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Carta de Guantanamo - A voz de um prisioneiro

GuantanamoUm dos actuais prisioneiros detidos fala da tortura e da humilhação a que foi sujeito em Guantanamo desde 2002. Jumah al Dossari é um cidadão do Bahrein de 33 anos de idade. Este artigo foi extraído das cartas que ele escreveu aos seus advogados. Os seus conteúdos não foram considerados confidenciais pelo Departamento de Defesa.
11/01/07 ‘Los Angeles Times' - Base Naval de Guantanamo, Cuba - Estou a escrever da escuridão do campo de detenção de Guantanamo na esperança de que possa fazer ouvir as nossas vozes no mundo. A minha mão treme enquanto seguro esta caneta.

Em Janeiro de 2002, fui sequestrado no Paquistão, vendaram-me os olhos, fui agredido, drogado e colocado num avião com destino a Cuba. Quando saímos do avião em Guantanamo, não sabíamos onde estávamos. Levaram-nos para o Campo Raio-X e trancaram-nos em celas com dois baldes - um vazio e outro cheio de água, um para urinar, o outro para nos lavarmos.

Em Guantanamo, os soldados agrediram-me, fui detido na solitária, ameaçado de morte, ameaçaram matar a minha filha e disseram-me que iria passar o resto da minha vida em Cuba. Fui privado de dormir, forçado a ouvir música extremamente alta sob uma luz intensa dirigida à minha cara. Fecharam-me em salas geladas durante horas sem comida, bebida, sem a possibilidade de ir à casa de banho nem para me lavar para as orações. Fui enrolado numa bandeira de Israel e disseram-me que existe uma guerra santa entre a Cruz e a Estrela de David por um lado e o Crescente por outro. Espancaram-me até perder os sentidos.

Estas palavras que escrevo não são fantasias da minha imaginação, nem devaneios da minha insanidade. São factos testemunhados por outros presos, representantes da Cruz Vermelha, inquiridores e tradutores.

Durante os meus primeiros anos em Guantanamo, fui interrogado diversas vezes. Os meus inquiridores disseram-me que queriam que eu admitisse a minha pertença à Al Qaeda e o meu envolvimento em ataques terroristas aos Estados Unidos da América. Eu disse-lhes que não tinha qualquer relação com o que eles descreviam. Eu não sou membro da Al Qaeda. Eu não encorajei ninguém a lutar pela Al Qaeda. A Al Qaeda e o Bin Laden não fizeram mais que matar e denegrir a religião. Eu nunca combati, nem usei uma arma. Eu gosto dos Estados Unidos da América e eu não sou o inimigo. Eu vivi nos EUA, eu quis tornar-me cidadão.

Eu sei que os soldados que me fizeram mal se representam a si próprios, não os EUA. E tenho que dizer que nem todos os soldados americanos estacionados em Cuba nos torturam, nem nos agridem. Existem soldados que nos têm tratado humanamente. Alguns até choraram quando testemunharam as nossas condições. Uma vez, no campo Delta, um soldado pediu-me desculpa e ofereceu-me um chocolate quente e bolachas. Quando lhe agradeci disse-me que não tinha nada a agradecer. Escrevo isto porque não quero que os leitores pensem que eu acuso todos os americanos.

Mas porque é que passados cinco anos não existe um fim para a situação em Guantanamo? Durante quanto tempo mais irão pais, mães, esposas, irmãos e filhos chorar pelos seus entes queridos detidos? Durante quanto tempo irá a minha filha questionar-se acerca do meu regresso? As respostas só poderão ser encontradas pelas pessoas de mente justa na América.

Eu prefiro morrer a ficar aqui para sempre e já tentei suicidar-se diversas vezes. O propósito de Guantanamo é destruir pessoas, e eu fui destruído. Não tenho esperança porque as nossas vozes não são ouvidas das profundezas do centro de detenção.

Se eu morrer, por favor lembrem-se que existiu um ser humano chamado Jumah em Guantanamo, cujas crenças, dignidade e humanidade foram abusadas. Por favor lembrem-se que existem centenas de presos em Guantanamo que sofrem a mesma má sorte. Não foram acusados de quaisquer crimes. Não foram acusados de cometer qualquer acção contra os Estados Unidos.

Mostrem ao mundo as cartas que vos entrego. Deixem o mundo lê-las. Deixem o mundo saber a agonia dos detidos em Cuba.

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