You are here

Caos no Iraque (3)

GENERAL REFORMADO DIZ QUE MAIS TROPAS NÃO RESOLVEM
iraqueussoldierswebO general-de-brigada reformado e ex-chefe de planeamento estratégico na NATO Zeb Bradford explica neste artigo por que tecnicamente o reforço de mais 50 mil soldados americanos não resolve nada no Iraque. Ele lembra que "se uma ampliação de 50 mil homens fosse implementada para as forças norte-americanas estacionadas no Iraque, o Exército, por si só, precisaria ampliar os seus efectivos em 100 mil soldados, um vasto aumento de forças. Isso simplesmente não é viável em prazo que fizesse qualquer diferença." Bradford defende uma solução política, através de "negociações com as partes interessadas num desfecho positivo no Iraque, para que estas contribuam com apoio político e militar, a fim de permitir que o país se estabilize e se encontre uma solução negociada. O processo incluiria Irão e Síria, além da Arábia Saudita, Jordânia e outras nações." Leia abaixo a íntegra do artigo.

Mais tropas não resolvem crise

 ZEB BRADFORD

FINANCIAL TIMES

Os efectivos actuais dos Estados Unidos no Iraque são de 140 mil homens, incluindo elementos da Guarda Nacional e da reserva do Exército, bem como unidades do Corpo de Fuzileiros Navais. Para sustentar uma força dessas dimensões, o complemento militar básico necessário é cerca de duas ou três vezes maior. Para cada unidade envolvida em operações, é preciso que haja força equivalente preparando-se para substituir a unidade que encerrará o seu ciclo operacional e mais uma que tenha retornado recentemente aos Estados Unidos, para se reequipar, treinar novos soldados e permitir que o pessoal passe algum tempo com as suas famílias.

Se uma ampliação de 50 mil homens fosse implementada para as forças norte-americanas estacionadas no Iraque, o Exército, por si só, teria necessidade de ampliar os seus efectivos em 100 mil soldados, um vasto aumento de forças. Isso simplesmente não é viável em prazo que fizesse qualquer diferença. No que tange às unidades da Guarda Nacional, existem limites quanto à duração do serviço activo que pode ser imposto a uma unidade da Guarda Nacional (24 meses). E esse limite já começa a ser atingido por muitas das unidades em serviço.

Isso faz com que a pressão sobre a estrutura logística do Exército no Iraque aumente, já que o pessoal e as unidades envolvidas nesse tipo de trabalho também precisam passar por rotação regular entre o teatro de operações e os Estados Unidos. Além disso, as forças norte-americanas têm outras responsabilidades importantes, como a defesa da Coreia do Sul e do Afeganistão, e elas precisam ser sustentadas. É evidente que existem tropas adicionais disponíveis, mas utilizá-las para essa finalidade imporia um custo inaceitável às Forças Armadas norte-americanas como um todo, e prejudicaria a posição militar dos Estados Unidos no resto do mundo.

A decisão de invadir o Iraque com uma força mínima concebida estritamente para uma campanha ao modo blitzkrieg foi um grande equívoco, que agora se tornou impossível corrigir em termos militares. Os arquitectos da estratégia norte-americana no Iraque não esperavam uma longa ocupação e uma insurgência tão virulenta. Os Estados Unidos não dispõem de capacidade existente para ampliar de maneira dramática as forças que mantêm no Iraque, e além disso não existe vontade política para sustentar uma tentativa nesse sentido, se os resultados das recentes eleições intercalares servem como orientação. Quaisquer acções que venham a ser tomadas no futuro devem ter por objectivo compensar a incapacidade dos Estados Unidos para resolver a situação sem ajuda. Precisamos reconhecer que o Irão continuará a exercer influência significativa. O país teve o seu prestígio reforçado com a derrota imposta pelos Estados Unidos aos taliban afegãos e ao regime de Saddam Hussein, liderados por sunitas.

Em lugar de tentar um reforço rápido das tropas presentes, deveríamos estabelecer negociações com as partes interessadas num desfecho positivo no Iraque, para que estas contribuam com apoio político e militar, a fim de permitir que o país se estabilize e se encontre uma solução negociada. O processo incluiria Irão e Síria, além da Arábia Saudita, Jordânia e outras nações.

Deveríamos dedicar alguns meses a essas negociações, mas sem estabelecer um prazo-limite. Caso a ideia fracasse, devemos estar preparados para negociar com os iraquianos uma retirada ou redisposição das tropas norte-americanas, a fim de limitar ao máximo as consequências adversas que a decisão possa causar. A primeira exigência, porém, é reconhecer as nossas limitações.

 ZEB BRADFORD, general-de-brigada reformado, é executivo do Citigroup e foi chefe de planeamento estratégico na NATO.

 Tradução de PAULO MIGLIACCI, para a Folha de S.Paulo, adaptada para português de Portugal pelo Esquerda

Termos relacionados Internacional