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Entrevista: Os EUA não aprenderam nada com o Vietname

hersh01Nesta entrevista à revista norte-americana Rolling Stone, o veterano jornalista Seymour Hersh considera que a casa Branca cometeu no Iraque o mesmo erro que na guerra do Vietname. Num caso como no outro, "estávamos completamente errados sobre toda a premissa da guerra." A diferença é que pessoas como o vice-presidente Dick Cheney aprenderam muito sobre como gerir a situação e como esconder coisas ao longo destes anos. Hersh escandaliza-se com a imprensa, que não é capaz de apresentar os pontos de vista dos que se opõem à guerra. A solução? "Teria de se despedir ou executar 90% dos editores e directores. Teria realmente de se começar a promover a editores pessoas das redacções, não consideradas controláveis. E eles não vão fazer isso."

O Némesis de Cheney

Durante quarenta anos, Seymour Hersh tem sido o principal repórter de investigação americano. O seu último alvo? O plano secreto da Casa Branca para bombardear o Irão

Por Matt Taibbi, Rolling Stone 2/4/2007

A 29 de Maio de 1975, um assessor do então Chefe de Gabinete da Casa Branca, Donald Rumsfeld, sentou-se com um bloco amarelo e em cuidadosa caligrafia esboçou uma lista de possíveis respostas a uma prejudicial reportagem de investigação do New York Times. "Problema," escreveu o assessor. "Revelação não autorizada de informação classificada de segurança nacional por Sy Hersh e o NYT". Enumerou então cinco opções, da mais agressiva (uma investigação do FBI e uma acusação em tribunal) à menos ofensiva ("conversar informalmente com o NYT" e "Não fazer nada"). O número três da lista, no entanto, dizia "mandado de busca: ir atrás dos papéis de Hersh no seu apart."

O autor da nota? Um viperino homem do aparelho chamado Dick Cheney, que estava a ganhar reputação fazendo controlo de danos para a Casa Branca Republicana, após o desastre de Watergate. Surgindo tão pouco tempo após Nixon ter sido queimado publicamente por fazer o mesmo tipo de ataque a inimigos políticos, o memorando de Cheney era a prova de que a nova geração de líderes republicanos tinha emergido do escândalo Watergate com um único medo: serem apanhados.

Este ano, uma nota quase idêntica, com a mesma caligrafia apertada de Cheney, surgiu como prova central no julgamento de outro poderoso assessor da Casa Branca, Scooter Libby. As considerações escritas pela mão do Vice-Presidente sobre a melhor forma de se livrar de um crítico da guerra do Iraque chamado Joe Wilson, são uma sinistra lembrança do pouco que a América mudou nas últimas três décadas. Então como agora, fomos arrastados para um massacre sangrento no Terceiro Mundo, pagando a conta da operação com as almas e os corpos da próxima geração da nossa juventude. É a mesma velha história, e muitas das mesmas pessoas estão outra vez no comando.

Mas também são algumas das mesmas pessoas que estão no outro lado. Na mesma semana em que Libby foi condenado num tribunal de Washington, Seymor Hersh revelou, na New Yorker, os contornos dos planos secretos da Casa Branca para uma possível invasão do Irão. Por espantoso que seja o facto de Cheney ainda andar entre nós, um elo vivo com o nosso negro passado Nixoniano, ainda é mais espantoso que Hersh continue a ser a maior pedra no seu sapato, publicando relatos de conversas a que, aparentemente, apenas uma pessoa escondida na gaveta da secretária do Vice teria acesso. "Tenho um acesso... estou lá dentro", diz Hersh orgulhosamente. "Estou lá, mesmo quando ele está a falar com pessoas confidencialmente."

Proeminente repórter americano de investigação do último meio século, Hersh expôs a história do massacre de My Lai no Vietnam e estava atento, cerca de quatro décadas depois, quando demos por nós a contemplar no espelho a mesma cara doente, depois de Abu Ghraib. Com 70 anos, ele ainda ama claramente a sua profissão. Durante uma longa entrevista no seu escritório apinhado de Washington, Hersh raramente parou quieto, saltitando pelo escritório como uma criança, para desenterrar antigos artigos, passagens de livros obscuros e papéis enterrados nas suas múltiplas caixas de arquivos. Um incorrigível agarrado à informação, ele fica permanentemente excitado pela ideia de que a corrupção e o poder invisível estão sempre à espera de ser descobertos pelo próximo telefonema. Algures lá fora, Eles continuam a esconder-Nos a história - e isso deixa Hersh furioso.

 

Durante os anos do Watergate, dedicou muito tempo a Henry Kissinger. Se escrevesse um livro sobre a sua administração, centrar-se-ia na figura de Dick Cheney?

Absolutamente. Se há uma "pessoa Kissinger" hoje, é Cheney. Mas o que digo sobre Kissinger é: quem dera que tivéssemos um Kissinger hoje! Se tivéssemos, saberíamos que a loucura de ir para o Iraque foi explicada por alguma coisa - talvez um acordo clandestino sobre petróleo - que faria algum tipo de sentido. Kissiger sempre teve uma agenda de retaguarda. Mas no caso de Bush e da sua guerra, só há o que se vê. Compramos muito do nosso petróleo ao Médio Oriente e ainda assim estamos em guerra com o Médio Oriente. Não faz sentido.

O génio de Kissinger, se quiser, foi que ele conseguiu descobrir uma forma de sair. O seu problema foi que, tal como com este presidente, ele tinha um presidente que apenas conseguia ver a vitória à frente. É preciso dar crédito a Kissinger: ele teve muitas dificuldades com o Nixon para fazer passar todo o pacote de paz, mas fê-lo. Agora, muitas pessoas na Casa Branca sabem que o Iraque acabou, mas não há quaisquer planos para sair. Nem é permitido pensar dessa forma. Assim, o que temos é um governo que está numa terrível embrulhada, sem ideia de como sair. Excepto, como dizia um dos meus amigos, a ideia de "fuga para a frente" de ir para o Irão. Portanto, estamos mesmo em grandes apuros. Temos sérios problemas.

 

O que se tem passado com a administração Bush é comparável ou pior do que se passou na administração Nixon?

Oh, meu Deus. Muito pior. Bush é um verdadeiro radical. Ele acredita avidamente no poder executivo. E também acredita que está certo. Penso que é um revolucionário, um Trotsky. É um crente na revolução permanente. Portanto ele é muito perigoso, porque é um míssil desgovernando, é um rocket sem capacidade de aprendizagem. Não se consegue mudar o que ele quer fazer. Ele não se consegue desviar da sua política e isso é assustador quando alguém tem tanto poder como ele tem, e é tão radical como ele é, e está tão convicto da democracia - o que quer que isso queira dizer - como ele está no Médio Oriente. Eu realmente acredito que é isso que o move. Isso não quer dizer que ele não esteja interessado em petróleo. Mas eu penso realmente que ele acha que a democracia é a resposta.

 

Muitas pessoas interpretaram o seu último artigo na New Yorker como uma previsão de que vamos entrar no Irão. Mas também deixa claro que os sauditas têm razões para nos impedir de atacar o Irão.

Eu nunca disse que vamos - apenas que o planeamento está a ser feito. Planear é planear, claro. Mas, nas últimas semanas, tornou-se ininterrupto. Eles estão numa posição neste momento em que o Presidente podia acordar e coçar o seu, ah...

 

O seu, quê?

O seu nariz, e dizer "vamos". E eles iam. Isso é novo. Tornámos a coisa mais próxima. Temos grupos lá. Não se trata de entrar por terra. Se bem que, se avançássemos, teríamos de levar artilharia para as áreas costeiras do Irão para aniquilar as suas bases de mísseis anti-navios.

 

Então, a noção de que seria apenas uma campanha de bombardeamentos, não é de todo verdadeira?

Oh, não. Não se esqueça que se teria de destruir um sistema de radar muito sofisticado e o sistema de controlo dos seus mísseis. Teria de se acabar com a capacidade dos Iranianos de atacar os nossos navios.

 

Então este é o plano de "fuga para a frente"?

Acho que Bush quer resolver a crise iraniana. Pode não ser uma crise, mas ele quer resolvê-la.

 

A outra implicação do seu artigo é que nós fomos para o Iraque em resposta ao extremismo sunita e agora estamos a realinhar-nos com os extremistas sunitas para lutar contra os xiitas. É realmente assim tão simples? Somos realmente assim tão estúpidos?

Pelo que pude perceber, não há nenhum mecanismo concreto na administração para ver o lado negativo das coisas. No exército, quando fazem um estudo aprofundado, dizem qualquer coisa como: "Entregamos-lhe com os prós e contras". Habitualmente mostram-lhe com os pontos negros e tudo. Mas as pessoas na Casa Branca não querem os pontos negros. Querem apenas o lado bom. Acho que eles não conhecem todas as consequências.

 

Isso parece ser algo que Bush e Nixon têm em comum: A Casa Branca a ignorar toda a gente e a tentar governar para si mesma.

Uma das coisas que esta administração mostrou foi como a democracia é frágil. Todas as instituições que pensávamos que iam proteger-nos - particularmente a imprensa, mas também o exército, a burocracia, o congresso - falharam. Os tribunais... o júri ainda não entrou nos tribunais. Portanto, todas as coisas que pensávamos que nos iam salvar, não o fizeram. A maior falha, eu diria, é a imprensa, porque é a mais chocante.

 

Nos anos de Nixon, a imprensa voltou-se contra a guerra do Vietname depois da Ofensiva Tet, houve o Watergate, houve todas aquelas razões pelas quais a imprensa se envolveu no fim da administração Nixon. Mas não tem tido essa função no caso de Bush. Porque pensa que isto acontece?

Não sei. É muito desencorajante. Tive conversas com pessoas em altos cargos do meu antigo jornal, o Times, que sabem que há problemas sérios. Não é que eles não devessem publicar as histórias que publicam. Eles publicam artigos que representam a visão do governo, porque há pessoas no Times que têm acesso a pessoas em altos cargos no governo. Eles encontram-se com a Conselheira de Segurança Nacional, encontram-se com Condolezza Rice e têm de reflectir a sua visão. É o seu trabalho. O que não é relatado é o outro lado. O que eu sempre gostei no Times, quando trabalhei lá, é que podia escrever o que os miúdos do outro lado diziam. Mas isso agora não acontece. Não estamos a ter uma cobertura alargada da Casa Branca que represente qualquer coisa que se pareça com oposição. E há oposição - a imprensa apenas não sabe como lidar com ela.

 

 

Mas porque não há uma maior revolta da opinião pública face às atrocidades cometidas pelas tropas americanas? As pessoas tornaram-se insensíveis a essas histórias ao longo dos anos?

Penso que é apenas porque eles são iraquianos. Temos de dar a Bill Clinton o que lhe é devido: quando ele bombardeou o Kosovo em 1999, tornou-se o primeiro presidente desde a Segunda Guerra Mundial a bombardear brancos. Pense nisso. Quer dizer alguma coisa? É apenas um acaso, ou é um subproduto inevitável da supremacia branca? O peso do homem branco? Diga-me você o que é, eu não sei.


Fala bastante sobre as semelhanças entre o Iraque e o Vietname: como Lynndie England é a nova Lt. Calley, como se trata de miúdos brancos americanos de classe média-baixa a matar pessoas de outras etnias no estrangeiro. Sim, há esta semelhança - mas porque está o mesmo tipo de guerra a acontecer outra vez? É um padrão intrínseco à forma como o nosso governo funciona?

Não sei. Porque iríamos para a guerra quando não temos de ir para a guerra? É preciso muito pouca coragem para entrar em guerra. É preciso muita coragem para não entrar em guerra.

Uma vez tive um amigo - isto foi há 30 anos - de uma grande universidade. Ele estudava o problema científico que o governo tinha na detecção de testes subterrâneos de mísseis na Rússia. Levou-lhe um par de anos, mas ele resolveu o problema. Nessa altura o Chefe de Estado-Maior conjunto era contra qualquer acordo com os russos sobre os testes, porque não conseguia detectar quando eles não o cumpriam. O meu amigo foi a uma reunião do Chefe de Estado-Maior conjunto e demonstrou de forma conclusiva que havia uma forma técnica de monitorizar as explosões de mísseis dentro da Rússia, mesmo sem estar no local. Mas quando a reunião acabou, eles apenas suspiraram e disseram: "Bom, agora é melhor voltarmos à objecção política ao tratado". Onde tinha havido uma objecção científica a um tratado, estava agora uma objecção política. Então começa-se a ver que lutar pela paz é muito difícil. A segurança está nos bombardeamentos, em vez de nas negociações. É muito triste.

 

A América aprendeu alguma coisa com o Vietname? Houve alguma lição na forma como a guerra acabou, que poderia ter evitado o início desta guerra?

Quer dizer aprender com o passado? A América?

 

Sim.

Não. Fizemos o mesmo estúpido erro. Um dos argumentos para entrar no Vietname era que tínhamos de travar os comunistas chineses. Os chineses estavam por detrás de tudo - víamo-los a eles e ao Vietname do Norte como uma e a mesma coisa. Na realidade, é claro, os chineses e os vietnamitas odiavam-se - tinham lutado uns contra os outros ao longo de 1.000 anos. Quatro anos após o final da guerra, em 1979, eles entraram numa feia guerrinha entre si. Portanto, estávamos completamente errados sobre toda a premissa da guerra. E é a mesma estupidez nesta guerra, com Saddam e os terroristas.

Por outro lado, eu diria que alguns dos principais operacionais, os tipos "Cheney", aprenderam muito sobre como gerir a situação e como esconder coisas ao longo destes anos.

 

Da imprensa?

Oh, vá lá, até que ponto é difícil esconder coisas da imprensa? Eles não se preocupam muito com a imprensa imparcial. O que estes homens descobriram foi que enquanto tiverem a Fox e a imprensa radiofónica, estão bem na opinião pública. Controlam-nos fortemente. Foi o que manteve a "bola no ar" no Iraque por mais dois anos do que devia, e custou a Kerry a presidência. Mas agora acabou - o Iraque está arrumado. Muitos dos conservadores que promoveram a guerra estão agora contra ela. Muitos dos colunistas desta cidade que estavam ansiosos por esta guerra, devem realmente um pedido de desculpas. É um triste período para a imprensa americana.

 

O que pode ser feito para reparar a situação?

(Longa pausa) Teria de se despedir ou executar noventa por cento dos editores e directores. Teria realmente de se começar a promover a editores pessoas das redacções, não consideradas controláveis. E eles não vão fazer isso.

 

Qual é a principal lição que tira, recordando a história americana dos últimos 40 anos?

Não há nada para recordar. Estamos agora a lidar com os mesmos problemas com que lidávamos então. Sabemos pelos documentos do Pentágono - e para mim eles foram os documentos mais importantes jamais escritos - que a partir de 1963, Kennedy e Johnson e Nixon nos mentiram sistematicamente sobre a guerra. Lembro-me de como fiquei chocado quando os li. Portanto... nada mudou. Eles apenas se tornaram melhores a lidar com a imprensa. Nada mudou, de todo.

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