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Alterações climáticas sem acordo à vista

Os ministros do Ambiente do Brasil, África do Sul, Índia e China duvidam que se chegue a um acordo vinculante contra a mudança climática na próxima conferência do México. Artigo IPS.

“Não há avanço à vista”, disse o ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh. Foto Matthew McDermott/FlickrOs ministros do Ambiente do Brasil, África do Sul, Índia e China duvidam que se chegue a um acordo vinculante contra a mudança climática na próxima conferência do México. Artigo IPS.

 

Os ministros do Meio Ambiente do grupo conhecido como Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) duvidam que se chegue a um acordo vinculante contra a mudança climática na conferência internacional prevista para dezembro em Cancún, no México. 

“Não há avanço à vista”, disse o ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh. Por sua vez, a ministra de Água e Assuntos Ambientais da África do Sul, Buyelwa Sonjica, admitiu que as conversações internacionais estão complexas. Afirmou que, para concretizar um tratado satisfatório, antes são necessárias negociações honestas, “baseadas na igualdade”.

O Basic, junto com Estados Unidos e União Europeia, contribuiu para elaborar o Acordo de Copenhague no encerramento da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15), realizada em dezembro na capital dinamarquesa. Esse acordo não vinculante foi visto como um último recurso para salvar a dignidade do encontro, que esteve prestes a terminar sem consenso.

A terceira reunião do grupo Basic realizada desde então terminou no domingo com uma declaração em que as quatro economias emergentes do Sul em desenvolvimento destacam sua “determinação em continuar mostrando liderança nas ações sobre mudança climática”. Também disseram que cumpririam as “ações nacionais de mitigação apropriadas” com as quais se comprometeram em dezembro passado. Mas as limitações que sofreram as conversações de Copenhague seguem intactas. Os países do Norte industrializado não estão dispostos a assumir novos compromissos se as economias de crescimento mais rápido no Sul não fizerem o mesmo.

Os principais países do Sul que contaminam resistem em aceitar metas vinculantes de reduções de gases-estufa. Os países do Basic insistem em dizer que o Norte é o maior responsável pelo aquecimento global, e, portanto, exigem que diminua suas emissões e forneça tecnologia às nações mais pobres para que possam empreender um caminho de crescimento não contaminante. Mithika Mwenda, da rede Ação Pan-Africana pela Justiça Climática (Pacja), com sede em Nairóbi, alertou que “a pressão dos países industrializados está desviando a responsabilidade”.

“O primeiro período de compromissos do Protocolo de Kyoto (único instrumento internacional contra a mudança climática) está quase expirando sem que os países industrializados tenham atingido as metas estabelecidas. O Norte deveria cumprir seus compromissos iniciais antes de fazer exigências ao Sul”, disse Mwenda. Os países da UE alcançaram sua meta coletiva de reduzir as emissões em 4% com relação aos níveis de 1990, mas isto foi obtido em grande parte graças ao colapso das economias da Europa oriental, que eram grandes fontes de contaminação.

As emissões de Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Suíça cresceram todas 25% desde 1990. As do Japão aumentaram cerca de 9%, e as dos Estados Unidos – maior contaminador e não integrante do Protocolo de Kyoto – cresceram 16%. Enquanto isso, o Sul, as emissões do grupo Basic crescem rapidamente. “As nações do Basic estão sendo pressionadas para assumirem seus compromissos. A China esta emitindo muito, mas suas emissões por habitante são muito baixas em comparação com as dos Estados Unidos e de outros países do Norte industrial”, disse Mwenda. As economias emergentes – explicou – não se negam a assumir compromissos. Estão exigindo apoio por parte do Norte industrializado para construir economias verdes.

Porém, Melita Steele, da organização ambientalista Greenpeace, rejeitou estes argumentos “Não estamos certos de que os governos do Basic estejam mostrando um compromisso com o desenvolvimento verde em seus próprios países ou reconhecendo a urgência do assunto. A mudança climática é uma crise e deveria ser tratada como tal”, afirmou. Para o Greenpeace, a África do Sul poderia obter 70% da energia que precisará até 2050 a partir de fontes renováveis, sobretudo se forem garantidos financiamentos ao Sul não pelas opções contaminantes tradicionais. “O recente empréstimo do Banco Mundial de US$ 3,75 bilhões para um projeto de cobre precisou ser canalizado para energias renováveis”, afirmou.

Por sua vez, o diretor da organização ambientalista GroundWork, Bobby Peek, vê interesses das corporações internacionais por trás dos entraves nas negociações. “Quanto mais demorarmos para alcançar um acordo, melhor será para governos como dos Estados Unidos e da África do Sul, e as grandes corporações querem manter o status quo”, afirmou. A tragédia – disse – é que essas empresas não contribuem necessariamente de forma significativa com o produto interno bruto de países em desenvolvimento como a África do Sul. “Por exemplo, a gigante da mineração BHP Billiton consome 10% da energia sul-africana, mas só contribui com 0,1% do PIB. É uma farsa”, afirmou.

As economias emergentes continuarão fazendo reuniões separadas, preparando o terreno para a Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-16) em Cancún, e integrando outros países mais vulneráveis do Sul agrupados no chamado “Basic Plus”. Mwenda destacou a importância de construir blocos regionais para negociar. “Esta é a forma como a África ganhou influência junto ao Grupo dos Oito países mais poderosos. Estamos pressionando para garantir que a conferência do México tenha um resultado justo, equitativo e vinculante”, ressaltou.


Artigo IPS/Envolverde

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