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Eleições a fingir não vão trazer paz ao Afeganistão

Camponeses afegãos da aldeia de Hazara. Foto de Afghan LORD, FlickRAs eleições presidenciais desta semana no Afeganistão serão uma peça sofisticada de um teatro político destinado a mostrar aos desconfortáveis eleitores ocidentais que estão a ser feitos progressos na nação devastada pela guerra depois de sete anos de ocupação liderada pelos EUA.
Por Eric Margolis

 

A maioria dos afegãos já acreditam saber quem vai ganhar as eleições: o candidato escolhido pelos Estados Unidos e os seus aliados da Nato.

A votação vai realizar-se principalmente nas áreas urbanas, sob as armas das tropas dos EUA e da Nato. O campo, dominado pelos Taliban, que muitas vezes são camponeses locais que se transformam em combatentes à luz da lua, é demasiado perigoso para esta charada eleitoral. Mais de metade do Afeganistão está sob a influência taliban de dia, 75% de noite.

Toda a eleição e a comissão eleitoral são financiadas e dirigidas pelos EUA. O mesmo no que diz respeito aos principais candidatos. Dez mil mercenários afegãos contratados pelos EUA vão policiar as votações e intimidar os eleitores. Os média afegãos financiados pelos EUA estão ocupados a promover os candidatos de Washington.

Os Taliban pashtun, um movimento religioso ferozmente anticomunista, está banido das eleições. Os pashtun são mais de metade da população do Afeganistão mas foram largamente excluídos do poder pela ocupação ocidental.

Os Taliban juraram combater a farsa eleitoral, que consideram uma arma da ocupação. Outros nacionalistas e grupos tribais que combatem a ocupação ocidental, nomeadamente o Hisbi Islami, de Gulbadin Hekmatyar, e as forças de Jalaladin Hakkani, também foram excluídos das eleições.

De facto, todos os partidos estão banidos; apenas indivíduos podem candidatar-se. Esta é uma táctica favorita de regimes não-democráticos, particularmente as ditaduras do mundo árabe apoiadas pelos EUA.

O poder real é detido pelo líder afegão Hamid Karzai, instaurado pelos EUA, cuja administração está a ser abalada por acusações de corrupção e envolvimento em tráfico de drogas. Atrás dele estão dois poderosos senhores da guerra: o ex-chefe da polícia secreta comunista Mohammed Fahim, um tajique, e o recém-regressado do exílio senhor da guerra uzbeque Rashid Dostam. Estes dois pilares do velho regime comunista afegão eram homens de confiança dos ex-ocupantes soviéticos e notórios criminosos de guerra.

O principal 'rival' do presidente Hamid Karzai, Abdullah Abdullah, é o rosto da Aliança do Norte tajique, apoiada pela Rússia e pelo Irão. O tecnocrata Ashraf Gani é outro supostamente importante candidato. Espera-se que ambos recebam altas posições no novo governo formado por Karzai. O seu principal papel é dar a impressão de uma disputa eleitoral.

Os tajiques e uzbeques do Norte, tradicionais inimigos da maioria pashtun, estão de mãos dadas com a Rússia, o Irão e a Índia, todos com interesses no Afeganistão. Continuam a dominar o vacilante regime de Karzai. A maioria pashtun é amplamente excluída do poder.

Quando os soviéticos ocuparam o Afeganistão, entre 1979 e 1989, promoveram eleições mais justas que a promovida pelos EUA. Claro que o homem dos soviéticos, Najibullah, venceu, mas pelo menos os dissidentes tiveram voz. Na eleição promovida por Washington, a verdadeira oposição está excluída. Os EUA usaram o mesmo truque nas eleições iraquianas.

Ironicamente, os EUA e os seus aliados da Nato têm criticado o Irão pelas falhas nas suas recentes eleições presidenciais, enquanto promovem eleições bem mais questionáveis no Iraque e no Afeganistão.

A ONU, que, nas palavras de um experiente diplomata americano, se transformou na 'principal ferramenta da política externa dos EUA', está a ser usada para validar as eleições promovidas pelos EUA. O débil chefe actual da ONU, Ban-Ki moon, foi posto no cargo por Washington.

Entretanto, os média norte-americano continuam a enaltecer as eleições. Têm perda de memória de longo prazo.

Em 1967, o New York Times, que hoje apoia a guerra no Afeganistão, escreveu das eleições supervisionadas pelos EUA no Vietname mergulhado em guerra que "83% dos eleitores votaram... numa especialmente bem-sucedida eleição... a pedra-de-toque da política do presidente Johnson de encorajar o crescimento do processo constitucional no Vietname".

A votação pode ser renhida, porque muitos afegãos não gostam de Karzai, forçando uma segunda volta. Washington pode impor um "CEO" aprovado pela CIA e o Banco Mundial ao pobre Karzai, tornando-o uma figura dupla.

Quem quer que ganhe, o presidente Barack Obama terá o poder real no Afeganistão.

O devastado Afeganistão precisa de eleições genuínas e honestas, e uma reconciliação nacional paciente, livre de manipulação externa. Esta é a única verdadeira via para a paz.

Os Estados Unidos têm muito a ensinar ao Afeganistão sobre como fazer eleições limpas e construir as instituições essenciais da democracia. Como sublinhei no meu último livro, " American Raj - American and the Muslim world" [O Raj americano - os americanos e o mundo muçulmano"], é isto que os Estados Unidos deviam estar a exportar ao mundo não-democrático, não bombardeiros B-1 e Predators.

Realizar eleições falsas não tem qualquer valor para os Estados Unidos e rebaixa os seus valores e tradições. O caminho para a paz real e a estabilidade no Afeganistão só pode ser o do consenso nacional e um acordo negociado que inclua os Taliban e os seus aliados.

Mas o presidente Obama está desesperado por ter algum tipo de vitória, apesar de nem sequer conseguir definir adequadamente o termo. Experientes generais dos EUA advertiram para o perigo de derrota no Afeganistão se a guarnição dos EUA não for duplicada. O conflito continua a espalhar-se no vizinho Paquistão. Os americanos estão a ser preparados para uma ampliação da guerra para "defender a democracia afegã".

Os EUA e a Nato olham horrorizados o crescimento abrupto das baixas e nada têm a mostrar aos eleitores da última desventura imperial afegã a não ser sacos de cadáveres e tentadoras miragens de gás e petróleo da Ásia central.

Eric S. Margolis é um colunista premiado. Os seus artigos são publicados no New York Times, no International Herald Tribune, no Los Angeles Times, no Times de Londres, no Gulf Times, no Khaleej Times e no Dawn.

www.ericmargolis.com

18 de Agosto de 2009

Tradução de Luis Leiria

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