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Israel monta equipa para guerra na web

CiberguerraO Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel montou uma equipa cuja tarefa é navegar na Internet 24h por dia, disseminando boas notícias sobre Israel. Os seus membros trabalham sob disfarce e fazem tudo para desacreditar os que defendem os direitos humanos e justiça para os palestinianos.
Por Jonathan Cook, em Nazaré

 

O forte apoio a Israel expressado nas secções de conversa dos sítios web, nos fóruns da Internet, nos blogs, no Twitter e Facebook, pode não ser tudo aquilo que parece.

Foi noticiado que o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel iria estabelecer uma equipa especial e incógnita de trabalhadores cuja tarefa seria navegar na Internet 24h por dia, disseminando boas notícias sobre Israel.

Jovens israelitas sedentos de Internet, principalmente aqueles que se formaram recentemente e soldados desmobilizados com conhecimentos de línguas, estão a ser recrutados para actuarem como cibernautas normais enquanto divulgam as posições do governo sobre o conflito no Médio Oriente.

"Para todas as intenções e propósitos, a Internet é um teatro de operações no conflito israelo-palestiniano e nós temos de ser activos nesse teatro, caso contrário, perdemos", disse Ilan Shturman que é o responsável pelo projecto.

A existência de uma "equipa de Guerra na Internet"surgiu quando foi incluída no orçamento deste ano do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Cerca de 150.000 dólares foram postos de lado para a primeira fase de desenvolvimento, com um acréscimo esperado para o próximo ano.

A equipa ficará sob a autoridade de extenso departamento que já lida com aquilo a que os israelitas apelidam de hasbara, oficialmente traduzido por "explicações públicas", mas que geralmente significa propaganda. Inclui não apenas o trabalho de relações públicas do governo como também assuntos mais secretos que o ministério tem com várias organizações privadas e iniciativas que promovem a imagem de Israel na imprensa, na TV e na Internet.

Numa entrevista dada este mês ao jornal de negócios Calcalist, Shturman, o director-adjunto do departamento do hasbara, admitiu que a sua equipa estava a trabalhar sob disfarce.

"Os nossos agentes não dirão: ‘Olá, eu sou do departamento de hasbara do Ministério dos Negócios Estrangeiros e quero-lhe dizer o seguinte'. Nem se identificarão necessariamente como israelitas", disse ele. "Falarão como cibernautas e cidadãos e vão escrever respostas que parecem pessoais mas serão baseadas numa lista de mensagens que o Ministério desenvolveu."

Rona Kuperboim, colunista no Ynet, o site de notícias mais popular de Israel, denunciou a iniciativa acrescentando que era um indicador de que Israel se tinha tornado num "estado polícia do pensamento".

Disse ainda que "boas relações públicas não tornam a realidade nos Territórios Ocupados mais bonita. Estão a ser mortas crianças, lares estão a ser bombardeados e famílias estão a morrer à fome."

A sua coluna foi saudada por vários talkbackers1 que perguntaram como é que podiam candidatar-se a esse trabalho na equipa do Ministério.

O projecto é a formalização das práticas de relações públicas que o ministério desenvolveu especificamente para o ataque de Israel a Gaza em Janeiro e Fevereiro últimos.

"Durante a Operação em Gaza, apelámos às comunidades judaicas no estrangeiro e, com a sua ajuda, recrutámos alguns milhares de voluntários que se juntaram a outros israelitas", disse o Sr. Shturman.

"Nós fornecemos o material de enquadramento e de hasbara e enviámo-los para representarem o ponto de vista de Israel no sites de notícias e em sondagens na Internet."

Não obstante ter sido criticado por organizações de direitos humanos por enganar os visitantes sobre aquilo que era mostrado nas imagens, o exército israelita também teve uma conta num dos sites mais populares no site de partilha de vídeos, YouTube, onde disponibilizava vídeos regularmente.

O sr. Shturman afirmou que durante a Guerra, o ministério tinha de concentrar as suas actividades nos sites europeus onde as audiências eram mais hostis à política de Israel. Nos lugares cimeiros da lista estariam o site da BBC News e sites árabes, acrescentou ainda.

Elon Gilado, que lidera a esquipa, disse ao Calcalist que muitas pessoas contactaram o ministério oferecendo os seus serviços durante o ataque a Gaza. "Pediam informações e depois víamos que estas eram distribuídas por toda a Internet."

Sugeriu que teria havido cooperação generalizada do governo e do Ministério da Integração a fornecer contactos de centenas de imigrantes recentes em Israel que escreveram material pró-israelita nas suas línguas maternas para sites.

Espera-se que a nova equipa aumente o grau de cooperação entre o Ministério e um grupo privado de activismo, giyus.org (Give Israel Your United Support - Dá a Israel o Teu Apoio Unido). Cerca de 50 000 activistas fizeram o download do programa designado por Megaphone que envia alertas para os seus computadores quando um artigo crítico de Israel é publicado. Posteriormente, eles devem bombardear o site com mensagens e comentários de apoio a Israel.

Nasser Rego do Ilam, um grupo baseado em Nazaré que monitoriza os média israelitas, afirmou que as organizações árabes em Israel estão entre aquelas que são um alvo regular dos grupos de hasbara para um "assassinato de carácter" e receia que esta nova equipa tente dar um aspecto mais profissional e convincente a este tipo de trabalho.

"Se estas pessoas não estão a representar-se como deve ser, podemos concluir que não se preocuparão em descrever erradamente os indivíduos e organizações de que falam. Claramente, o seu objectivo será desacreditar aqueles que defendem os direitos humanos e justiça para os palestinianos."

Quando o The National contactou o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Yigal Palmor, um representante, negou a existência da equipa da Internet, embora tenha admitido que alguns funcionários estavam a iniciar a exploração dos novos meios de comunicação.

Declinou dizer quais os comentários do sr. Shturman e do sr. Gilad foram mal descritos pelos média de língua hebraica e disse que o Ministério não tomaria nenhuma acção sobre os relatórios.

Israel desenvolveu uma aproximação cada vez mais sofisticada aos novos média desde que lançou a campanha "Marca Israel" em 2005.

Estudos de Mercado persuadiram os responsáveis de que Israel deveria publicar boas notícias sobre sucesso no mundo empresarial e publicar igualmente descobertas científicas e médicas que envolvem israelitas.

O sr. Shturman afirmou que o seu pessoal iria procurar usar os sites para melhorar "a imagem de Israel como um estado desenvolvido que contribui para a qualidade do ambiente para a humanidade".

David Saranga, chefe de relações públicas do consulado-geral de Israel em Nova Iorque, que tem pressionado para uma maior publicação de mensagens sobre Israel, defendeu que este está em desvantagem perante o activismo pró-palestiniano.

"Ao contrário do que acontece no mundo muçulmano, no qual centenas de milhões adoptaram a narrativa palestiniana contra Israel, o mundo judeu conta apenas com 13 milhões", escreveu no Ynet.

Israel está particularmente preocupado com o facto de que o apoio está a desvanecer entre as gerações mais jovens da Europa e dos EUA.

Em 2007, surgiu uma notícia sobre o Ministro dos Negócios Estrangeiros estar por detrás de uma sessão de fotografias publicada na Maxim, um revista para homens muito popular nos EUA, na qual soldados israelitas mulheres posaram em fato-de-banho.

Jonathan Cook é escritor e jornalista baseado em Nazaré, Israel. Os seus últimos livros são "Israel and the Clash of Civilisations: Iraq, Iran and the Plan to Remake the Middle East" (Pluto Press) e "Disappearing Palestine: Israel's Experiments in Human Despair" (Zed Books). O seu site é www.jkcook.net

22 de Julho de 2009

Tradução de Sofia Gomes

1 Talkbackers são indivíduos frequentadores e criadores de blogs, fóruns e comunidades de discussão na Internet.

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