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Deslocalizações

OPEL DA AZAMBUJA EM ESTRASBURGO
manif_gm_smallRepresentantes da fábrica da Azambuja estiveram ontem no Parlamento Europeu para divulgar a sua luta. Com eles estiveram igualmente sindicalistas da Saab sueca – que pertence igualmente à General Motors – e ainda trabalhadores italianos de uma multinacional de origem norte-americana, a Eaton, que fabrica válvulas para a indústria automóvel, e que está a tentar deslocalizar uma fábrica do Piemonte para a Polónia.

O convite do Grupo da Esquerda Unitária aliou-se à inclusão, na agenda do Plenário, do tema das deslocalizações industriais na Europa, também por iniciativa deste grupo parlamentar. Se bem que o Parlamento não tenha neste domínio – aliás como em muitos outros – quaisquer poderes, a visita e o debate deram visibilidade europeia a uma luta que já extravasa as fronteiras do nosso país. Permitiram ainda confrontar posições e a coerência entre palavras e actos. 

"Quando chegará a minha vez?"
O comissário europeu responsável pelas empresas e Indústria, Gunter Verheugen, não poderia ter começado melhor a sua intervenção: "Lucros por um lado, encerramento e deslocalização de empresas por outro. Quando chegará a minha vez? Quando será afectado o meu emprego? Muitos trabalhadores na Europa vêem-se hoje confrontados com estas questões". Mas depois... depois nada, a não ser mais do mesmo. Porque, afinal, "cabe às empresas a decisão de fecharem as suas portas ou de deslocalizarem as suas actividades". "Nem os Estados nem a União Europeia podem ou devem interferir – e o caso da Azambuja não é excepção, rematou.
A única novidade do comissário foi a confirmação de que a Comissão Europeia solicitou ao governo português que investigasse se fundos europeus foram atribuídos à fábrica. "Se for esse o caso, faremos com que as nossas condições sejam respeitadas", concluiu.
O debate proposto pelo GUE pôde ser agendado porque os socialistas e os verdes se associaram à iniciativa. O líder parlamentar do PS Europeu fez mesmo uma intervenção muito dura contra a "crueldade" com que as multinacionais tratam os seus empregados. Deu como exemplo o escândalo de a seguradora mundial Allianz, de origem alemã, estar a procurar despedir 8 mil trabalhadores quando apresenta lucros de 4,4 mil milhões de euros... só para garantir a distribuição de dividendos entre os seus accionistas. E concluiu: “as multinacionais têm imensa fantasia para obter fundos e resultados. Mas nenhuma para fecharem as fábricas". Contudo, só amanhã se saberá se a sua firmeza nas palavras – bem como a de eurodeputados do PS português – se traduzirá numa posição consistente, quando quinta-feira for a votos uma Resolução sobre o assunto. Para já, o PSE alinhou numa resolução com a direita parlamentar que afasta o caso concreto da Azambuja do seu âmbito, o que levou a esquerda a não subscrever esse compromisso e a manter as suas emendas para votos em separado.

O horizonte automóvel
Os trabalhadores mantiveram encontros com diversos eurodeputados e puderam expor circunstanciadamente a situação das respectivas fábricas. Na Eaton do Piemonte, os trabalhadores fazem piquete dia e noite à porta da empresa para evitar que a administração proceda à deslocalização das máquinas e ferramentas. Na fábrica Saab, que atravessa uma situação de reestruturação há vários anos, as idas ao psiquiatra vêm aumentando exponencialmente, bem como as baixas por stress, que aumentaram 300 por cento nos dois últimos anos.
Mas o que ficou como nota importante foi a extraordinária solidariedade demonstrada pelos operários da GM em diversas fábricas da Europa, com várias paralisações de laboração, apesar da concorrência desenfreada que as multinacionais lançam sobre as suas próprias fábricas para a obtenção de novos modelos. E também a convicção de que foi esta resistência transnacional que obrigou a GM europeia a decidir sentar-se à mesa com os trabalhadores para discutir a situação da Opel da Azambuja.
Quanto ao GUE, decidiu realizar ainda este ano uma conferência internacional sobre o sector automóvel. Em cima das mesas de discussão estarão os direitos e as obrigações que as multinacionais devem respeitar. Mas também o debate sobre o futuro do sector e sobre as políticas europeias que pura e simplesmente não existem porque esse é o interesse da própria globalização capitalista: ela coloca em concorrência não apenas as fábricas dos próprios grupos, mas também os países entre si. E assim é fácil perceber porque é que há sempre alguns que nunca perdem. Mesmo quando, como é o caso da GM, primam pela mais absoluta incompetência de gestão. No mesmo dia em que estes acontecimentos se davam em Estrasburgo, o Libération de Paris abria as suas páginas com um destaque sobre a GM – que apresentou 10,5 mil milhões de dólares de prejuízos em 2005 – e a possibilidade deste gigante de pés de barro vir a cruzar participações com a Renault e a Nissan. Na origem dos maus resultados não estão os salários dos operários nem as suas regalias sociais, mas uma gestão prolongadamente incompetente. E no entanto... quem paga são os mesmos de sempre: 30 mil despedimentos, quase 10 por cento dos trabalhadores desta multinacional foram despedidos nos EUA. E os boatos ou reais intenções pairam, não só sobre a Azambuja, mas sobre oito outras fábricas no espaço europeu.

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