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Die Linke: somos um factor de perturbação

Tropas alemãs fora do Afeganistao - Um ponto fundamental do programa do Die LinkeDesde a sua fundação e mantendo uma política coerente baseada nos nossos pontos estratégicos e participando politicamente a todos os níveis desde o parlamento até aos conselhos nas cidades, os outros quatro partidos neoliberais viram-se obrigados a adequar as suas posições e soluções com base nestes pontos de conflito.
Por Carlos A. Mejía Cortés, para rebelion.org. 

Tropas alemãs fora do Afeganistao - Um ponto fundamental do programa do Die LinkeDepois da traição histórica do SPD (Partido Social Democrata alemão, na sigla em alemão) ao povo trabalhador durante o governo de coligação vermelho-verde de Schröder, quando foi perpetrada a contra-reforma do sistema social, cumprindo assim com as metas impostas pelo neoliberalismo, um grupo de sindicalistas da ala esquerda resolveu deixar o partido social-democrata sob o lema: até aqui chegamos.

Por Carlos A. Mejía Cortés, para rebelion.org

Diríamos hoje que eles desceram do carro neoliberal que este partido tomou. Este grupo de "desencantados", juntamente com outros movimentos alternativos e sindicalistas, fundou uma associação com traços políticos e eleitorais, a WASG (Alternativa Eleitoral e Justiça Social, na sua sigla em alemão).

Depois da sua transformação em partido em Janeiro de 2005, a WASG conseguiu atrair ao seu projecto político o ex-ministro social-democrata Oskar Lafontaine na primavera do mesmo ano. Por essa altura, este partido tinha jogado o seu futuro político nas eleições regionais da Renania do Norte-Westfalia conseguindo uns muito respeitáveis 2,2% com apenas escassas semanas de organização para a campanha eleitoral.

Este foi um claro sinal de que o partido tinha um potencial tanto político como eleitoral. Pode-se dizer, sem exagerar, que o país precisava de uma nova resposta política para os problemas que atingiam sectores da população mais desfavorecidos. Um partido à esquerda do SPD, à esquerda da social-democracia.

E isto era algo considerado inaudito e inaceitável, recordemos que estamos a falar da terceira potência económica do mundo naqueles anos. Como consequência lógica, Lafontaine retirou-se do SPD e ingressou na WASG.

Na região da antiga RDA, o refundado partido PDS (Partido do Socialismo Democrático, na sua sigla em alemão) ia aumentando a sua força progressivamente. No entanto, este partido não contava com maiores possibilidades de sucesso na velha Alemanha ocidental.

Como resultado desta situação, o PDS era incapaz de ultrapassar a barreira eleitoral de 5% a nível federal para obter representação no congresso. Por outro lado, a WASG, como novo partido, não contava nesse momento nem com uma organização estável nem com uma logística que lhe permitisse superar também esses 5% nas eleições antecipadas para Setembro de 2005.

Talvez uma coligação dos dois partidos fosse a solução para superar este obstáculo de 5%. Mas existia um problema para esta proposta. A lei alemã dos partidos políticos não contempla a existência desta figura política, mas tão só a de partidos legalmente constituídos. Só partidos podem participar em eleições em todos os níveis.

Como solução para esta disjuntiva foi proposto, em termos gerais, uma agenda que permitisse a estas duas organizações participar nas eleições federais conjuntamente. Este primeiro ponto da proposta permitia a membros da WASG participar nas listas do PDS. Com Oskar Lafontaine à cabeça, o PDS passou de 2 deputados a 54 representantes no parlamento.

O segundo ponto era a convergência destes dois partidos fonte num só partido, o que implicava implicitamente a dissolução, primeiro, dos dois partidos, e depois a sua fusão num só partido, Die Linke (A Esquerda, em alemão). Este importante acontecimento materializou-se dois anos depois, durante o congresso de fundação, a 16 de Junho de 2007.

Desde 2005, pode-se dizer que este movimento em torno de Die Linke tem transformado profundamente o panorama político do país. Constituiu-se agora um sistema político baseado em 5 partidos. Esta nova força política foi-se consolidando continuamente para evitar ser "flor de um dia".

Hoje em dia, é considerado como um movimento político a longo prazo. Nas eleições verificou-se o seu estabelecimento definitivo no sistema político do país. Desde logo, a sua ascensão meteórica constitui por si só um marco histórico difícil de repetir no futuro e isto já pertence aos anais da história da Alemanha.

É claro, além disso, que sob esta nova correlação de forças, não voltará a ser possível que os velhos grandes partidos, CDU (União Democrata Cristã, nas suas siglas em alemão) e SPD, repitam os resultados eleitorais de outras épocas com valores superiores a 40%.

Desde há algumas décadas, mas muito particularmente nos últimos 8 anos, iniciou-se para eles um desgaste agudo e continuado. Eles, estes grandes partidos, são os verdadeiros perdedores desta nova situação.

As eleições de 30 de Agosto foram um autêntico baque, foram o seu Waterloo. Foram também uma bofetada esclarecedora para partidos e meios de comunicação que trataram de utilizar o espectro do anti-comunismo na campanha.

Os institutos de sondagens também saíram mal vistos e a sua credibilidade diminuiu, pois, na maioria das vezes, prognosticaram resultados com margens de erro exageradamente grandes e muito desfavoráveis para o Die Linke.

Nalguns casos, deram-se diferenças de até 6 ou 7 pontos abaixo dos valores percentuais obtidos nas eleições.

O nosso partido continuará a representar uma política contrária ao neoliberalismo. A nossa posição é e será consequente por um sistema com justiça social baseado no respeito absoluto pela dignidade humana. Na nossa agenda permanecem alguns pontos mais de índole pragmática que programática, os chamados temas inegociáveis, como:

  • Revogação das leis da contra-reforma do sistema social (Agenda 2010 ou Hartz IV), pela implementação de um salário mínimo e revogação do direito à reforma apenas a partir dos 67 anos. Por um sistema de segurança social digno. Pelo direito à educação gratuita.

  • -Solução pacifica dos conflitos nacionais e internacionais mediante o diálogo e acordos entre as partes. Não às intervenções militares. Saída imediata das tropas do Afeganistão.

  • Respeito pela dignidade humana, não à discriminação, contra o fascismo.

  • Desenvolver, incentivar e implementar alternativas económicas-ecológicas inovadoras, e ainda melhor, se elas implicarem a geração de novos postos de trabalho.

  • Não à privatização dos serviços públicos, recomunalização dos já privatizados. Nacionalização das empresas com tecnologias chave para a economia do país.

  • Financiamento do sistema de segurança social a partir do aumento de impostos às classes abastadas da sociedade.

Não se contempla, de momento, nenhuma aproximação a nível federal com o SPD. A condição para iniciar diálogos sérios só se pode dar quando o SPD retomar de novo o caminho social-democrata e retirar do poder as fortes correntes neoliberais.

Naturalmente, nalgum momento o SPD se verá obrigado a longo prazo a dialogar com o Die Linke, se quiser, na verdade, voltar a ser uma autêntica alternativa de poder. Mas, para que isto aconteça, o SPD deve abandonar a sua obstinada obsessão de implementar o modelo neoliberal.

Com estes pontos estratégicos acima mencionados, obrigou-se a que sejam os outros partidos os que procurem respostas para estes pontos. Falar da implementação do salário mínimo há 5 anos era quase um tabu. Hoje todos os partidos se posicionam com as suas repostas, desde aquela que o recusa incondicionalmente até às que propõem soluções moderadas.

Da mesma forma acontece com outros temas nevrálgicos. Se observarmos as votações sobre estes temas que tiveram lugar no Congresso nos últimos anos antes da fundação do partido, elas mostram um denominador comum.

Um divórcio entre a opinião pública e os partidos políticos no Congresso. As leis da contra-reforma do estado social obtiveram resultados acima de 98% na votação do congresso. Mais de 90% da opinião pública não apoiou a sua aprovação.

Enquanto a imensa maioria apoiava o salário mínimo, os partidos votaram contra este projecto com uma percentagem superior a 98%.

Mais de 80% dos alemães estavam contra a intervenção militar no Afeganistão, no congresso votou-se, naquela ocasião, com mais de 98% a favor do envio de soldados para aquele país.

Estes resultados não reflectiam de forma nenhuma o sentimento maioritário sobre estes temas na população, mas ao contrário expressavam um sentimento antidemocrático que devia ser enfrentado consequentemente.

Desde a sua fundação e mantendo uma política coerente baseada nos nossos pontos estratégicos e participando politicamente a todos os níveis desde o parlamento até aos conselhos nas cidades, os outros quatro partidos neoliberais, CDU, SPD, os Verdes e os liberais (FDP) viram-se obrigados a adequar as suas posições e soluções com base nestes pontos de conflito.

Pontos que não estariam nas suas agendas se o nosso partido não existisse. Por esta razão é que afirmamos que o Die Linke é um factor de perturbação no sistema político da Alemanha.

Carlos A. Mejía Cortés é membro da direcção do partido Die Linke no município de Rendsburg-Eckernfoerde e membro da fracção do partido no conselho da cidade de Eckernfoerde.

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