Junta de Freguesia de Benfica, e desta vez José Sá Fernandes conta com a presença do líder parlamentar bloquista, Luís Fazenda.


 

Fotos de Paulete Matos:

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 Intervenção de José Sá Fernandes 

 

Boa noite,

Somos privilegiados.
Vivemos numa cidade magnifica. Vivemos à frente de um rio que é quase um mar.
Vivemos numa cidade que se pode ver a si própria de miradouros e praças.
Uma cidade com recantos escondidos. Uma cidade que leva uma vida inteira para conhecer.
Vivemos numa cidade com uma escala humana.
Ao lado de praias. Ao lado de serras.
Vivemos numa cidade que parece destinada para se viver bem.

Mas  nesta cidade, que tem tudo para ser perfeita, tem sido tudo feito ao contrário.
Tem os lugares e o clima para se encher de esplanadas.
Mas não as tem, porque tudo se perde na burocracia dos poderes públicos.

Tem caminhos feitos para se passear.
Mas não conseguimos andar nas ruas, porque os passeios estão atulhados de carros.

Tem espaço para o verde.
Mas ele não existe, porque a cidade se enche de betão à mesma rapidez com que se esvazia de pessoas.

É a capital do país.
Mas está cada vez mais deserta e envelhecida.

É a entrada Ocidental da Europa.
Mas falta-lhe vitalidade económica.

Tem gente de todos os lugares, de todas as raças, é a cidade mais cosmopolita do país.
Mas a diversidade vive escondida em guetos, maltratados e esquecidos pelos poderes públicos.

Lisboa é uma das cidades mais belas da Europa. Lisboa podia ser uma das melhores cidades da Europa para viver.

Mas vive-se mal em Lisboa.
Pensem só neste número: há 25 anos viviam aqui 800 mil lisboetas. Hoje vivem pouco mais de 500 mil.

Há 70 mil casas vazias. E, mesmo assim, as casas continuam caras. E mesmo assim constroem-se mais casas, enquanto o que existe se degrada.
Tudo ao contrário do que devia ser.

Mais de 400 mil carros invadem Lisboa todos os dias. E mesmo assim os poderes públicos continuam a gastar dinheiro para que seja mais fácil trazer carros para a cidade.
Tudo ao contrário do que devia ser.

Começámos a realojar as populações que viviam em bairros de lata muito depois das outras cidades europeias.
Podíamos ter aprendido com elas.
Mas construímos os mesmos bairros infernais que nessas cidades já se lamentavam.
Enfiámos a miséria dos bairros de lata em prédios construídos nos limites da cidade, nos piores terrenos, tudo do zero, enquanto pela cidade há dezenas de milhares de casas vazias, com todas as infraestruturas e um tecido social consolidado.
Fizeram-se guetos quando já se sabia como fazer a integração.
Tudo ao contrário do que devia ser.

Durante anos, PS e PSD, CDS e PCP, encheram a Câmara de clientelas, fizeram empresas municipais e meteram lá amigos e quem tinha cartão, enquanto os funcionários mais competentes eram esquecidos e desaproveitados.
Tudo ao contrário do que devia ser.

Durante anos deixou-se construir ao sabor de favores, de influências. Desbaratou-se o património da Câmara. Descaracterizou-se a cidade.

Durante anos a autarquia, a maior autarquia do país, foi sendo dominada pela corrupção, pelos favores, pelo negócio.

Disse, há dois anos, que quando chegasse à Câmara os lisboetas saberiam o que lá se passava. Souberam.
Mas também tinhamos consciência de que o difícil não seria a denúncia. O combate viria depois. Ele aí está.

Sabíamos que quem se julga acima da lei faria tudo para que pagássemos o preço da nossa ousadia. A ousadia de devolver a cidade aos lisboetas e a verdade a esta Câmara.

Sabíamos que os empreiteiros que tratam esta cidade como se lhes pertencesse, não aceitariam que tudo mudasse.

Sabíamos que os clubes de futebol que tratam as consciências dos cidadãos como se fosse coisa sua, não aceitariam regras claras para todos.

Sabíamos que gestores habituados a tratar os dinheiros públicos como se fossem lucros de uma empresa sua, não aceitariam a clareza.

Sabíamos que viriam a calúnia, as manipulações...
Nunca desistimos. Nunca desistiremos.  Porque as lutas mais duras são as que valem a pena.

Durante esta campanha parece muitas vezes que somos nós, e não quem esteve no poder, que está a ser julgado. Ainda bem. Faríamos tudo de novo. Faremos tudo de novo. E queremos ser julgados por isso mesmo.

Por me indignar com prémios milionários para gestores municipais, que são proibidos a gestores de empresas nacionais.
Declaro-me culpado. É para continuar.

Por, como cidadão, exigir todas as medidas de segurança em obras públicas.
Declaro-me culpado. É para continuar.

Por defender os interesses da cidade perante qualquer clube de futebol, qualquer empresa ou qualquer pressão.
Declaro-me culpado. É para continuar.

Por denunciar permutas de terrenos em que a Câmara perde milhões de euros.
Declaro-me culpado. É para continuar.

Por ajudar a justiça a punir uma tentativa de suborno.
Declaro-me culpado. É para continuar.

Pelas lutas que travámos e que valia a pena travar, somos todos culpados. E temos orgulho nisso. E vamos continuar.

Nestas eleições decide-se o futuro desta cidade. Nestas eleições decide-se se, finalmente, viraremos uma página ou se continuaremos como de costume, na alternância que se justifica a si mesma e que se desculpa sempre com os erros dos outros para continuar a cometer os mesmos erros.

Os lisboetas sabem que nossa presença na Câmara é uma garantia.

É uma garantia de que cada negócio não será tratado no segredo dos gabinetes e de que a corrupção não será tolerada.
Porque a corrupção é mais do que um crime. De cada vez que o tráfico de influências, a promiscuidade com os interesses económicos e até o suborno determinam uma decisão, é o voto do cidadão que é roubado. É a democracia que é enganada.

Mas é também uma garantia de que em Lisboa não se repetirá a vergonha que assistimos no país.
Não deixaremos.

Não deixaremos que a Câmara seja tomada a saque por uma clientela partidária, como está a acontecer no país.

Não deixaremos que a prepotência sobre os cidadãos se instale na câmara, como se está a instalar no país.

Não deixaremos que a insensibilidade social seja a imagem de marca do poder autárquico, como é a imagem de marca do poder no país.

Não deixaremos que os funcionários sejam espezinhados e insultados pela Câmara, como são insultados e espezinhados os funcionários públicos pelo Governo.

Não deixaremos que as decisões sejam tomadas nas costas das populações, de forma arrogante e desprezando a sua vontade, como é feito no país.

Fizemos oposição firme perante uma Câmara incompetente, despesista, trapalhona e pouco séria.
Não queremos no lugar dela uma Câmara autoritária, insensível aos problemas das populações e a olhar para o seu próprio umbigo.
Para melhor, estamos aqui. Para pior, já basta assim.

Mas não ficámos durante estes dois anos nem ficaremos nos próximos dois pela denúncia. Fizemos propostas e muitas foram aprovadas. Fomos a lista da oposição que mais propostas apresentou. Em apenas um ano apresentámos mais do que qualquer vereador da oposição alguma fizera em mandatos de quatro anos.

Por isso, nesta campanha, não escolhemos o caminho fácil do discurso redondo e sem conteúdo.

Estas eleições eram urgentes para clarificar o caminho a seguir.
Por isso, exige-se clareza a quem pede o voto aos lisboetas. Não basta esperar ganhar porque os outros governaram mal. É preciso que cada um diga o que quer. Que cada um diga aquilo que não está disposto a trocar por uma paz podre sem mudança.

Está a instalar-se nesta campanha um clima de facilidades, onde ninguém parece ter responsabilidades pelo passado. Uma espécie de União Nacional em que todos cabem.

A Câmara foi governada nos últimos trinta anos por um enorme centrão, que foi do PCP ao CDS e que se alternou para deixar sempre tudo na mesma.
Concorremos há dois anos para quebrar este consenso. Um consenso que sempre tratou por tu os empreiteiros e com distância os cidadãos.
Não será concerteza para que nada mude que concorremos agora.

Temos um programa claro. Provavelmente o mais claro e mais exacto nos seus termos que vai a votos nestas eleições. E o nosso programa, as nossas propostas, são o nosso compromisso. Os vereadores que forem eleitos por esta lista vão bater-se por ele com toda a sua energia.
 
Porque não desistimos, vamos conseguir a aplicação do Plano de Gonçalo Ribeiro Telles e vamos travar a construção em espaços que devem ser verdes.
O ambiente não é para nós uma flor na lapela. É uma forma de pensar a cidade.

Vamos forçar ao esclarecimento de todos os negócios entre a Câmara e a Bragaparques. E vamos conseguir que a permuta dos terrenos da Feira Popular e do Parque Mayer seja anulada. Mostrámos que o combate à corrupção não é para nós uma promessa bem intencionada. É uma forma de estar na vida pública.

Vamos travar as novas urbanizações na frente ribeirinha, nomeadamente na Docapesca e entre o Terreiro do Paço e o Cais de Sodré.
E vamos conseguir forçar o Governo a retirar à Administração do Porto de Lisboa a tutela de toda a zona não ocupada por equipamento especificamente portuário. O Tejo é de Lisboa, não é uma coutada do Governo ou de especuladores imobiliários.

Vamos garantir que pelo menos 20% da nova construção ou reabilitação se destine a rendas e a venda a preços controlados.
Queremos que Lisboa recupere nos próximos seis anos os cinquenta mil habitantes que perdeu nos últimos seis.

Vamos garantir que as linhas de eléctricos rápidos que a Câmara aprovou por proposta nossa sejam mesmo construídas.
Vamos conseguir que sejam construídos novos parques de estacionamento apenas para residentes.
O estacionamento tem de deixar de ser uma oportunidade de negócio que esquece sempre os moradores dos bairros mais complicados.

Vamos enfrentar o despesismo de empresas municipais que só consomem recursos e não contribuem para resolver os problemas da cidade.
Em vez de apontar o dedo aos funcionários como causa de todos os males da Câmara, enfrentaremos as verdadeiras fontes de desperdício da autarquia.

Diremos o que queremos e o que não queremos.
Quanto estiver mal, diremos não. Os lisboetas sabem que o faremos com firmeza. Apresentaremos sempre alternativas, como fizemos até agora.
Quando estiver bem diremos sim e ajudaremos a melhorar esta cidade.

Com os embaixadores do passado em Lisboa somos claros: agora é para mudar. E se falharam em tudo no passado, não são a resposta para o futuro.

Com os embaixadores do presente no país também somos claros: não aplicarão na cidade a lei da rolha, não tomarão de forma despudorada os serviços da Câmara e não tratarão os lisboetas com o mesmo desrespeito com que estão a tratar o resto dos portugueses.
Não permitiremos. Cá estaremos para resistir.

Lisboa vai mudar de rumo. É para isso que estivemos na Câmara nos últimos dois anos. É para isso que estaremos nos próximos dois.

Com mais votos, com mais força e com mais vereadores. Assim queiram os lisboetas. O vosso voto faz muita, muita falta!

José Sá Fernandes
06.07.07

 

 

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