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China: Gigante treme diante do aumento do desemprego

Trabalhadores da construção na China. Foto de Pepijn VanthoorVinte e dois anos após a brutal repressão estudantil na praça Tiananmen, a China volta a viver a mesma mistura de mal-estar e pessimismo diante do aumento do desemprego que em 1989 foi motivo dos protestos pela democracia.

Por Antoaneta Bezlova, de Pequim para a IPS

Agora, como nessa ocasião, um descontentamento inquietante fermenta entre os jovens profissionais que acabam os seus estudos e não encontram trabalho. Diante do medo de que aumente o mal-estar, as autoridades chinesas ofereceram restituir o que foi gasto nos estudos dos recém-formados que aceitarem trabalhar em áreas distantes e não muito desenvolvidas do país.

"No contexto da crise financeira internacional, o desemprego no nosso país é extremamente desalentador", afirmou o primeiro-ministro, Wen Jiabao, diante do Conselho Estatal, o gabinete chinês, numa reunião de emergência convocada na semana passada para tratar do assunto. "Temos de dar maior prioridade à criação de emprego para os jovens profissionais", insistiu, segundo o site governamental. Numa tentativa de promover a inovação no país, o governo promoveu nos últimos anos a educação superior e conseguiu, de facto, aumentar o número de matrículas.

Cerca de 6,1 milhões de jovens profissionais entrarão no mercado de trabalho em 2009, quase meio milhão a mais do que no ano passado, mas as suas perspectivas profissionais são cada vez mais difusas. Mais de 30% dos 5,6 milhões de formados no ano passado não tinham conseguido trabalho em Agosto de 2008, segundo a Sociedade Chinesa de Pessoas em Busca de Emprego, uma publicação da Academia Chinesa de Ciências Sociais que avalia o clima da população. Os pesquisadores da academia concluíram que o desemprego nos centros urbanos chegou a 9,4% da população economicamente activa.

A China não divulga dados confiáveis sobre o desemprego e os economistas não acreditam que as cifras oficiais de 4% levem em conta factores como mobilidade dos trabalhadores emigrantes e os pobres das cidades. O descontentamento com o qual devem lidar as autoridades não é apenas o dos jovens recém-formados, mas também o dos seus pais, que investiram as suas economias na educação dos filhos. "Nunca pensámos que o problema fosse encontrar trabalho", disse um agente de viagens cuja filha começará a procurar emprego no próximo Verão. "Sempre nos fizeram crer que, se pagássemos mais cursos, ela teria acesso às melhores universidades e também um bom emprego numa empresa. Mas, agora que as companhias estão a despedir, já não estamos tão seguros", acrescentou.

Alguns jovens partiram para cidades mais ricas com Guangzhou, no sul, em busca de emprego para tarefas domésticas e de ama, segundo a imprensa estatal. Entre 500 e 600 pessoas registaram-se todos os meses nas bolsas de trabalho, na sua maioria universitários, segundo o jornal provincial Guangzhou Daily. Para evitar a reacção de país e filhos, o governo anunciou na semana passada que os recém-formados que aceitarem trabalhar nas regiões central e ocidental, as mais pobres do país, poderiam conseguir uma restituição total dos gastos com a sua formação.

"Esta decisão revela a determinação do governo de estabilizar o mercado de trabalho", afirmou o especialista da academia de ciências sociais Chen Guangjin ao jornal China Daily. Além disso, a revista Outlook, publicada pela agência estatal de notícias Xinhua, afirmou que o menor crescimento económico afectará especialmente os trabalhadores imigrantes e os recém-formados.

O descalabro financeiro causou o encerramento de aproximadamente 670 mil pequenas e médias empresas na China, muitas delas fábricas localizadas na zona costeira. O Ministério de Recursos Humanos e Seguro Social estimou que mais de 10 milhões de imigrantes perderam os seus trabalhos, segundo a revista. "Estamos a entrar num período mais turbulento", disse à revista Huang Huo, chefe do escritório da Xinhua na cidade de Chongqing. "Haverá mais conflitos e confrontos em 2009, que vão colocar à prova a capacidade de governar do partido e das autoridades".

O massacre de civis desarmados de 1989 na praça de Tiananmen continua a ser uma mancha para o Partido Comunista, e não há relações públicas que consiga apagá-la. As manifestações desse ano foram motivadas pela situação económica e pela inflação, e agravadas por pedidos de democracia e mudança de regime. O drama teve o seu epicentro em Pequim, mas milhões de pessoas manifestaram-se noutras cidades, criando o maior movimento político já ocorrido na China. Agora, o Partido Comunista tenta resgatar a economia mediante investimentos em projectos de infra-estrutura com a construção de estradas, ferrovias, aeroportos e casas de baixo custo.

Pequim anunciou um pacote de estímulo no valor de quatro mil milhões de yuans (cerca de 585 mil milhões de dólares) para evitar os efeitos da queda económica. Mas o Banco Mundial afirma que as medidas fiscais e monetárias previstas pelas autoridades chinesas não serão suficientes para relançar o crescimento, a menos que estejam acompanhadas de iniciativas de bem-estar social, que a China deixou de lado nos seus projectos de infra-estrutura. A economia chinesa cresce com cifras de dois dígitos desde 2003 e teve um máximo de 11,9% em 2007. Mas, no ano passado, o crescimento foi de 9% entre Junho e Setembro, o que ameaça a economia na qual o regime comunista baseia a sua credibilidade de partido único.

A China sustenta que deve manter um crescimento de pelo menos 8% para manter os números de desemprego num nível manejável e evitar o mal-estar social. Porém, as previsões para este ano são pouco animadoras. A Goldman Sachs situou o crescimento da China em 6% este ano, enquanto para o Moody's Investors Service pode cair até 5%.

12/1/2009

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