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Eleições na Alemanha

O Die Linke poderá obter 11% nas eleições do próximo Domingo na Alemanha, segundo as sondagensVão ter lugar no domingo, dia 27, as eleições para o parlamento alemão de que resultará o novo governo federal e a consequente nomeação do chanceler. De acordo com as últimas sondagens, nenhuma força política terá maioria para governar sozinha. O Die Linke poderá ultrapassar os 10%.

Por João Alexandrino Fernandes, de Tübingen, Alemanha, para o Esquerda.net

a) As sondagens

Segundo as últimas sondagens, a distribuição provável dos votos é a seguinte*:

 

Sondagem sobre as eleições na Alemanha do próximo Domingo, 27 de Setembro de 2009

 

(*Fonte: ARD, 17.10.09)

Como vencedora prevê-se a CDU (União Democrática Cristã), com uma votação na ordem dos 35%. Este é o partido da actual chanceler Angela Merkel.

Em segundo lugar, estima-se o SPD (Partido Social Democrata), com uma votação na ordem dos 26%. É o partido do anterior chanceler Gerhard Schröder.

Em terceiro lugar, o FDP (Partido Democrático Livre), com uma votação na ordem dos 14%. É o partido da direita liberal.

Em quarto lugar, prevê-se que se situe o "Die Linke", (a Esquerda), com uma votação na ordem dos 11%.

Em quinto lugar, Die Grüne, (os Verdes), com uma votação na ordem dos 10%.

Como se referiu, trata-se de meras sondagens e não de resultados definitivos. Mas deve-se dizer que estas sondagens causam apreensão. Há ainda factores cujo peso não se consegue ainda determinar, mas parece não se poder excluir que o eleitorado eleja um governo de direita neo-liberal, uma coligação CDU-FDP.

Uma incógnita, cujo peso é desconhecido, consiste na abstenção. Existe a convicção generalizada de que, nestas eleições, a abstenção poderá ser mais elevada do que habitualmente. Por esse motivo, foi lançada recentemente na televisão uma campanha de apelo à participação dos cidadãos.

b) As coligações e as não-coligações

Com base nas sondagens, nenhuma das forças políticas terá maioria para governar sozinha. Os partidos precisam, portanto, de fazer coligações. Ora, é justamente aqui que a situação se complica, porque os dois grandes partidos CDU e SPD, se não quiserem coligar-se novamente um com o outro, precisam de se coligar com os partidos mais pequenos. Porém, está criada uma situação invulgar.

O FDP afirma só ter interesse em fazer coligação com a CDU, e portanto tomou a decisão formal de fazer saber aos outros partidos e ao eleitorado alemão que só estava disponível para uma coligação com a CDU, e para formar governo. Quer dizer, ou faz uma coligação com a CDU ou o FDP vai para a oposição. E exigiu da CDU uma clarificação da sua posição.

Pressionada, a CDU teve também que vir a terreno, e assumir que o seu parceiro favorito era o FDP, e que, portanto, se comprometia a fazer coligação com este partido. Mas, claro, isto desde que exista uma maioria dos dois, o que é possível, mas ainda não é seguro.

Por outro lado, os partidos, à excepção do Die Linke, têm optado por uma forma de caracterização insólita das suas posições: em vez de definirem as suas opções, definem as suas não-opções. O que está em causa é definir com quem não se coligam. Ora, assim temos:

O FDP não se coliga com ninguém - a não ser com a CDU, e se os resultados forem suficientes para formar governo.

Os Verdes não se coligam com a CDU e o FDP, (não permitiriam, portanto, a chamada coligação "Jamaica", por causa das cores dos partidos: CDU, preto, FDP, amarelo, Grüne, verde).

O SPD e os Verdes não se coligam com o Die Linke.

Como se vê pelos números das sondagens, existem, pelo menos formalmente, duas grandes opções: CDU-FDP, em conjunto neste momento com uma previsão de cerca de 49%. Ou SPD-LINKE-GRÜNE, neste momento com uma previsão conjunta de cerca de 47%, mas que ainda se pode alterar. Se se confirmar a ligeira recuperação do SPD de que se tem falado nestes últimos dias, pode chegar-se aqui a uma situação de empate, ou mesmo à perda da maioria previsível da possível coligação CDU-FDP.

E, se assim for, ou seja, se CDU-FDP não tiverem maioria, então:

a) CDU será em qualquer circunstância o partido mais votado. Mas se não lhe chegar o seu próprio resultado em conjunto com o resultado do FDP para ter maioria, não pode formar governo.

b) Se assim fosse, a CDU poderia tentar a sempre falada coligação "Jamaica", ainda com o FDP e com a entrada dos Verdes para completarem a percentagem em falta. Porém, o FDP e os Verdes já definiram esta hipótese como uma das suas não-opções.

c) Por seu lado, o SPD, caso CDU-FDP não obtenham maioria, poderia eventualmente chegar ao poder em coligação com os Verdes e com o FDP (a chamada coligação "Semáforo": SPD, vermelho, FDP, amarelo e Verdes, verde). Mas nem os Verdes nem o FDP aceitam esta coligação e, portanto, o SPD abordou o assunto, mas não tem considerado seriamente esta hipótese.

d) O SPD poderia também fazer maioria com os Verdes e com o Die Linke - Mas dado que o SPD e os Verdes já definiram a coligação com o Die Linke como uma das suas não - opções, também não é possível.

e) De todas estas não-opções, e caso não haja uma maioria CDU-FDP, então qual é única hipótese em aberto? Obviamente, uma coligação CDU-SPD. E quem será então chanceler? Como numa coligação é sempre o partido mais votado que nomeia o chanceler, então será novamente Angela Merkel. Ou seja, fica tudo na mesma.

f) Aliás, note-se, se a CDU governar, em coligação seja com quem for, Angela Merkel será sempre a nova chanceler. Isto porque, de acordo com as sondagens, a CDU será em qualquer cenário o partido mais votado e, portanto nomeará o chanceler. Isto só não aconteceria se o governo fosse formado por uma coligação sob a chefia do SPD - que parece não ser possível.

c) O grande partido da direita

De tudo isto, o que podemos concluir?

No actual quadro político alemão, o que existe, na realidade, é um grande partido de direita, com três, chamemos-lhes assim, departamentos: o departamento CDU, o departamento FDP e o departamento SPD. Depois existe à margem um partido, que foi uma grande esperança no passado, mas que se encontra numa fase de conformismo político e consequente esvaziamento ideológico, e que são os Verdes. Por último, e sempre dentro das forças políticas representadas no parlamento alemão, existe um único partido de esquerda, que de facto tem um discurso inequivocamente orientado contra a política neo-capitalista, contra a guerra, e em favor das classes mais desfavorecidas da população, que é o Die Linke.

O grande partido da direita alemã já tinha dois departamentos tradicionais, a CDU e o FDP. Nestes últimos anos, e desde o governo de Gerhard Schröder, juntou-se-lhe o SPD, que passou nele a assumir uma função muito importante. O SPD, legitimando-se com a sua história e com a sua imagem de grande partido dos trabalhadores e dos sindicatos, executa, de facto, as políticas da direita - ou, quando em coligação, colabora e valida a sua execução-, políticas essas que a própria direita nunca poderia executar em seu próprio nome - ou apenas em seu próprio nome - sem esbarrar com a oposição frontal de uma grande parte da população.

É o que o SPD nestes últimos anos tem feito, primeiro no governo em coligação com os Verdes sob o chanceler Gerhard Schröder e depois em coligação com a CDU, sob a chanceler Angela Merkel, e é aquilo que, como tudo indica, pretende novamente fazer, ao excluir desde logo, à partida, sem quaisquer negociações, uma hipotética maioria parlamentar com os Verdes e com a participação do Die Linke, e, portanto, auto-vedando-se a si mesmo a formação de um governo de orientação social, em que o próprio SPD poderia inclusivamente, como partido mais votado desta coligação, nomear o chanceler.

Ou seja, na prática, o SPD deixa como únicas opções de governo a si próprio:

a) ou ganhar as eleições, facto muito improvável segundo as sondagens, dada a prevista grande distância percentual entre CDU e SPD.

b) ou, mesmo sem ganhar, obter uma maioria em conjunto com os Verdes, facto também muito improvável no actual quadro das sondagens.

b) ou, na hipótese mais provável, ir apoiar outra vez um governo da CDU, sob a chanceler da CDU. E isto, note-se, apenas se o grande partido da direita precisar, ou seja, na hipótese de este não conseguir chegar ao poder na sua versão preferida, a maioria CDU-FDP.

De qualquer forma, nada está ainda definitivamente resolvido. Só os números concretos que surgirem no próximo domingo decidirão. Num quadro tão complexo, qualquer diferença, ainda que pequena, pode vir a ser significativa.

João Alexandrino Fernandes

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